UMA
HISTÓRIA DO CORPO DE
MATERIAL BÉLICO DE ISRAEL
"Os heróis
das Forças de Defesa de Israel não são
seus generais, mas seu pessoal de
manutenção."
Alistair Buchanan, Presidente do Instituto
de Estudos Estratégicos Britânico
ORIGENS
A oposição árabe aos judeus na Palestina
iniciou-se após a Declaração
Balfour em 1917, que apoiava a
idéia de uma pátria judaica ali situada. Na década
de 20,
houve uma séries de agitações e motins no
território da Palestina, então sob o governo
britânico devido a um Mandato da Liga das Nações.
Em 1936, uma revolta árabe levou o governo britânico a
recomendar a partição da região entre
árabes e judeus (aprovada em 1947 pela ONU, mas rejeitada pelos
árabes).
Quando se tornou claro que os britânicos pretendiam sair da
área nos meados de maio de 1948, os líderes judaicos
decidiram implantar unilateralmente a partilha da região,
criando o Estado de Israel
no dia 14 de maio de 1948.
As origens do Corpo de Material Bélico das Forças
de
Defesa de Israel remontam à
organização
militar denominada Haganah,
fundada em 1920 como um grupo de auto-defesa
dos judeus
na Palestina. Embora ilegal, já em meados da década de 30
virtualmente todos os membros das comunidades judaicas faziam parte da
organização.
Este exército improvisado lutava ao lado dos ingleses para
controlar os motins árabes na Palestina, tentando proteger os
primeiros kibutz.
As lideranças da Haganah logo concluíram sobre a
necessidade de obterem armas modernas, incluindo blindados. Com
os britânicos ainda dominando a região, tendo sido imposto
um embargo de armas destinadas aos judeus, este objetivo tornou-se
quase impossível de ser alcançado por vias legais. Foi
decidido, então, em 1941, a criação de uma unidade
de material bélico, destinada a obter, manter e prover armamento
e munição de forma clandestina. Esta unidade foi o
embrião do futuro Corpo.
Muitas armas foram desviadas do arsenal britânico, algumas vezes
com apoio de militares simpatizantes à causa judaica.
Os primeiros blindados foram assim obtidos, alguns tendo sido montados
a partir de partes subtraídas dos depósitos de material
salvado. Estes ferros-velhos foram, da mesma forma, a principal fonte
de peças de reposição durante os primeiros tempos
do nascente Exército Israelense. Notadamente, os primeiros
elementos de material bélico improvisaram sobre restos de
material, transformando-os em instrumentos de combate, eficientes,
embora limitados.
O recrudescimento da situação na Palestina após o
término da II Guerra, com o levante dos árabes
contrários à criação do Estado de Israel,
aumentou a necessidade de proteção aos comboios
destinados às comunidades isoladas na região montanhosa
sob controle árabe.
A cidade de Jerusalém
também estava ilhada, somente sendo
atingida por meio de uma estrada de difícil trânsito, a
partir de Tel
Aviv. Os comboios de ajuda a essas localidades eram
freqüentemente emboscados, passando a exigir uma escolta armada.
Nesta missão, ante a inexistência de blindados, os
israelenses começaram a blindar seus caminhões, criando
as chamadas "borboletas", viaturas cujas laterais eram cobertas com
chapas de aço, sendo-lhes colocadas grades de
proteção
superiores, que se assemelhavam a asas.
A GUERRA DA
INDEPENDÊNCIA (1948-49)
No dia seguinte à declaração da
independência do Estado de Israel, exércitos de
países árabes, que rejeitaram a decisão da ONU que
criava o novo país, invadiram seu território a partir de
todas as suas fronteiras, iniciando a chamada Guerra
de Independência.
A luta foi travada em diversas frentes simultaneamente. No
norte, as recém-criadas Forças de Defesa de Israel
enfrentaram sírios, libaneses e a Frente de
Libertação Árabe;
no centro, a Legião Árabe; no sul, os egípcios. A
cidade de Jerusalém foi cercada, travando-se um batalha
contínua para suprir seus habitantes.
Os israelense travaram uma batalha estratégica em linhas
interiores, com todo o desespero de quem tenta resistir ao
estrangulamento. Em contraste, as forças árabes foram mal
coordenadas, tendo sido incapazes de um esforço unificado.
Durante a Guerra, os elementos de material bélico lidaram com um
vasto arsenal improvisadamente reunido. Tiveram, ainda, que
enfrentar o problema do desgaste do material empregado, devido ao mau
uso, negligência ou manutenção não
apropriada.
O ano de 1948 viu o nascimento do Corpo de Blindados, com a
organização da 8ª Brigada Blindada. Esta
denominação foi um tanto prematura, já que a
unidade contava somente com cerca
de 100 viaturas adaptadas.
Entre estas novas armas estava uma adaptação
das Dodge 4X4, reforçadas com uma ligeira blindagem e com uma
torreta onde era montada uma metralhadora, normalmente uma MG 34.
Tanques eram necessários com urgência, contudo. O Governo
israelense enviou, então, comissões de
aquisição ao redor do mundo para obterem o tão
necessário material. Estas tiveram pouco sucesso, ante a
limitação de recursos e por limitações de
ordem política.
Os único blindados que obtiveram foram tanques leves franceses
Hotchkiss, datados de antes da II GM, armados com canhões 37 mm.
Estes eram, contudo, melhores do que qualquer outro carro existente em
Israel; pelo menos, eles possuíam o canhão original e
munição suficiente.
Neste período, o armamento individual israelense era bastante
variado, incluindo fuzis Mauser 98 e Enfield .303, carabinas italianas,
metralhadoras-de-mão Sten (fabricadas localmente) e Thompson e
metralhadoras MG 34 Spandau e Bren.
Posteriormente, a metralhadora checa MG 38 Besa tornou-se a principal
arma de apoio dos batalhões de infantaria. Morteiros 81 mm
provinham apoio de fogo de artilharia, sendo substituídos
posteriormente nesta missão por canhões 65 mm de
montanha. No final de 1948, as brigadas receberam um pelotão de
morteiros 120 mm.
Os árabes não conseguiram impedir o estabelecimento do
Estado Judeu na Palestina. A guerra foi encerrada por um
armistício patrocinado pela ONU, tendo os israelenses conseguido
definir as fronteiras de seu território original.
A EVOLUÇÃO
Após o armistício de 1949, as FDI passaram por sua
primeira grande reorganização. O Corpo de Material
Bélico foi criado, passando a incorporar todo o sistema de
manutenção.
O material também foi reformulado. Ainda fazendo face a grandes
restrições econômicas, soluções
improvisadas tiveram que ser tomadas.
A fim de substituir os carros Hotchkiss, cujo desempenho na guerra fora
lamentável, foram adaptados tanques Sherman M4,
em uma engenhosa versão. Estes carros,
adquiridos na Itália em antigos depósitos americanos,
tinham sido canibalizados antes da venda, tornando seus canhões
inoperantes.
Para substituí-los, foram encontrados alguns tubos de
canhões Krupp 75 mm M911 em bom estado e com abundante
munição. Mas estes não possuíam o mecanismo
de culatra, que, mais uma vez, foi adaptado, a partir de restos de
obuseiros 105 mm. A solução final foi um tanque M4 com
canhão alemão e mecanismo da culatra norte-americano.
Para complicar ainda mais, por ser uma arma originariamente de
artilharia, a trajetória de suas granadas era muito alta,
indesejável para tiros contra alvos móveis. A
técnica
de tiro foi, então adaptada da do tiro direto de artilharia,
com efeitos questionáveis.
Posteriormente, novos 17 carros M4 foram adquiridos, desta
vez completos, a partir de depósitos nas Filipinas.
A atitude francesa diante de Israel mudou drasticamente com a
intensificação dos conflitos na Argélia, onde os
nacionalistas recebiam claro apoio egípcio. Em uma manobra
destinada a desestabilizar o Governo do Egito, a França
concordou em fornecer aos israelenses os modernos AMX-13, dotados com o
canhão 75 mm, e alguns Sherman M4A1 dotados com o canhão
76.2 mm, que saíam de serviço no Exército
Francês, considerados ainda modernos à época.
Foi fornecida, também, grande quantidade de
munição. A entrega destes carros foi coberta de grande
sigilo, tendo sido desembarcados de navios da armada francesa em praias
escondidas no norte de Israel. Esta operação
reforçou o Corpo Blindado Israelense com mais de 250 carros, que
eram ansiosamente esperados para aparelharem as três brigadas
blindadas que estavam sendo formadas.
