Foto do Varyag atravessando o Estreito
de Bósforo (Turquia) em sua ida para a China
Os Navios-Aeródromos, como fundamentais instrumentos
político- estratégicos neste
Século XXI, têm atraído
bastante as
atenções das autoridades
chinesas, que
procuram a todo custo adquirir
ou construir (copiando) seus próprios NAes.
Por esse motivo, a
compra do Varyag
por esse país tornou-se um grande mistério mundial. A
estratégia chinesa era de terminar sua
construção e empregá-lo para treinamento a partir
de 2011. Isso de fato aconteceu, mas em setembro de 2012.
Enquanto isso, outros dois NAes convencionais estariam sendo
construídos para
serem comissionados até mesmo antes de 2015. Haveria ainda
planos de construção local de um NAe de propulsão
nuclear a ser comissionado até 2020.
A
CONSTRUÇÃO E O QUASE
FIM
O
Navio-Aeródromo Varyag - de 67.500 ton - foi concebido pela
União Soviética para ser um Navio-Aeródromo
multitarefas da Classe Kuznetsov.
Sua construção começou
em 1982 e a quilha surgiu oficialmente no
estaleiro como Riga
em 1985, vindo a ser
lançado ao mar em 1988. Já
em 1990, foi renomeado definitivamente como VARYAG.
Sua construção final parou em 1992 com a estrutura do navio já completada,
entretanto, ainda sem sua
eletrônica.
A propriedade do navio acabou
ficando com a Ucrânia,
onde havia sido construído, dada a dissolução
da União Soviética em
1989. Foi o fim.
Com isso, foi totalmente
desmantelado e sucateado. Em
1998, ele já havia perdido suas máquinas,
o leme e os sistemas operacionais. Seu destino
parecia ser mesmo uma remoção
para o ferro-velho.
A VENDA PARA A CHINA
Então,
para tal fim, o NAe Varyag foi tristemente levado
a leilão.
Mas estranhamente, uma pequena,
desconhecida e suspeita empresa
de Hong Kong, chamada Chong Lot
Travel Agency Ltd., arrematou o Varyag
por apenas US$ 20 milhões em abril de 1998.
A Chong Lot propôs-se a
rebocar o gigantesco casco para
fora do Mar Negro através do Canal de
Suez, indo então em direção ao
Porto de Macau a fim de ser
convertido
em um hotel flutuante e cassino
no Estaleiro Dalian .
O Varyag passando pelo
Estreito
de Bósforo em belo dia de sol.
Circunstâncias misteriosas
envolvem esse negócio feito
entre a Ucrânia e a pequena Agência de Viagens chinesa. A Chong Lot pertence a uma outra empresa de Hong Kong chamada Chin Luck Company.
Alguns de seus controladores
residem na cidade chinesa de
Yantai, onde existe um grande estaleiro
da Marinha Chinesa. Além disso, o Presidente
da Chin Luck era um oficial de alta patente
reformado do Exército
Chinês (PLA - People
Liberation Army).
Assim, tudo já levava a
crer que o Governo Chinês
e a Marinha Chinesa (PLAN - People Liberation Army
Navy) conduziram extra-oficialmente
toda essa excitante
operação para que o Varyag fosse totalmente
avaliado, visando-se o
desenvolvimento e a
construção de um Navio-Aeródromo pelo estaleiro chinês da cidade de Yantai.
Afinal, o Minsk já havia ido parar em Shenzhen como Cassino apenas para que engenheiros navais chineses o estudassem para esse
futuro projeto do primeiro
Navio-Aeródromo chinês.
O QUEBRA-CABEÇA
CHINÊS
Seja como
for,
o caso atraiu a atenção de todo o mundo e existem
diversas
interpretações, sendo levantadas muitas e muitas
possibilidades
do que possa estar realmente ocorrendo.
Trata-se de um formidável
Quebra-Cabeça, para o qual somente o tempo e a cúpula do
Governo Chinês sabem a resposta. Em primeiro lugar, o casco do Varyag estava em estado tão
lastimável que parecia impossível
pensar-se em comissioná-lo algum dia.
Por outro lado, para estudar as
características do navio
a fundo seria desnecessário rebocá-lo de tão longe ? Bastaria fazer isso na
própria Ucrânia, que
não se oporia a tal trabalho em suas águas contra a devida remuneração
universal.
Mais que isso, entende-se que o
Varyag já não representava
nenhuma tecnologia de ponta que merecesse
tanto esforço disfarçado para seu completo
estudo.
Enfim, a única resposta
plausível só poderia vir mesmo do
extremo interesse da PLAN em ter seu
próprio NAe, desenvolvido e
construído na própria
China, sem qualquer ajuda externa aparente.
A ÚLTIMA VIAGEM
No ano de
2000, foi alugado um rebocador holandês,
tripulado por filipinos, para transportar o
Varyag da Ucrânia para a China. De forma inesperada,
o Governo da Turquia não
autorizou a passagem de tal
gigante
pelo Estreito de Bósforo,
alegando temer pelo que pudesse acontecer
com as pontes de Istambul.
