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A RÚSSIA RESSURGE




Urso e bandeira russos


INTRODUÇÃO


Com a breve guerra contra a Geórgia, em agosto de 2008, a Rússia ressurgiu como potência desafiadora, declarando ao mundo estar pronta para reivindicar um novo papel na ordem mundial.


O presidente americano, George W. Bush, aparentemente, sentindo-se impotente, afirmou que era inaceitável aquele tipo de invasão no século XXI. Coube ao presidente da França, Nicolas Sarkozy, obter um cessar-fogo.


Quando aquela semana terminou, havia uma paz precária e uma grande tensão internacional que poderá demorar anos para se dissipar.



Essa foi uma primeira e firme resposta aos movimentos dos EUA de atraírem aquele país e a Ucrânia para a OTAN, e ainda em relação às baterias de mísseis que serão instaladas na Polônia, considerada uma afronta contra a Rússia.



VÍDEO - RÚSSIA REALIZA MAIOR DESFILE
MILITAR DESDE O FIM DA URSS (01:51 MIN)




Matéria exibida no Jornal Nacional da Rede Globo em 9 de maio de
2008, data em que a Rússia celebra a vitória na Segunda Guerra
Mundial. Ver Presidente Medvedev já advertindo os EUA.



O acordo deixa em aberto o status das regiões separatistas Ossétia do Sul e Abkazia. A expectativa é que cresça a influência russa e que, com o tempo, essas regiões acabem se separando formalmente e se integrando à Rússia, voltando ao velho Império. Logo após a campanha da Geórgia, a Rússia reconheceu a independência das duas regiões.


Em 1890, o Império Russo, construído no Século XVIII por Pedro, o Grande e Catarina II, tinha 22,4 milhões de km2 e 130 milhões de habitantes, sendo então o segundo maior império contíguo em toda a história da humanidade e uma da 5 maiores potências da Europa.



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Pedro O Grande

Retrato de 1710 do imperador Pedro, o Grande, que viveu entre 1672 e 1725.
(Arte de Domínio Público)



Catarina II

Retrato de 1710 da imperadora Catarina II, a Grande,
que viveu entre 1672 e 1725. Obra exposta no
Museu Hermitage, de São Petesburgo, Rússia.

(Arte de Domínio Público)



No Século XX, durante o período soviético, o território russo se manteve do mesmo tamanho, a população chegou a 300 milhões de habitantes e a Rússia se transformou na segunda maior potência militar mundial, tendo destruído a Alemanha Nazista em 1945, e tendo rivalizado com os EUA dali até 1991, pelo sombrio período conhecido como Guerra Fria, que revirou todo o planeta em prol do Comunismo.


Hoje a Rússia tem 17.075.200 km2 e apenas 152 milhões de habitantes, tendo perdido cerca de 5 milhões de km2 e cerca de 140 milhões de habitantes desde a implosão
da União Soviética em 1991. Daí, o que se viu no cenário internacional foi uma Rússia mutilada e ressentida.


O desaparecimento da URSS colocou a Rússia na condição de uma potência derrotada, que perdeu um quarto do seu território e metade de sua população, mas que manteve quase intacto o seu armamento atômico e o seu potencial militar e econômico, acrescido este pelas gigantescas reservas de petróleo e gás.


Ela parece ao mundo manter ainda uma vontade secreta de desfazer aquela derrota e desejar lutar contra o atual status quo internacional, vindo em breve a retomar seu sonhado lugar na hierarquia do poder mundial.



Urso  russo na Harrods

Como o mundo ainda vê o Urso russo ?
(Foto de urso à venda no e-Bay)



Por isso, neste início do Século XXI, a Rússia ressurge como a provável grande questionadora dessa ordem mundial unipolar mantida pela onipresente HEGEMONIA dos EUA, até que possa retomar o seu velho território, conquistado por Pedro e Catarina II, os Grandes.




A RÚSSIA RESSURGE


No mês de abril de 2008, uma reunião de cúpula da OTAN, na cidade de Bucareste, reconheceu a aspiração da Geórgia de participar da aliança militar liderada pelos EUA, apesar da resistência alemã e da oposição explícita do governo russo.


Em 11 de julho de 2008, aviões da Força Aérea Russa sobrevoaram o território da Ossétia do Sul na véspera da visita à Geórgia da secretária de Estado Condoleezza Rice, a fim de inaugurar uma operação ironicamente chamada Resposta Imediata 2008.



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Mapa da Geórgia

Mapa da Geórgia com a Rússia ao norte, a capital Tblisi
e as 2 províncias separatistas, Ossétia do Sul e Abkazia.




Tratava-se de um exercício militar conjunto do US Army com as tropas da Geórgia, Ucrânia, Armênia e Azerbaijão. Ele foi realizado na Base Aérea de Vaziani, que havia pertencido à Força Aérea Russa até 2001.


Naquele momento, as Forças Armadas da Geórgia contavam com cerca de 20 mil soldados, sendo 12 mil preparados para o combate. Do outro lado, a Rússia contava com mais de 1 milhão de soldados, 1,7 mil aviões e 6 mil tanques.