Enquanto estes carros eram, desembarcados, outra operação
secreta estava sendo levada a cabo: a modernização do
Sherman M50 - um exemplo de como a engenhosidade de técnicos e
combatentes, postas lado a lado pode gerar grandes frutos.
A idéia original derivou do conceito britânico, adotado no
final da II Guerra Mundial, de montar um canhão de 17 libras na
torre do Sherman, o que obteve excelentes resultados em
ações contra os tanques alemães Tigre e Pantera.
A soldagem de uma caixa de aço à retaguarda da torre e o
deslocamento dos munhões do canhão para frente permitiam
o seu maior recuo e o equilíbrio da torre. Agora, os oficiais de
material bélico faziam face a problemas similares com
soluções similares.
Na época, os franceses desenvolviam o canhão
75 mm de tiro rápido, que era, na verdade, uma
evolução do canhão alemão 75 mm Kwk 42
(L/70). O canhão
francês proporcionava uma velocidade inicial de mais de 1.000
m/s para munição anti-tanque, o que o tornava o melhor
canhão do mundo na época. As autoridades francesas
concordaram
em vender o precioso canhão a Israel. Mas onde montá-lo?
Os Sherman eram bastante apreciados pela FDI, em especial por sua
performance no ambiente desértico. Suas
tripulações e equipes de manutenção
já eram bastante proficientes nele. A solução
óbvia parecia ser a montagem do canhão francês nas
torres dos M4.
Esta solução parecia mais fácil de ser dita do que
executada, no entanto. Uma missão técnica foi enviada ao
Arsenal de Bourges na França em 1954, onde desenvolveu um
protótipo, seguindo as linhas gerais da solução
britânica
anterior.
Ao invés da caixa de aço existente na versão
inglesa, um peso de chumbo foi soldado à retaguarda da torre,
como contrapeso. Muitas modificações foram feitas
até que "experts" no combate de tanques foram levados ao campo
de provas para testá-lo.
O conceito final do carro foi estabelecido a partir de necessidades de
ordem tática e técnica específicas para os
israelenses.
Após uma série de novas modificações, em
especial nos mecanismos de recuo, estava pronto o Sherman M50,
com os primeiros exemplares tendo sido
entregues nos meados de 1956, às vésperas de uma nova
guerra.
A CAMPANHA DO SINAI DE 1956
A despeito da assinatura do armistício em 1949, dando fim
à Guerra de Independência, nenhum acordo formal de paz foi
assinado entre Israel e seus vizinhos árabes, o que levou
à rápida deterioração das
relações entre eles.
Incursões através da fronteira, ataques dos guerrilheiros
"fedayeen"
e ondas de sanções
econômicas contra Israel estavam na ordem do dia.
Extra-oficialmente, havia informações de que estas
ações eram parte de um plano coordenado pelos
países árabes.
A conquista do poder no Egito por Gamal Abdel Nasser
em 1952 fez nascer uma nova onda de hostilidades
contra
Israel. Em 1955, Nasser realizou uma grande aquisição de
armas
em países do Bloco Comunista.
Em seguida, contrariando os termos do armistício de 1949, mandou
bloquear aos navios israelenses as águas internacionais, em
especial pelo Estreito de Tiran,
seu único acesso ao Mar Vermelho e ao
Extremo Oriente.
A formação de um comando conjunto
sírio-egípcio em 1955 somente poderia ser visto como uma
nova e séria ameaça contra Israel. Por outro lado, o
apoio egípcio à Frente de Libertação
Nacional na Argélia fez crescer o apoio francês aos
israelenses. Este apoio deu-lhes uma confiança de que não
seriam abandonados em um novo conflito contra os árabes, como o
tinham sido em 1948.
Em conseqüência, o Governo de Israel começou a
elaborar planos para um ataque preventivo contra o Egito no ano
de 1956, objetivando liberar o Estreito de Tiran e destruir bases
dos "fedayeen".
A nacionalização do Canal de Suez
em 26 de julho de 1956 provocou uma imediata
reação franco-britânica para liberá-lo,
dando a Israel a oportunidade para lançar sua ofensiva contra o
Sinai, em coordenação com os europeus.
Canal de Suez visto de
satélite.
(Foto NASA)
A Península
do Sinai constitui-se em um istmo
triangular separando os
territórios do Egito e Israel, com cerca de 150 km de
extensão desde seus extremo leste até o seu limite oeste,
o Canal de Suez. Suas partes central e norte são excelentes
terreno para as ações dos blindados.
No entanto, esta mesma área
apresenta algumas posições que, se defendidas, podem
impedir a progressão de forte inimigo, impedindo-o de penetrar
as regiões facilmente manobráveis no interior.
A rede de estradas é bastante limitada. A região é
pouco habitada, com poucas vilas. As poucas estradas são de
vital importância para quem quiser dominar a região
e seus entroncamentos constituem-se em acidentes capitais.
O dispositivo defensivo egípcio previa impedir o acesso
israelense ao interior da península, montando uma forte defesa
de área junto à fronteira e na Faixa de Gaza.
A Faixa de Gaza.
(Arte CIA)
A ordem de batalha israelense
incluía dez brigadas, sob dois comandos de nível de
divisão. A maioria dos meios estava dirigida contra o norte da
península e a Faixa de Gaza.
A única brigada blindada em serviço regular nas FDI, a 7ª Brigada
Blindada, fazia parte das
forças que atuariam ao centro, sendo dotada de tanques M4A3, com
o novo canhão 75 mm, M4A1E8 Supersherman, com canhão 76,2
mm e AMX-13, além de viaturas M3 "half-track".
Outras forças blindadas, oriundas da reserva, faziam parte das
demais brigadas. O uso de blindados ainda era bastante questionado
entre os membros do alto-comando israelense.
O assalto inicial previa o emprego prioritário das tropas de
infantaria. A evolução do combate, no entanto, com
o emprego da 7ª Brigada em um amplo desbordamento das
forças egípcias que defendiam a fronteira, mostrou que os
blindados seriam de extrema importância em uma guerra naquela
área.
Esta brigada, após 100 horas de combates muito intensos, rompeu
o dispositivo egípcio e alcançou as margens do Suez,
depois de percorrer cerca de 250 km. Sua luta, revivendo a blitzkrieg,
deitou as fundações de uma
brilhante tradição que se mantém até hoje.
(Clique
na arte abaixo para ampliação)
Visão da
fulminante
invasão alemã na França através da
Bélgica,
em apenas 5 dias, simplesmente evitando-se a
Linha Maginot.
(Arte Wikipedia)
Quando as forças israelenses
atingiram as margens do Canal de Suez, forças aeroterrestres
francesas e britânicas iniciaram seu ataque contra diversos
pontos ao longo do canal.
A luta foi suspensa por interferência da ONU, tendo sido
criada a Força
de Emergência das Nações Unidas para
supervisionar o cessar-fogo ao longo do
Canal. Em uma rara ocasião de cooperação entre os
EUA e a URSS,
a ONU expediu uma resolução
determinando que os três invasores deixassem o território
do Egito
e a Faixa de Gaza.
Ao final do ano, a Península do Sinai retornava às
mãos egípcias, mas Israel somente liberou Gaza
após os EUA darem-lhe garantias de que o Estreito de Tiran seria
mantido aberto.
(Clique na
foto abaixo para ampliação)
A Península do Sinai ao
centro vista do Space Shuttle STS040.
O Golfo de Suez fica a oeste e o Golfo de Aqaba a leste.
(Foto NASA)
Esta campanha foi a primeira vez em que
o Corpo de Material Bélico foi empregado como uma estrutura
formal, tendo alcançado excelentes resultados, em especial
por ter assegurado a mobilidade para os blindados.
Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelos elementos de
logística referia-se à manutenção das
estradas principais de suprimento abertas, em especial para os
elementos destacados.
Esta foi, também, a primeira vez em que os israelenses
empregaram em larga escala as forças-tarefas, combinando os
carros
com a infantaria. Quanto a este aspecto, as conclusões dos
comandantes da época foram de que ainda havia um longo caminho a
ser percorrido em busca da eficácia.
NOVA
REORGANIZAÇÃO
O sucesso das forças blindadas na campanha do Sinai
influenciou a doutrina das FDI nos anos que se seguiram. A
reorganização que foi levada a cabo transformou um
exército baseado no emprego da infantaria em uma força
blindada altamente móvel. Diversas brigadas blindadas foram
formadas, tanto baseadas em tanques médios quanto em infantaria
blindada.
No início dos anos 60, os soviéticos equiparam os
exércitos árabes com os modernos tanques T-54 e T-55,
todos com performance superior aos tanques
israelenses. Os carros russos tinham motores mais potentes, além
de um canhão 100 mm, que batia os canhões 75 mm dos
Sherman M50.