Além dessas considerações de segurança, um Tratado de Montreux datado de 1936
não permitia
que Navios-Aeródromos passassem pelos
Estreitos de Dardanelos (a sudoeste
do Estreito de Bósforo).
Incrivelmente, o casco do outrora
majestoso futuro NAe
Soviético passou 16 meses circulando pelo
Mar Negro à espera de uma
solução para o
impasse.
Diplomatas chineses do mais alto
nível e membros de seu
Governo Central conduziram negociações em Ancara em nome da simpática
Agência de Viagens Chong
Lot. Ofereceram aos Turcos a permissão
de
que turistas chineses pudessem visitar
este País em massa, tudo em troca da autorização
da passagem do
casco
pelos estreitos.
Finalmente, em 1º de novembro
de 2001, a Turquia aceitou um
acordo, autorizando o tão esperado
trânsito do Varyag, que levou 6 (seis) horas
para atravessar o Estreito de
Bósforo em uma
operação gigantesca e cinematográfica, digna das grandes produções de
Holywood.
Outro ângulo do Varyag
passando pelo Estreito de Bósforo.
Para realizarem uma travessia em
que navios muito maiores fazem
em pouco mais de 1 (uma) hora,
os chineses colocaram 27 navios para a escolta,
incluindo-se a impressionante e absurda quantidade
de 14 rebocadores, sendo 3 deles utilizados
como barcos pilotos. Tudo isso
para um simples hotel flutuante
particular (!).
A imprensa russa reportou, espantada, que 16 pilotos
foram contratados, além de
250 marinheiros envolvidos em
toda a
delicada e curiosa
operação. No fim da manhã de 2 de novembro de 2001, a travessia foi
concluída, rumando o
casco para Galipoli e Dardanelos a
uma velocidade de apenas 6 nós.
A grande travessia
do VARYAG.
MOMENTOS CRUCIAIS
Em 3 de
novembro de 2001, o Varyag foi pego em um grave furacão de
força 9 e ficou à deriva enquanto passava pelo Mar Egeu,
perto da Ilha grega de Skyros.
Equipes de salvamento
marítimo gregas e turcas tentaram recapturar o casco, que
adernava para a Ilha
de Evia. A tripulação de 7 homens permanecia
a bordo, enquanto 6 rebocadores tentavam a todo
custo retomar os cabos de reboque.
Momentos cruciais da
travessia.
Contudo, após muitas
tentativas infrutíferas de prender-se
tais cabos no grande casco, um helicóptero
de resgate da Guarda
Costeira da Grécia
pousou no navio e levou 4 de seus tripulantes.
Mais tarde naquela noite, um
rebocador tentou um enlace
rápido, mas fortes ventanias fizeram embaraçar
seus cabos com os de outros dois rebocadores,
perdendo-se todos os esforços de segurar
o navio, que continuava aproximando-se,
perigosamente, da Ilha de
Evia.
Já em 6 de novembro, no
momento mais triste de toda a
empreitada, um marinheiro português do
rebocador Haliva Champion morreu, após cair
ao mar, enquanto tentava reatar os
cabos.
Em 7 de novembro de 2001,
finalmente, o casco foi recapturado
pelos rebocadores. Seu transporte para o Canal
de
Suez foi realizado a uma velocidade
próxima a apenas 3 nós.
RENASCIMENTO
Em todo esse
período - 2001 a 2007, analistas de todo mundo acreditavam que o
Varyag deveria no máximo estar sendo preparado para vir a ser usado como plataforma de treinamento para
pousos e decolagens.
Mas em 24 de outubro de 2006, o
site chinês de defesa Sino
Defence publicou
matéria informando que o Varyag estaria sendo reformado com
ajuda russa para ser o primeiro NAe chinês, havendo inclusive uma
encomenda de aeronaves russas Su-33,
que
poderia remontar a 50 unidades.
Notícia de novembro de 2006 no site Sistemas
de Armas: "A China estuda a compra
de 50 caças Su-33,
variante naval do Flanker, por US$ 2,5 bilhões. Inicialmente
serão adquiridos dois Su-33 por US$ 100 milhões para
testes e avaliação com entrega em 2007-2008. As aeronaves
poderão equipar o futuro NAe chinês que provavelmente
será o Varyag adquirido em 1999 e pintado em cinza em 2005, o
que sugere que ele está sendo reformado."
Para entender-se como é jogado o quebra-cabeça
chinês, o mesmo site chinês Sino Defence informava em julho de 2004 que o Varyag
ainda estaria sendo reformado no Estaleiro Dalian para transformar-se
em um hotel flutuante e
cassino em Macao, de acordo com seu
proprietário, uma empresa privada dessa cidade, que já
foi colônia portuguesa.
(Clique na
foto abaixo para ampliação)
O Varyag sendo reformado no
Estaleiro Dalian.