Na noite do dia 7 de agosto de 2008, o presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili, cometeu um erro fatal ao resolveu recuperar à força o controle sobre a província da Ossétia do Sul, na fronteira russa, que gozava de autonomia de fato desde 1992, quando terminaram em cessar-fogo 2 anos de violenta revolução separatista.


No dia seguinte, em 8 de agosto, forças da Geórgia atacaram de surpresa a província da Ossétia do Sul e conquistaram sua capital, Tskhinvali. Há
relatos não confirmados de que até 2 mil pessoas teriam sido mortas no ataque. O fato mais estranho foi a Geórgia atacar a Ossétia do Sul no dia em que o mundo assistia pela TV a abertura das Olimpíadas na China.


Quando as tropas georgianas atacaram Tskhinvali, os tanques e aviões russos cruzaram a fronteira de imediato. Eles estavam postados na divisa desde julho, quando o Exército russo realizou na região manobras militares ostensivas, preparatórias e preventivas.



Em poucas horas, os russos esmagaram o Exército rival, destruíram a infra-estrutura essencial de comunicação do país, afundaram navios, bombardearam cidades e começaram, sem resistência, a cobrir os 100 km que separam a Ossétia do Sul da capital da Geórgia, Tbilisi. Quando o mundo se deu conta, um terço do território da jovem democracia estava sob ocupação .



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Tbilisi - Praça da Liberdade

Foto de novembro de 2006 da Praça da Liberdade, em Tbilisi.
À esquerda fica a Prefeitura da capital da Geórgia, e
ao centro a Coluna de São Jorge.
(Foto Kober)



A grande surpresa do mundo inteiro foi a rapidez, extensão e eficácia da resposta russa que, em poucas horas, cercou, dividiu e atacou - por terra, mar e ar - o território da Geórgia, em uma demonstração contundente de decisão política, organização militar e poder de conquista.


Tudo feito com tamanha rapidez e agilidade que deixou os governos ocidentais perplexos, divididos e impotentes, obrigados a acompanharem os desdobramentos da ofensiva russa, hora a hora, por meio de fatos consumados, sem conseguirem antecipar o seu objetivo final. A única coisa que conseguiram entender foi que aquilo sim era uma real
Resposta Imediata 2008.


Provérbio russo :

"nunca bata no nariz de um urso
se este parecer estar dormindo".

 


Urso russo - Putin

O Urso russo com o rosto de Putin afiando as garras com uma lima.
(Charge do sueco Riber Hansson, vencedor do grande
prêmio da 3ª Edição do World Press Cartoon)



Tucídides (460 AC - 404 AC), o cronista da Guerra do Peloponeso, disse que os povos vão à guerra por "honra, temor e interesse". Vladimir Putin e Dmitri Medvedev pensam assim, mas não necessariamente nessa ordem.


O fato é que, com essa resposta, a Guerra Fria voltou à agenda mundial e muitas velhas feridas do Século XX foram imediatamente reabertas.
Quando as tropas russas entraram na cidade de Gori, na Geórgia, trouxeram com elas a lembrança de que ali nascera, em 1878, Josef Stalin, mais famoso por ter assassinado por volta de 9 milhões de pessoas.


A marcha sobre a Geórgia, uma ex-república soviética famosa por seus vinhos, culinária, música e a alegria do povo, reafirma, em pleno século XXI, a validade de conceitos que fizeram a tragédia do século passado: a força das armas, o peso da geografia e o vigor dos ressentimentos nacionais. 



Definitivamente, a Rússia reafirmou sua posição de força hegemônica naquela região, que vinha sendo abertamente ameaçada pelos EUA. Mas, por outro lado, o Ocidente continuava precisando da Rússia e a Rússia precisando do Ocidente. Os russos desejavam integrar-se mais ao sistema econômico mundial e serem levados realmente a sério no cenário diplomático.


O Ocidente precisava do apoio da Rússia nas negociações com o Irã e o Sudão, por exemplo. E possivelmente os países ocidentais terão que admitir que a Rússia tinha que agir, até porque já dependem muito de seu petróleo e gás. Mas eles também precisam explicar porque ajudaram o Kosovo a se separar da Sérvia, e agora questionaram o direito da Rússia de apoiar a Ossétia do Sul.



Urso Russo e Gás para UE

O Urso russo matreiro fechando a válvula do imenso gasoduto
que alimenta uma excessivamente dependente União Européia.
(Charge publicada pelo The Economist de 4 de maio de 2006)



Apesar disso, vários países já estavam falando em retaliar a Rússia, estando os EUA à frente. Entre as várias medidas possíveis estavam o bloqueio de um novo acordo entra os russos e a União Européia, que envolvia questões que vão de comércio até direitos humanos.


Outros pontos que vinham sendo discutidos eram o reforço do compromisso de integrar a Geórgia e a Ucrânia à OTAN e tentar retirar a Rússia da OMC e do G8. Nada mais aconteceu.





A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL?


Pelo que se vê, o Urso russo finalmente saiu da toca e estava furioso com os EUA. Tudo porque a política de Washington em relação aos Países da ex-URSS é invasiva demais e está pondo o mundo num perigo iminente. E tanto faz se a crise estiver na Geórgia ou na Polônia, o estopim e o resultado disso levam ao mesmo caminho previsível.