Pedidos urgentes dos israelenses ao
governo norte-americano não foram atendidos, mas o governo
britânico concordou em vender-lhes alguns tanques Centurion.
Estes tanques já tinham sido empregados na Guerra da Coréia,
mas atingiram seu apogeu no oriente
médio, como a estrela do Corpo Blindado Israelense.
No entanto, a aceitação dos Centurion pelas suas
tripulações não foi imediata, já que
estavam acostumados com os Sherman, de fácil
manutenção e grande robustez, em especial no ambiente do
deserto. Os veteranos
da unidades blindadas tinham um especial apreço pelo M50, com
seu canhão de alta velocidade.
Blindado Centurion (Shot Kal
Alef) no Museu
Batey ha-Osef, Tel Aviv, Israel, em 2005.
(Foto Wikipedia)
Os primeiros resultados dos
tanques britânicos foram desapontadores. No deserto do Neguev,
onde ocorriam os principais exercícios de adestramento, os
Centurion tiveram uma muito baixa performance. Seus radiadores entupiam
com a poeira, causando superaquecimento dos motores.
As operações de manutenção antes e depois
do uso, extremamente detalhadas e difíceis, eram complexas
demais para a inexperientes tripulações, resultando em um
número elevado de panes. Muitas vezes, tanques vazios desciam
ladeiras, sem que ninguém os conseguisse parar. Seus freios
queimavam, causando diversos acidentes.
Durante um exercício, muitos carros aqueceram e pegaram fogo
diante dos olhos do próprio Chefe do Estado-Maior das FDI. Para
tornar as coisas piores, os canhões Mk3 de 20 libras não
foram zerados, atirando sem precisão.
O Estado-Maior Geral concluiu que era necessária uma
solução radical para superar os problemas do Centurion.
Assim, uma equipe do Corpo de Material Bélico, que tinha reunido
grande experiência na modificação dos Sherman,
apresentou uma proposta para modernizá-los de forma a atingirem
as necessidades israelenses.
As modificações introduzidas no carro foram extremamente
bem sucedidas e refletiram a habilidade e engenhosidade dos
técnicos. O motor original foi substituído por um motor
Continental diesel refrigerado a ar que tinha duas vantagens:
adaptava-se com perfeição ao conjunto de força e
era empregado pelos tanques M48 Patton,
norte-americanos, que estavam sendo recebidos
pelas FDI.
Para simplificar a
direção, reduzindo as necessidades de treinamento e a
fadiga em combate, a
caixa de mudanças mecânica foi substituída pela
caixa automática CD-850-6. Os técnicos de material
bélico
enfrentaram, agora um novo problema: inverter o sentido de saída
da caixa.
Para tal, construíram novas engrenagens de saída, o que,
por sua vez, exigiu novo maquinário especializado. Outras
alterações incluíram o redesenho do compartimento
do motor e a melhora dos sistemas de freio e de extintores de
incêndio.
Equipes especiais de manutenção foram designadas para
zerar os canhões. Procedimentos de manutenção
preventiva foram elaborados e distribuídos, reforçados
por uma severa disciplina.
Quando a operação terminou, o Corpo de Blindados
possuía um sistema de armas com que contaria durante muitos
anos.
Enquanto isto, um outro tanque entrava em serviço nas FDI: uma
nova modificação dos Sherman, dotado com um
canhão 105 mm.
(Clique
na foto abaixo para ampliação)
Blindado Sherman M51 israelense com
canhão de 105 mm.
(Foto Wikipedia)
No início dos anos 60, a
indústria de armamentos francesa tinha desenvolvido um
canhão revolucionário, o CN 105F1 - um canhão
raiado, de 56
calibres (com quase seis metros de comprimento) desenhado para atirar
uma granada HEAT especialmente desenhada.
Até então, todas as granadas HEAT existentes eram
lançadas através de tubos de alma lisa. O canhão
francês possuía um engenhoso sistema de
estabilização da munição que lhe permitia
lançá-la a
uma velocidade inicial de 1.000 m/s - a maior até então
atingida por este tipo de munição.
Os israelenses admiraram o potencial deste canhão, achando-o
mais bem adaptado às suas necessidades, especialmente contra os
blindados soviéticos de baixa silhueta, passando a ser
possível engajá-los a longas distâncias com
munição HEAT, as quais tinham uma boa possibilidade de
penetrar a blindagem dianteira arredondada, em contraste com as
granadas APC do Sherman M50.
O canhão CN105 F1 era, no entanto, muito comprido e
sua velocidade inicial muito alta, o que impedia sua
utilização na torre do Sherman, mesmo depois de
modificada. A solução encontrada foi o encurtamento do
canhão em cerca de 1,5 m, reduzindo sua velocidade inicial para
cerca de 800 m/s.
Esta solução exigia a fabricação de uma
nova munição. Foi, decidido, então, a
construção de uma fábrica de
munições em Israel.
A modificação foi bastante difícil. Além
das mudanças necessárias na torre, muito mais complicadas
daquelas envolvendo a colocação do canhão 75 mm,
era vital que os carros, já se tornando obsoletos, fossem
atualizados em todos os aspectos, de maneira a torná-los
eficazes no combate contra os tanques soviéticos, muito mais
modernos.
Assim, houve um completo redesenho dos Sherman, com a
substituição do motor (agora um Cummings a diesel de 450
hp), nova suspensão e a colocação de um freio de
boca no canhão. Mais de 2.500 horas de trabalho foram gastas nos
arsenais israelenses na modificação dos carros.
Novas técnicas foram desenvolvidas, as quais em muito
contribuíram para trabalhos futuros, como a própria
modernização dos Centurion e, mais tarde, o projeto do
Merkava, o tanque principal israelense.
Nestes anos, ainda, o governo alemão concordou em vender a
Israel tanques M48 Patton, que estavam sendo substituídos por
modelos mais novos no Bundeswehr. Estes carros, de
fabricação norte-americana, eram dotados do canhão
de 90 mm, pouco eficazes contra os blindados soviéticos.
Estudos foram iniciados no sentido de dotá-los com os
canhões 105 mm e aplicação de um motor diesel,
transformando os M48 em suas versões mais modernas, os M60.
Estas
mudanças foram, porém, adiadas, consideradas de menor
prioridade
em relação às outras modificações.
Este período foi de grande transformação nas FDI,
empenhadas em treinamento e manutenção dos novos
equipamentos. Em 1967 elas estavam prontas para o combate, com plena
confiança no embate contra os árabes, que estava para
chegar.
CAMPANHA RELÂMPAGO :
A GUERRA DOS SEIS
DIAS (JUNHO DE 1967)
A Guerra
dos Seis Dias iniciou-se em 05 de
junho de 1967, seguindo-se a três semanas de tensão entre
Israel e seus vizinhos, quando se tornou claro que o Egito concentrava
forças em larga escala na Península do Sinai.
O aumento da forças egípcias era acompanhado
por alguns outros passos ameaçadores: a evacuação
da Força de Emergência das Nações Unidas,
o bloqueio do Estreito de Tiran e a formação de uma
aliança militar entre Egito, Síria e Jordânia.
Os capacetes azuis da ONU, estacionados na fronteira Egito - Israel
desde 1957, e que tinham conseguido manter certa estabilidade na
região ao afastar as forças antagônicas, foram
evacuados em maio, ante grandes pressões do Presidente
Egípcio, Nasser.
No mesmo mês, a Marinha egípcia bloqueou, mais uma vez, o
Estreito de Tiran aos navios israelenses. No dia 30 de maio, a
Jordânia aderiu à aliança já existente entre
Egito e Síria, colocando seus exércitos sob o comando
egípcio, no que logo foi seguido pelo Iraque, que concordou em
enviar reforços no valor de duas brigadas e por outros
países árabes, que enviaram contingentes menores.
Israel estava diante de um contingente árabe de aproximadamente
465.000 homens, 2.880 tanques e 810 aeronaves.
Desta forma, havia uma ameaça concreta à integridade do
território israelense. Na medida da deterioração
da situação, Israel intensificou a
mobilização de suas reservas, que já vinha
acontecendo, e estabeleceu um Governo de União Nacional, com Moshe Dayan
como Ministro da Defesa.
Ministro da Defesa de
Israel Moshe Dayan.
(Foto Wikipedia)
Ante a ameaça de um ataque por
todas as suas fronteiras, o governo de Tel Aviv decidiu tomar a
iniciativa da ofensiva.
A guerra começou com um ataque aéreo em grande
profundidade, destinado a destruir as forças aéreas
árabes com suas aeronaves ainda no chão. O plano
israelense
era de realizar um ataque maciço empregando toda a
aviação
disponível simultaneamente contra as bases aéreas
egípcias.