Então, só era de se
estranhar
que a pequena empresa de Hong
Kong, a Chong Lot Travel Agency
Ltd., que arrematou o Varyag
por apenas US$ 20 milhões em abril de 1998,
tinha passado a ter sede em Macao, de
acordo
com o site
acima.
Nada impedia que ela o tivesse repassado ou mesmo mudado de
cidade.
Mas isso ainda continuava sendo estranho. Tratava-se de mais uma
incrível
história.
Já em 2005, o navio teve seu
casco pintado com a cor usada pela PLAN para seus navios de guerra. E a partir
daí, a máscara do dragão caiu de vez.
Enquanto essa reforma geral ocorria, a China devia estar tentando
aprender com todos os detalhes desse navio em
mais uma tentativa de expandir seu poder naval,
mesmo sendo uma plataforma de mais de
uma geração
atrasada em
relação aos NAes ocidentais.
Por outro lado, a China
também parecia estar querendo
há tempos contratar a Rússia para produzir um
novíssimo NAe.
Enfim, só havia especulações até outubro de
2006, sendo o caso chinês
tão intrigante que
mereceu da Jane´s uma reportagem
especial e uma página própria no DEFESA BR :
Em março de
2007, novamente foi noticiado que o governo chinês estaria
planejando
autorizar a construção em território chinês
do seu primeiro Navio-Aeródromo, só que NUCLEAR.
Trataria-se de um NAe de 93.000 toneladas, que poderia ser
construído nos estaleiros da indústria naval estatal
China State Shipbuilding Corp's Jangnan, localizados no
município de Changxhing Island e
perto da cidade de Shangai. Este NAe nuclear ainda poderá ser
comissionado
antes de 2020.
Até 2012, a PLAN - Marinha Popular da China - poderia estar
recebendo
um NAe convencional, que até mesmo poderia ser mesmo o nosso
velho
conhecido VARYAG.
Esquema chinês para o
NAe Varyag.
Ele estava sendo totalmente
revisado e reformado na localidade marítima de Dalian para ser
utilizado
em missões marítimas de treinamento.
Relatórios na internet informavam
ter havido primeiro uma pintura com cromato do zinco no convôo,
que é um primer com propriedades anti-corrosivas. Em seguida,
foi passada por
cima desse fundo uma tinta cinzenta escura usada em
superfícies antiderrapantes para
emprego
de aeronaves em uma NAe.
Pintura do Varyag no
Estaleiro Dalian.
Isso
já era uma
indicação clara que a PLA-N pretendia mesmo comissionar o
Varyag
como um NAe operacional
em poucos anos.
2010
Em julho de 2010, fotos do casco do Varyag foram
divulgadas
fora da doca, mostrando que os trabalhos de recriação do
navio-aeródromo estavam bem avançados.
O progresso na prontificação do navio e o voo do J-15,
cópia do caça naval Su-33 russo, evidenciavam a firme
disposição da China de ingressar no grupo de
nações que operam NAes.
(Clique na
foto abaixo para ampliação)
Varyag no Estaleiro Dalian.
(Foto FYJS)
(Clique na
foto abaixo para ampliação)
Close
da ilha do NAe Varyag no Estaleiro Dalian.
(Foto FYJS)
Fontes militares e
políticas de
Pequim disseram em 23 de dezembro de 2010 que a China
pretendia lançar ao mar o
seu primeiro NAe, o Varyag, ainda em 2011, antecipando-se em um ano
às previsões de analistas militares dos EUA.
Analistas diziam então que a China deveria usar o equipamento
para dar
segurança ao transporte de petróleo no oceano
Índico e nos arredores das disputadas ilhas Spratly. Mas a
operação com capacidade total ainda deveria demorar
alguns
anos.
NAE
LIAONING
Finalmente, o Varyzag
passou a ser o primeiro navio-aeródromo chinês, sendo
renomeado como Liaoning, e sido entregue em 25 de setembro de 2012 ao
comissariado da Marinha, em um estaleiro de navios em Dalian, nordeste
do país.
Naquele mesmo dia, o
capitão, o comissário político e mais de mil
tripulantes do novo NAe fizeram sua primeira aparição
pública. O Liaoning continuaria os testes científicos e
treinamento militar após a entrega.
O então
primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, leu uma carta de
congratulações em nome das autoridades centrais. Ele
disse que o primeiro NAe do país em serviço seria "de
importância significativa e de longo alcance nas
aspirações do patriotismo, espírito nacional e na
promoção das tecnologias de defesa nacional".
Segundo especialistas, a
Marinha chinesa passaria a realizar uma série de testes no NAe
Liaoning, como por exemplo, o teste sobre a função no
ambiente de operação real.
FONTES & LINKS
CHINA
Sino
Defence - Varyag
Sino Defence
The Mistery of the Hapless Varyag
Blog Defesa BR:
China
Agora Tem o Navio-Aeródromo Liaoning, Um Renovado Varyag
DARDANELOS
Dardanelles Straits