Isto requeria um planejamento detalhado para assegurar a surpresa em
todos os alvos.
Em um curto mas decisivo golpe, a Força
Aérea Israelense obteve a
supremacia aérea, destruindo, ainda no solo, a capacidade
ofensiva de seus inimigos. As forças blindadas poderiam,
então lutar com total apoio dos seus pilotos, sem que seus eixos
de suprimento e o próprio interior do país estivessem sob
ameaça aérea.
O esforço principal dos blindados israelenses foi dirigido
contra as forças egípcias desdobradas em
posições fortificadas nas partes orientais do Sinai e na
Faixa de Gaza, consistindo em 7 divisões, em um total de
aproximadamente 100.000 homens, 1.000 tanques e centenas de
peças de artilharia.
O Comando Sul das FDI investiu contra estas posições com
forças no valor de 3 divisões compostas por brigadas
blindadas, de infantaria blindada e de infantaria pára-quedista.
A luta neste front durou quatro dias, em um movimento contínuo,
sem pausas. Cientes do fato de que a guerra poderia durar somente
alguns poucos dias e que era imperativo alcançar um
vitória
rápida, as FDI concentraram toda sua força blindada na
penetração do dispositivo egípcio.
O ataque foi rápido e profundo, sem que fossem asseguradas a
segurança dos flancos e dos eixos de suprimento para as
vanguardas. A despeito de sua resoluta resistência inicial, o
dispositivo egípcio ruiu rapidamente.
Este risco calculado assumido pelos israelenses, em prol da velocidade
de sua ação, ocasionou perdas entre os seus elementos
logísticos. Alguns comboios de suprimento, em especial de
combustível e munição foram atingidos pelo fogo
inimigo, sofrendo grandes danos.
Sob o Comando Sul, três eixos de penetração foram
obtidos. No norte, na direção de Rafah - El Arish,
sob o comando do General Israel_Tal,
as unidades de combate tiveram grande
dificuldade em abrir seus eixos, ante a grande resistência
inimiga.
No sul, a divisão sob o comando do General Ariel Sharon,
empregando a combinação de armas
de forma bastante eficiente, atacaram as posições
fortemente defendidas pelos flancos e pela retaguarda.
No centro, a divisão do General Avraham_Yoffe
penetrou entre as zonas de ação
destas duas divisões, através de uma região de
dunas de areia considerada, até então,
intransitável por
unidades blindadas.
Esta divisão atingiu, na primeira noite da guerra, importantes
acidentes na retaguarda egípcia, impedindo a
ligação entre os dois outros setores e bloqueando a vinda
de reforços do coração do Sinai.
No segundo dia de combate, foi obtido o controle da Faixa de Gaza,
enquanto os reforços egípcios eram destruídos e os
blindados israelenses avançavam rumo ao Suez.
No dia seguinte, os israelenses atingiram o Passo de Mitla,
um dos poucos acessos do centro do Sinai para
oeste, que se tornou um "campo da morte", onde foram destruídos
grandes contingentes egípcios que tentavam escapar rumo ao
Canal.
Finalmente, após quatro dias de lutas intensas e ininterruptas,
as forças árabes no Sinai estavam destruídas
enquanto os blindados de Israel atingiam as margens do Canal.
Houve casos de unidades que atingiram seus objetivos já sem
combustível, ante o distanciamento de seus trens e das
perdas de comboios de suprimento.
No front jordaniano, o Comando Central tinha planejado manter uma
postura estratégica defensiva, enquanto a prioridade fosse dada
para o Comando Sul. Acreditava-se que a participação da
Jordânia na aliança militar seria somente pro-forma, sem
um envolvimento intenso no conflito.
No entanto, a confirmação das intenções
ofensivas por parte da Jordânia fez com que Israel respondesse
rapidamente, com uma operação combinada de blindados e
pára-quedistas, reconquistando a porção oriental
de Jerusalém e todos os territórios a oeste do Rio
Jordão.
A batalha contra a Síria, o inimigo mais ferrenho de Israel,
aguardou até o quinto dia da luta. A demora no início das
operações deveu-se à prioridade dada ao front Sul
e a reconquista de Jerusalém e da região da Samaria, que
desviaram forças importantes previstas para comporem o Comando
Norte.
Por outro lado, isto possibilitou uma maior concentração
de meios, liberados do front egípcio. A força
síria era a que mais ameaçava o país, devido aos
constantes bombardeios de artilharia que, a partir das colinas de
Golan, atingiam as comunidades judaicas no norte. Daí a grande
importância política e estratégica dada ao combate
à Síria.
A força atacante tinha que enfrentar condições
topográficas muito difíceis. Ela deveria vencer fortes
aclives em um terreno muito movimentado e pedregoso, sob constante fogo
vindo das cristas, onde o exército sírio a esperava em
posições fortificadas.
O ataque iniciou-se na manhã de 9 de junho, precedido por forte
bombardeio e pelos engenheiros, que abriram passagens através de
vastos campos minados.
Eles foram seguidos por bulldozers que abriram um caminho por
onde os blindados foram capazes de progredir, conquistando as primeiras
posições sírias. Ao mesmo tempo, a infantaria
golani conquistava acidentes capitais que permitiam a
penetração
dos blindados profundamente em território inimigo.
No dia seguinte, último da guerra, a infantaria conquistou novas
posições no centro e norte das colinas, em especial o Monte Hermon,
enquanto os blindados avançavam por uma
série de eixos em direção ao interior da
Síria. Era o colapso da defesa síria.
Pára-quedistas israelenses ainda foram lançados ao sul
das colinas, eliminando os últimos pontos de resistência.
O avanço israelense contra os sírios foi detido pelo
cessar-fogo imposto pela ONU. A Guerra dos Seis Dias deixou Israel de
posse da Península do Sinai e Faixa de Gaza, tomadas aos
egípcios; Jerusalém oriental e a margem ocidental do
Jordão, tomadas da Jordânia; e das colinas de Golan,
tomadas dos sírios.
(Clique na
arte abaixo para ampliação)
O território do país era,
agora, cerca de quatro vezes superior à área no interior
das fronteiras do Armistício de 1949. Os territórios
ocupados incluíam uma população árabe de
cerca de
1,5 milhões de pessoas.
Antes da guerra, o Corpo de Material Bélico recebera a
missão de preparar o material bélico, em especial os
blindados, para o combate que se aproximava. Durante o conflito,
elementos de manutenção estavam desdobrados em todos os
escalões das forças israelenses.
Destacou-se, neste período, o uso intensivo de técnicas
de reparação de emergência, que permitiam a
manutenção do poder de combate das unidades após
os embates. O custo, no entanto, em vidas do pessoal de
manutenção foi bastante alto.
TEMPO DE ATRITO E
REORGANIZAÇÃO
DOUTRINÁRIA
O período que se sucedeu à Guerra dos Seis Dias foi
marcado por um atrito constante entre Israel e seus vizinhos, em
especial Egito e Síria, sendo conhecido como a Guerra de Atrito.
Embora, pela primeira vez em sua história, a FDI pudessem se dar
ao luxo de um desdobramento em profundidade no novos territórios
conquistados, estratégica e politicamente a
manutenção das colinas de Golan e do Canal de Suez era
muito importante.
Assim, suas forças foram desdobradas junto aos limites com seus
vizinhos, muitas vezes enfrentando-os em pequenas escaramuças e
através de bombardeios de artilharia.
Os árabes foram rapidamente reequipados pelos soviéticos,
restaurando e ampliando em pouco tempo o poder de combate perdido na
guerra, em especial no tocante aos blindados, às armas anticarro
e aos mísseis antiaéreos.
O exército israelense, logo após o fim da guerra, iniciou
um amplo debate referente à sua reorganização,
absorvendo as experiências do combate. Uma das primeiras
críticas levantadas foi a ineficiência da infantaria
blindada no conflito.
Embora muitos julguem esta assertiva injusta, alguns comandantes de
blindados advogavam a sua extinção, passando a contar
somente com tanques nas brigadas blindadas. Entre as causas desta
possível ineficiência estavam o fato da infantaria
blindada ser equipada com antigos half-track, incapazes de acompanhar o
ritmo dos Centurion e Sherman modificados.
Outra causa era o fato de a maioria dos infantes ser oriunda
da reserva, portanto menos treinados. O fato é que, toda vez
que necessitaram de infantaria, os comandantes das divisões
empregaram os pára-quedistas, ao invés dos infantes
blindados.
Por outro lado, os tanques israelenses tiveram excelentes performance
tanto na luta contra a infantaria quanto na contra tanques inimigos. Em
muito, isto se deveu ao elevado padrão de treinamento de suas
tripulações e à capacidade de liderança de
seus comandantes em todos os escalões.
Ainda não havia, na época, o conceito de Veículo
de Combate de Infantaria (o primeiro seria o soviético BMP-1, que
estava entrando em serviço ) e
julgava-se que as VBTP, como o norte-americano M-113,
não iriam satisfazer às
necessidades do campo de batalha israelense.
Assim, o conceito de forças blindadas somente com tanques
cresceu de importância. O número de infantes nas brigadas
blindadas foi reduzido drasticamente, priorizando-se o emprego do carro
de combate.
Neste período começaram a chegar os primeiros materiais
de origem norte-americana, comprados diretamente dos EUA: as VBC M-60,
alguns M-113 (que foram prioritariamente empregados em missões
de apoio, como PC móveis, por exemplo), e os obuseiros
autopropulsados M-109 155 mm AP.
A vitória esmagadora na Guerra dos Seis Dias teve uma
conseqüência indesejável para as FDI: uma
sensação de onipotência, uma segurança quase
absoluta na sua capacidade de enfrentar seus inimigos.
Além disso, a tática da blitzkrieg, ou seja, emprego
maciço dos blindados com intenso apoio de fogo aéreo
tornou-se quase um paradigma, com efeitos nefastos para os israelenses
no próximo conflito que teriam que enfrentar: a Guerra do Yom
Kippur.
A GUERRA DO YON KIPPUR
(1973)
Com a morte do Presidente Nasser, Anwar Sadat
assume o governo do Egito. O novo presidente
logo concluiu que os agudos problemas econômicos e sociais
egípcios eram mais prementes que o conflito com Israel.
Sadat acreditava que, fazendo a paz com Israel, o Egito poderia reduzir
seus enormes gastos com defesa e obter a assistência
norte-americana, extremamente necessária.
Ele imaginou, contudo, que, antes de qualquer acerto com Israel, o
Egito teria de recuperar o território perdido em junho de
1967. Para alcançar este objetivo, Sadat lançou uma
iniciativa diplomática no início de 1971, visando trocar
os territórios por paz.
Esta iniciativa, no entanto, não foi bem recebida pelo governo
israelense. A grande confiança na capacidade combativa das FDI,
a desunião entre os árabes e a segurança obtida
pelo "colchão de ar" criado pelos novos territórios do
Sinai, Margem Ocidental e Golan faziam os israelenses pensarem que
impediriam seus inimigos de lançarem qualquer ação
ofensiva. Não havia, portanto, qualquer razão para a
troca proposta pelo Presidente egípcio.
Esta rejeição fez com que Sadat se convencesse de que,
para alterar o status quo e ganhar a legitimidade que necessitava junto
ao seu povo, era necessário lançar uma guerra, ainda que
com objetivos limitados.
No dia do Yom Kippur,
feriado judeu da reconciliação, 6
de outubro de 1973, Síria e Egito lançaram um ataque
surpresa contra Israel.
Forças equivalentes ao efetivo de toda a OTAN na Europa
lançaram-se coordenadamente contra as fronteiras israelenses.
Pelo menos nove países árabes apoiaram ativamente o
esforço de guerra sírio-egípcio, fornecendo tropa,
aeronaves e auxílio financeiro.
No Norte, as Colinas de Golan
foram palco de uma luta que passou para a
história como um dos exemplos mais destacados da batalha
defensiva. Os sírios possuíam cinco divisões
escalonadas em profundidade, contando com cerca de 1.400 tanques,
enquanto os israelenses defendiam a região com uma brigada
blindada, a 7ª, a dois batalhões, com cerca de 150 tanques.
(Clique na
arte abaixo para ampliação)
As Colinas de Golan.
(Arte CIA)
Como reserva do front, Israel mantinha
dois comandos de divisão blindada. Estes comandos não
eram mobilizados constantemente; seu pessoal provinha da reserva e seu
material ficava estocado nas proximidades. Naquele momento, todos
estavam desmobilizados.
O plano sírio previa um ataque segundo a doutrina
soviética, ou seja, por escalões sucessivos. Seu objetivo
era a conquista das pontes sobre o Rio Jordão.
Uma vez rompidas as defesas israelenses,
comandos helitransportados assaltariam as pontes onde as
divisões blindadas fariam a junção, o que deveria
acontecer no prazo de
24 horas, antes que as reservas israelenses pudessem
alcançá-las.
O plano era bem concebido e tinha grandes chances de sucesso,
especialmente diante do poder relativo de combate.
Inicialmente, sua execução ocorreu como previsto. Cada
tanque israelense enfrentava uma força dez vezes superior. Suas
tripulações sabiam que tinham de manter o terreno
até que as reservas pudessem chegar. No ar, uma luta feroz entre
as forças aéreas israelense e síria impedia o
apoio de fogo aéreo tão empregado na guerra anterior.
Além disso, agora os sírios estavam mais bem equipados e
treinados.
Com a chegada da noite, a desvantagem israelense aumentava, já
que seus Centurion não possuíam equipamentos de
visão noturna eficientes, ao contrário dos T-55
sírios. Ainda assim, eles tentavam resistir e contra-atacar,
obtendo poucos resultados de vulto, mas retardando o avanço
inimigo.
Poucos tanques israelenses ainda atiravam quando a manhã chegou.
Cada um deles lutava uma guerra individual. Os tanques sírios
já podiam ver o Mar da
Galiléia quando os
primeiros batalhões da reserva israelense chegaram ao campo de
batalha.
Na medida em que as forças em reserva fluíam
em maior número, o comando israelense pôde se reorganizar,
invertendo o sentido das operações e empurrando os
sírios de volta. A crise imediata estava terminada. A
resistência da 7ª Brigada Blindada tinha conseguido o tempo
suficiente para impedir que os inimigos alcançassem seus
objetivos.
Com o passar da luta e novos reforços chegando, os israelenses
expulsaram os sírios das colinas, passando a considerar a
possibilidade de realizar um poderoso contra-ataque para explorar a
situação, movendo-se em direção ao interior
da Síria e sua capital, Damasco.
Em 10 de outubro, os sírios se deram conta que seu ataque
não obtivera sucesso e que, agora, sua capital estava exposta.
Assim, tentaram reorganizar suas forças, montando sumariamente
uma defesa. Os israelenses conseguiram romper através das linhas
árabes (sírios, iraquianos, jordanianos),
alcançando os arredores de Damasco,
quando a guerra foi encerrada por um
cessar-fogo.
No sul, os egípcios tinham à sua frente em
obstáculo de enorme vulto. Não somente as águas do
Canal de Suez, com cerca de 200 m de largura, que mudavam com a
maré, provocando grandes correntes, mas também as rampas
da sua margem oriental, construídas pelos israelenses.
Além disso, o front era constantemente patrulhado, com
posições de apoio para suas guarnições,
naquilo que era conhecida como Linha Bar Lev.
Esta linha compreendia uma série de
pontos-fortes sobre o canal, mobiliados por elementos de uma brigada
blindada.
Fortificação israelense Bar Lev.
(Arte Wikipedia)
O ataque com transposição
de uma curso de água é uma das operações
militares mais complexas, exigindo em planejamento minucioso e o
máximo de coordenação na sua
execução. O planejamento e a execução
egípcias foram quase perfeitos.
Uma vez cruzado o vasto espelho d'água, esperava-se
que o contra-ataque israelense ocorresse em duas fases: na primeira,
realizado por forças de valor pelotão ou companhia
blindada,
movendo-se para posições preparadas, 15 a 30 minutos
após o início da travessia; na segunda, brigadas
blindadas
situadas mais à retaguarda contra-atacariam em cerca de 2 horas.
De fato, isto correspondia ao planejamento israelense.
Para fazer face a estas possibilidades, o plano egípcio previa
que uma grande quantidade de armas anticarro seria transposta nas
primeiras levas do assalto, garantindo a proteção
para as levas seguintes.
Além disto, um guarda-chuva de mísseis antiaéreos
garantia a proteção contra aeronaves israelenses que
tentassem atacar alvos no solo. Com isso, a tática israelense da
blitzkrieg estava bastante comprometida.
Como a hora H prevista para o início das operações
seria às 14:00 h, havia uma previsão de que o choque
contra os blindados israelenses ocorreria à noite. Para tanto,
as guarnições de armas anticarro foram dotadas com
equipamentos de visão noturna.
Curiosamente, um dos maiores problemas que era previsto que
enfrentassem eram as luzes ofuscantes dos faróis de busca que
equipavam os Centurion. Para enfrentá-las, foram
distribuídos óculos de solda para os combatentes.
Havia uma discussão entre os comandantes egípcios sobre
os objetivos da operação que iriam iniciar. Alguns
advogavam que esta teria um objetivo limitado, resumindo-se ao
estabelecimento de uma cabeça-de-ponte com cerca de 15 km de
profundidade, fortemente protegida e contra a qual os israelenses iriam
se bater, com pesadas perdas e forte desgaste político.
Outros eram favoráveis a operações mais profundas,
com a conquista dos passos que levavam ao interior do Sinai, bloqueando
os reforços israelenses, mesmo que fora da cobertura das armas
antiaéreas. Ao que tudo indica, a primeira linha de
ação saiu vitoriosa.
O assalto aconteceu como o planejado. Os israelenses, pegos de
surpresa, tiveram pesadas baixas no primeiro dia de combate. Sua
aviação não conseguia proporcionar o apoio
necessário e as armas anticarro tiveram um terrível
efeito sobre os tanques. Pela manhã, cerca de dois terços
dos tanques israelenses tinham sido perdidos.
A corrida era, agora, contra o tempo. Os egípcios tentavam
aumentar sua cabeça-de-ponte, conquistando as alturas mais para
o interior, enquanto os israelenses lutavam por deter seu
avanço. Em torno do meio dia de 7 de outubro, os primeiros
tanques das reservas israelenses chegavam ao front, tendo sido
mobilizados e atravessado uma distância de 250 km em 20 horas.
A guerra já durava cerca de 40 horas quando o primeiro
contra-ataque israelense de vulto foi realizado. Nesta altura, os
egípcios já tinham estabelecido oito pontes, contando com
dois exércitos de campanha na margem oriental. Eram mais de
1.000 tanques, milhares
de armas anticarro e pesado apoio de artilharia.
Este contra-ataque que durou quase todo o dia 8, foi um insucesso. Na
verdade, foi uma grande carga de cavalaria contra as
posições egípcias bem defendidas. Tendo
começado o dia com cerca de 170 tanques, os israelenses o
terminavam com menos de 100, sem terem atingido qualquer objetivo
importante.
Durante a noite, as guarnições, exaustas, descansavam,
enquanto as equipes de manutenção corriam pelo campo
de batalha, tentando recuperar mais tanques danificados. Pela
manhã, o número de tanques disponíveis já
chegava aos
120.
O insucesso do contra-ataque fez com que os comandantes israelenses
passassem a agir com maior cautela nas suas operações,
pois não podiam continuar a fazer face a tão pesadas
perdas.
Os israelenses tinham chegado à conclusão de
que sua única chance de sucesso seria uma travessia de
forças blindadas altamente móveis para a margem ocidental
do canal, de modo a operar na retaguarda egípcia. Não
havia possibilidade de enfrentar diretamente, com seus meios
disponíveis, as forças desdobradas nas
cabeças-de-ponte.
No entanto, para que esta operação desse certo,
havia a necessidade de que a maioria dos meios blindados
egípcios
estivesse na margem oriental, deixando do outro lado forças cujo
poder de combate pudesse ser enfrentado.
No dia 13 de outubro, o serviço secreto israelense constatou que
as reservas blindadas egípcias estavam cruzando o canal. Era a
oportunidade que o comando das FDI esperava.
Em 15 de outubro, em uma manobra das mais ousadas da história,
uma força israelense de 3 divisões com aproximadamente
600 tanques cruzava o Canal de Suez, atacando as linhas de suprimento e
postos de mísseis antiaéreo à retaguarda do
3º Exército egípcio.
A reação inimiga foi pífia, muitos tendo
sido colhidos pela surpresa. O cerco do 3º Exército
forçou os egípcios a aceitarem um cessar-fogo, de forma a
evitar sua destruição.
A operação de travessia israelense foi um risco calculado
em termos logísticos. Muitos logísticos, em qualquer
exército, não arriscariam lançar três
divisões através de um obstáculo do porte do Suez
(e outros pequenos canais paralelos) com suas rotas de suprimento
correndo a menos de 8 km dos flancos desprotegidos.
Todos os historiadores deste conflito são unânimes em
afirmar que o Corpo de Material Bélico exerceu um papel decisivo
na guerra. As altas taxas de perdas de material, em especial nos
primeiros dias de combate, foram, em muito, compensadas pelas
reparações e recuperações feitas pelo
pessoal de manutenção.
Desde a frente de combate, até os arsenais no interior, o
Material Bélico realizou façanhas, fazendo retornar ao
combate centenas de armas avariadas.
Mais de 75% dos tanques disponíveis foram avariados
neste período. No entanto, aproximadamente 80% destes tanques
foram reparados em menos de 24 horas. Alguns dos tanques foram
danificados
e reparados 4 a 5 vezes. A ação mais dramática
ocorreu nas Colinas de Golan, quando os tanques retornados permitiram
que os israelenses montassem seu contra-ataque.
Segundo o Gen Herzog,
historiador deste conflito, "os homens das
equipes de manutenção demonstraram estar entre os grandes
heróis da guerra, movimentando-se durante o combate e
consertando os carros avariados sob o fogo".
Os israelenses atribuíram grande parte deste sucesso às
técnicas de manutenção de emergência no
campo de batalha, responsável pela maioria das
reparações.
Outro fator que favorecia este retorno do material foi a própria
dimensão limitada do TO,
permitindo que os carros danificados em maior
escala fossem rapidamente evacuados, muitas vezes por via
férrea, para os arsenais no interior, onde eram recuperados.
O uso das ferrovias poderia, contudo, ter sido melhor explorado. Em
1967, os israelenses encontraram uma ferrovia que se estendia no Sinai
até o Canal de Suez. Em vez de se aproveitarem desta estrada
como meio para cerrar meios rapidamente para a frente, os israelenses
desmontaram-na a fim de utilizarem os trilhos na
construção da Linha Bar Lev.
Este fato fez com que, após o ataque egípcio, as unidades
da reserva, depois de mobilizadas, tivessem que se deslocar
por via terrestre por muitos quilômetros, através das
poucas estradas disponíveis, com o conseqüente desgaste no
material.
Em todo Israel, unidades deslocavam-se desde seus locais de
mobilização para o campo de batalha, ocorrendo muitas
vezes falhas mecânicas que obrigavam o abandono temporário
das viaturas e o congestionamento das principais rotas de
abastecimento.
Em termo de apoio logístico, o grande problema israelense foi o
relativo ao suprimento. A intensidade da guerra tomou de surpresa o
comando da intendência das FDI. O consumo de
munição foi anormalmente elevado, as perdas em
aviões foram sérias e a quantidade de blindados perdidos
foi alarmante.
Era evidente que as tabelas em que tinham se baseado para estocar
suprimentos necessitavam de uma drástica revisão. Algumas
semanas depois de encerrado o conflito, o Ministério da Defesa
chegou a admitir que as forças israelenses tinham esgotado
certos tipos de munição.
A grande compensação para estas faltas de suprimento veio
através da decisão política norte-americana de
fornecer material bélico a Israel. No dia 13 de outubro,
com uma semana de conflito, uma esquadrilha de C-5 Galaxy
realizou o primeiro vôo de ressuprimento.
No período de um mês, mais de 2.200 toneladas de armas,
munições, carros de combate, artilharia,
helicópteros e outros materiais foram entregues via
aérea. Uma grande quantidade chegou a Israel também pelo
mar.
Além disto, 56 aeronaves de combate, entre A-4 Skyhawk
e F-4 Phantom
da Força Aérea Americana na
Alemanha foram entregues diretamente para a Força Aérea
Israelense.
Militarmente, esta ponte aérea foi de importância vital
para Israel, num momento crucial.
Os árabes, por seu lado, também receberam substancial
apoio externo, desta vez dos soviéticos. Poucos dias antes de
começada a guerra, uma grande ponte aérea já
estava em operação, com gigantescos Antonov 22
aterrando a curtos intervalos em Damasco e no
Cairo.
O gigantesco Antonov An-22 é capaz de
decolar com
250.000 kg e percorrer distâncias de até 5 mil km.
(Foto Wikipedia)
A guerra de outubro produziu efeitos
devastadores sobre Israel. Mais de 6.000 soldados foram feridos ou
mortos em 18 dias de luta. A perda de equipamentos e o declínio
da
produção e exportação em virtude da
mobilização trouxeram um prejuízo de 7
bilhões de dólares - equivalente ao PNB anual do
país.
Mais importante que isto foi a destruição da
imagem de invencibilidade de Israel que vinha desde 1967, abalando
a seriamente sua autoconfiança.
A vulnerabilidade de Israel na guerra levou a uma outra importante
conseqüência: sua crescente dependência dos Estados
Unidos em termos militares, econômicos e diplomáticos.
A guerra desencadeou uma corrida regional por armas, na qual Israel era
pressionada para equilibrar-se com os Árabes, que estavam
enriquecidos
pelos altos preços de petróleo.
O uso do petróleo como arma, que se seguiu à
guerra, tornou mais dramática a dependência do Ocidente
aos árabes. Uma evidência disto foi, por exemplo, a
negação de todos os países europeus (exceto
Portugal) da permissão para pouso das aeronaves norte-americanas
que transportavam material bélico para Israel durante a luta.
Os arsenais árabes forçavam Israel a gastos crescentes
com a defesa, debilitando a sua frágil economia. Mesmo a ajuda
americana parecia não ser capaz de deter o declínio
econômico israelense. Após a guerra, as unidades de
material bélico empreenderam um esforço hercúleo
no sentido de restaurar às condições de uso a
maior parte do material danificado, recompondo o poder de combate das
FDI.
Em um esforço para encorajar um acordo de paz, o Presidente
Nixon enviou seu Secretário de Estado Henry Kissinger à
região com a tarefa de negociar a paz entre Israel, Egito e
Síria. Em 1974, Kisinger conseguiu o desengajamento militar
entre os antagonistas, iniciando um longo processo de
pacificação.
NOVO INTERVALO
Logo após o término da guerra, muitos críticos
apontaram como uma das causas das dificuldades iniciais israelenses a
presença somente de tanques nas forças blindadas. Em
verdade, em muitas ocasiões, a falta de infantaria atuando junto
aos carros representou uma séria vulnerabilidade.
A barreira anticarro egípcia representou uma grande
ameaça aos tanques, sem que houvesse como enfrentá-la com
infantaria.
Outra grande dificuldade foi a impossibilidade do apoio aéreo
aproximado para os blindados, em virtude das defesas antiaéreas.
A falta de prática no conceito de operações
combinadas entre armas foi a maior lição tirada do campo
tático deste conflito. Uma mudança neste sentido fazia-se
necessária.
Para que esta evolução fosse realizada, era
necessário uma reformulação na
organização e na dotação de material.
Enquanto o tanque manteria sua inquestionável
posição dentro das FDI, chegou-se à
conclusão de que seria necessário apoiar-lhe com outros
elementos.
A nova brigada de armas combinadas deveria ser totalmente móvel,
possuindo diversos tipos de armamentos, em grande parte blindada, sendo
capaz de decidir o combate. Todos os sistemas de armas deveriam apoiar
os tanques, permitindo que eles retivessem sua mobilidade em um campo
de batalha saturado pelo fogo.
Além disso, como a mobilidade depende da capacidade
de sobrevivência, a proteção da
tripulação e de seus sistemas recebeu máxima
prioridade, em contraste direto com os conceitos de velocidade e poder
de fogo, tradicionais nos outros exércitos.
Em um exército pequeno como o israelense, não era
possível admitir-se taxas de perdas das guarnições
de blindados tão altas como as que ocorreram no conflito de 73.
Estas idéias, nascidas da experiência do campo de batalha,
foram tornadas reais no projeto e desenvolvimento do tanque principal
de batalha israelense - o Merkava.
MBT israelense Merkava
Mark 4, de última geração.
(Foto
Divulgação)
Para isto desenhistas do novo carro
decidiram criar um tanque principal de batalha (Main Battle
Tank - MBT), multifuncional, em substituição aos diversos
tipos então existentes, separados em função de
seus pesos e empregos. No entanto, o equilíbrio entre
proteção blindada, poder de fogo e mobilidade
constituía-se em enorme desafio tecnológico.
Examinando tanques destruídos no combate, seus próprios e
inimigos, o grupo encarregado do novo projeto chegou à
conclusão de que era necessário desenvolver-se uma nova
forma de proteção à guarnição. Esta
nova forma era colocar a tripulação no centro do carro.
A questão da proteção da guarnição
foi decidida de forma simples e brilhante: fazer com que cada parte do
tanque participasse da proteção. Para tanto, algumas
medidas foram tomadas:
- a
colocação do motor na parte mais vulnerável, a
frente da viatura;
- blindagens de composição e desenho exaustivamente
testados como proteção contra os mais diferentes tipos de
armas;
- desenvolvimento do conceito de "blindagem espaçada", no qual
cada parte do tanque serviria como uma câmara de
combustão para munições químicas (HEAT):
tanques de
combustível, caixas de ferramenta, depósitos de
munição,
depósitos de material QBN, etc.
- uso do diesel como combustível;
- colocação do compartimento da tripulação
no centro do carro, eliminando-se a cesta da torre, o que aumentou
o seu espaço útil e acabando com um dos maiores problemas
dos carros de combate: o isolamento do motorista; e
- colocação de uma porta de acesso à retaguarda, o
que permitia a rápida evacuação em caso de
incêndio.
O formato do tanque foi desenhado de maneira a oferecer a menor
silhueta e o menor alvo possível. Para tal, foram retirados
todos os elementos da parte superior da torre, incluindo a
cúpula do comandante.
Seu armamento seria o já consagrado canhão 105 mm L/7,
mas o poder de fogo seria aumentado graças ao novo sistema de
controle de tiro e à nova munição armour piercing
'hypershot', desenvolvida em Israel e que era capaz de penetrar todas
as blindagens conhecidas a grandes distâncias.
O sistema de suspensão especialmente projetado e o conjunto de
força de 900 hp fizeram do Merkava um dos tanques de maior
mobilidade, sendo capaz de enfrentar com facilidade grandes aclives
e declives.
Brevemente, este novo carro provaria sua capacidade em combate, ao
liderar a invasão do Líbano.
A OPERAÇÃO
PAZ NA
GALILÉIA
A primeira invasão israelense do território libanês
ocorreu em 1978, em resposta aos ataques de terroristas palestinos ao
seu território. Estes terroristas obtinham abrigo em campos de
refugiados situados ao sul do Líbano, que vivia um grande
período de turbulência política, sendo incapaz de
controlá-los.
A ofensiva israelense foi detida por uma resolução do
Conselho de Segurança da ONU, que determinava a retirada
imediata das tropas invasoras.
Os ataques de membros da Organização para a
Libertação da Palestina (OLP) a partir do Líbano
ao território de Israel não cessaram, utilizando
artilharia e baterias de foguetes russos Katyusha a partir do sul
daquele país. A OLP contava com o apoio dos sírios, que
chegaram a desdobrar forças no
território libanês, em especial na região conhecida
como Vale do Bekaa, no sudeste deste país.
Assim, em 1982, os israelenses montam uma grande incursão ao sul
do Líbano, denominada Operação Paz para a
Galiléia, com dois objetivos
político-estratégicos: expulsar a OLP da região e
dar uma lição nos sírios que os apoiavam.
O maior feito do Corpo de Material Bélico ocorreu durante esta
operação. Milhares de tanques, viaturas blindadas de
transporte de pessoal, canhões autopropulsados, viaturas
sobre rodas e sistemas de armas de alto nível operacional foram
transportados para o campo de batalha rápida e eficientemente
desde seus depósitos de emergência.
Esta capacidade derivou do método de "estocagem seca", que isola
o material bélico do ambiente externo, evitando a
influência das condições climáticas,
desenvolvido após a Guerra do Yom Kippur. Secadores e coberturas
de plástico preservam o material sem contato com a umidade do
ar, preservando-o por um longo período. Periodicamente, o
material recebe serviços de conservação. Com a
utilização da "estocagem seca", as FDI conseguem manter
uma grande quantidade de material estocado e pronto para emprego, como
reserva de pronto emprego.
Esta operação foi, também, o batismo de fogo do
Merkava. O Corpo de Material Bélico foi responsável pelo
desenvolvimento do projeto e por todo apoio logístico ao tanque,
incluindo manutenção e controle de qualidade. Este tanque
demonstrou um soberbo poder de fogo e capacidade de
sobrevivência, confirmando os conceitos nos quais se baseara. Ele
demonstrou, ainda, sua superioridade sobre o tanque soviético
T-72, que também estreava no combate.
As FDI tinham sido preparadas para a guerra no deserto, em
um terreno amplo que permitia a manobra dos blindados. O terreno
libanês era bastante diferente desta realidade: bastante
movimentado, cheio de áreas confinadas e urbanizadas nas quais
os guerrilheiros estabeleceram
suas defesas. As forças israelenses, baseadas no emprego do
tanque,
eram totalmente inadequadas a esta nova situação.
A operação das FDI, iniciada a 6 de junho de
1982, foi desenvolvida em três diferentes eixos de
penetração, contando com forças no valor de cinco
divisões e duas
brigadas isoladas.
Junto à costa, uma divisão forte em infantaria
avançou na direção de Tiro e Sidon, onde realizou
a junção com uma tropa anfíbia ali desembarcada.
Sua luta foi longa e difícil, especialmente nas muitas
áreas urbanas.
A resistência palestina ao avanço foi bastante tenaz,
travando uma luta em cada vila, em cada quarteirão, em cada
casa. Este combate em localidade fez crescer o número de baixas
israelense e retardou seu avanço. Outra grande dificuldade com
que as FDI tiveram que lidar foi o grande número de civis
refugiados
na sua zona de ação, criando-lhes grandes problemas.
No centro, a força era forte em tanques. Seu objetivo era
ligar-se com a força de oeste na região de Sidon, em um
movimento clássico de pinça. Esta força
enfrentou sérios problemas na medida em que encontrou diversas
armadilhas antitanque e emboscadas dos elementos da OLP, causando
sérias
perdas. Sua organização mostrou-se pouco flexível,
necessitando realizar mudanças de formação durante
o desenrolar do combate.
Como conseqüência das dificuldades sofridas, o
tráfego pelas pequenas estradas da região tornou-se quase
caótico, dificultando imensamente a evacuação de
feridos e o suprimento das tropas. As unidades logísticas
divisionárias ficaram impedidas de cerrarem seu apoio, ficando
isoladas de seus usuários. Helicópteros de transporte
foram chamados para transpor as estradas bloqueadas, levando via
aérea o suprimento urgentemente necessário às
tropas na vanguarda. Destacamentos logísticos avançados
foram desdobrados junto a pistas de pouso improvisadas próximas
à vanguarda, onde operavam postos de distribuição
de suprimento e oficinas de manutenção. Algumas destas
pistas foram construídas em estradas de terra melhorada,
possibilitando o pouso de aeronaves C-130. A evacuação
aeromédica foi amplamente utilizada, salvando muitas vidas.
Esta demora no avanço israelense impediu que seu grande objetivo
estratégico fosse alcançado: a tomada de Beirute antes da
imposição de uma cessar-fogo. As forças de oeste e
do centro chegaram a sitiar a cidade, mas não a conquistaram.
O setor de oeste foi o mais difícil dos três.
Ali, os israelenses enfrentaram duas divisões blindadas
sírias. O objetivo israelense era a estrada Beirute - Damasco,
por onde suas forças poderiam progredir para este,
ameaçando a capital síria com sua artilharia de longo
alcance. Para evitar o embate com o grosso das forças inimigas,
os engenheiros israelenses construíram uma estrada de cerca de
20 km, desviando das suas posições. Uma brigada de
comandos sírios, no entanto, conseguiu emboscar a vanguarda
blindada israelense, impedindo seu avanço sem apoio
aéreo.
Este apoio era dificultado pelo domínio
sírio dos ares da região, em especial por suas baterias
de mísseis antiaéreos no Vale do Bekaa. Uma
ação combinada ar-terra permitiu aos israelenses que
destruíssem tais baterias. O avanço, no entanto, foi
penoso, sendo interrompido pelo cessar fogo assinado entre Israel e
Síria em 11 de junho, sob os auspícios dos EUA.
O período que se seguiu ao cessar fogo, muito mais longo, foi
uma experiência inédita para os israelenses. Nesta fase,
as FDI, enquanto mantinham o cerco de Beirute, procuraram executar uma
rigorosa varredura no território ocupado, destruindo os
remanescentes da OLP que ali operavam e capturando um vasto estoque de
armas e munições por eles usadas.
As perdas israelenses neste período foram muito pesadas,
levando-os, por uma combinação de vários fatores
políticos, a retirarem-se do Líbano em 1985, mantendo
somente uma "Zona de Segurança" próxima à
fronteira.
A primeira performance do Merkava foi extraordinária. Ele provou
ser o mais seguro tanque em ação. Pesquisas referentes a
baixas mostraram que nem um único tripulante destes carros foi
morto em ação e que não houve explosões
secundárias na munição causadas por fogo inimigo.
O conceito da blindagem espaçada mostrou-se bastante eficaz,
fazendo com que o jato proveniente da explosão de cargas ocas se
perdesse nos espaços vazios entre as camadas de blindagem.
Outros tanque foram empregados pela primeira vez neste conflito pelas
FDI, como os M-60. Estes receberam placas de blindagem reativa, que
também se mostraram bastante eficazes.
A performance dos logísticos israelenses pode ser sintetizada no
depoimento do Dr. John Laffin, renomado comentarista militar
britânico, após esta operação:
" O Exército Israelense sempre foi bom, mas eu nunca o tinha
visto parecer tão bom como durante a Operação Paz
para Galiléia, quando 60.000 homens cruzaram a fronteira. Seu
equipamento de combate estava em excelentes condições; a
manutenção bem feita; depósitos de peças de
reposição estavam em posição antes mesmo
dos blindados iniciarem seu movimento. Eu vi muito poucas quebras e
pude evidenciar que os soldados cuidavam melhor de suas viaturas que
nas guerras precedentes. (...)
O aspecto mais impressionante do Exército Israelense foi seu
apoio logístico. Toda vez que vi um obuseiro autopropulsado
M-109, perto estava seu transporte de munição.
Depósitos de combustível, munição e outros
suprimentos estavam bem localizados e identificados claramente.
Como as estradas estavam bloqueadas, os logísticos utilizaram
navios, helicópteros e aeronaves de transporte para moverem
o suprimento para unidades e depósitos considerados chaves.
Até onde eu pude ver, nunca houve uma unidade que deixasse de
combater por falta de munição, armamento ou água."
O CORPO DE MATERIAL
BÉLICO NA
ATUALIDADE
O Corpo de Material Bélico é responsável pelo
desenvolvimento e manutenção do material bélico
das Forças de Defesa de Israel (FDI), assim como por prover
apoio técnico às suas unidades. Constitui-se no maior
corpo
técnico do Exército, com os recursos humanos mais
extensos
e sofisticados.
O Corpo é chefiado pelo Comandante do Material
Bélico, no posto de General de Brigada. Este é
subordinado
ao Diretor da Seção de Tecnologia e Logística do
Estado-Maior Geral das FDI, sendo a maior autoridade na área
técnica, responsável pelos assuntos referentes ao
material e servindo
como assessor direto do Chefe do Estado-Maior nestes assuntos.
O pessoal de material bélico está desdobrado
em todas as unidades da FDI, desde o campo de batalha até as
oficinas na retaguarda, lidando com uma enorme variedade de itens -
desde geradores até sofisticados equipamentos de
informática.
De seus oficiais e praças espera-se que mantenham um alto
nível de competência técnica de modo a
desenvolverem a tecnologia de combate do futuro. Um sistema educacional
bem organizado dá o devido apoio a este pessoal.
O Corpo de Material Bélico possui duas missões
básicas:
- desenvolver o
material de emprego militar: pesquisa e desenvolvimento,
manutenção e melhoria da qualidade do
material das forças terrestres;
- construir uma capacidade de
manutenção que promova os benefícios da tecnologia
nas FDI.
O Corpo representa em grande escala o "poder por trás das
cortinas" no exército israelense. Seus homens constituem-se em
exemplo dos mais dignos para todos os soldados do mundo.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
- ESHEL, David. Chariots fo
the Desert: the story of the Israeli
Armoured Corps. Oxford: Brassey's, 1989.
- THOMPSON, Julian. The Lifeblood of War. Oxford: Bressey's,
1991.
- CHURCHILL, Randolph e CHURCHILL, Winston. Seis dias de
uma guerra milenar. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1968.
- HERZOG, Chain. A guerra do Yom Kippur. Rio de Janeiro: BIBLIEX,
1976.
VÍDEOS
You Tube
- Merkava Mark 4
You
Tube - Merkava Clip
FONTES
& LINKS
Wikipedia - Inglês
Wikipedia - Português
Army
Technology - Merkava Mk 4
Israeli
Weapons - Sherman
Global
Security - Sherman
Israeli Weapons - M48
Wikipedia
- 2006 Israel-Lebanon Crisis
Defesa UFJF :
Merkavas
Destruídos
no Líbando (pdf)
"Trophy" - Defesa
Ativa
Para Blindados (pdf)
Yom Kippur (pdf)
Obs : o artigo "MBT
Nas Guerras Árabes-Israelenses", originalmente publicado pela
BIBLIEX, em 1989, está colocado aqui com
autorização do
autor. Foram introduzidos links e fotos para facilitar a
navegação e a compreensão do texto.