Urso russo brabo

Urso russo furioso com os EUA.



Há quem diga que a Rússia já não é o que era antes, mas a verdade é que sempre que a Rússia ressurgiu das cinzas, voltou mais forte, mais poderosa e mais impiedosa. Com Pedro o Grande, com Catarina a Grande, e na Segunda Guerra Mundial, os maiores impérios foram dobrados pela pesada pata de ferro do Urso.


A última vez em que o mundo esteve à beira da Terceira Guerra Mundial foi na Crise dos Mísseis de Cuba em outubro de 1962.


Esse quadro assustador voltava a se repetir a partir de 21 de agosto de 2008, data em que o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radek Sikorski, e a secretária de Estado americana,
Condoleezza Rice, finalmente assinaram a longamente preparada aliança para a instalação de um escudo de defesa antimísseis americano em território polonês.


Pela parceria, a Polônia concordava em abrigar 10 mísseis em uma antiga base militar perto da costa do Mar Báltico. Os americanos se comprometiam, em troca, a ajudar os poloneses a melhorar suas Forças Armadas, além de remanejar para o país mísseis tipo Patriot e militares americanos, com o objetivo de reforçar as defesas aéreas plonesas.


A firme reação russa veio de imediato, no mesmo dia, com seu Ministério das Relações Exteriores emitindo nota informando que :

o governo russso será obrigado a
reagir ao acordo, e não apenas
com medidas diplomáticas.



Segundo a nota, essa parceria iria gerar uma nova corrida armamentista na Europa.


No final de agosto, o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, disse em entrevista a CNN que o governo americano poderia ter incentivado a Geórgia a entrar em guerra para desviar a atenção de seus próprios problemas econômicos e ajudar um candidato à presidência, o que se presume ser uma referência ao candidato republicano, John McCain.



A atitude ofensiva da Geórgia contra a Ossétia do Sul teria se originado de um ardiloso movimento interno contra o candidato Barack Obama ?



Seja como for, o Urso já saiu da toca e foi atrás da caça. Em setembro de 2008, dois bombardeiros nucleares russos Tu-160 chegaram a Venezuela para pretensos exercícios, em uma mais que clara provocação. Sem dúvida, a velha Guerra Fria estava de volta e de uma forma mais virulenta que nunca em alguns momentos.



Tu-160

O Tu-160 é um avião supersônico que voa a 2.200 km/h, pode carregar
12 mísseis de cruzeiro com ogivas nucleares ou convencionais,
e ainda impressionantes 40 toneladas de bombas.
(Foto Tupolev)



Em 21 de setembro, a Marinha da Rússia preparava o envio de uma esquadra para a Venezuela, com a justificativa de exercícios conjuntos, mas que era pura provocação dos dois países contra os EUA. O cruzador movido à energia nuclear Pedro, o Grande e outros três navios da Frota do Norte iniciariam a viagem até o Atlântico naquela manhã, bem mais cedo do que o noticiado.



(Clique na foto para ampliação)

Pedro O Grande - Cruzador Nuclear

O Cruzador Nuclear Pedro, O Grande em São Peterburgo.
(Foto Naval Technology)




O REARMAMENTO RUSSO


Nesse grande estilo de “A Rússia Ressurge”, novos planos apareceram ainda em 2008, pois eles anunciaram que planejam voltar a ser grandes. E isso ocorreu justamente em setembro, um momento paradoxal em que os EUA pareciam rumar a uma derrocada até semelhante à vivida pelos russos com a um dia poderosa URSS.


Falavam simplesmente em montarem 5 Forças-Tarefas baseadas em 5 Navios-Aeródromos Nucleares e virem a ter a segunda maior esquadra do mundo.


Ficavam 2 dúvidas a longo prazo. A primeira é se isso tudo iria mesmo se concretizar. A segunda era mais uma curiosidade. Se preencherem esses 5 NAes Nucleares com 60 aeronaves cada, pelo menos a metade teria que ser de caças. Isso daria 150 caças embarcados. Já que os poucos Su-33 seriam substituídos por um novo modelo até 2016, qual seria o novo caça naval russo à época ?


Seria uma modernização do Su-33, o Flanker Naval, com as novas tecnologias do Su-35BM, ou mesmo um impressionante PAK-FA naval, altamente furtivo e letal ? Uma solução mista também era bem válida.


Em setembro de 2008, a Rússia anunciou que sua aviação naval passaria a ter Barcos Voadores A-42PE da Beriev, a serem fabricados na cidade de Taganrog, para missões de patrulhamento marítimo e missões de resgate a partir de 2010. Em 2013, eles já seriam quatro aparelhos em operação na Marinha.


A Rússia lançou ainda um novo desafio a Barack Obama, ao anunciar no fim de dezembro de 2008 (antes de sua posse) um plano de aumentar a produção de mísseis nucleares estratégicos.


Na última de uma série de medidas belicosas do Kremlin, Vladislav Putilin, da comissão militar-industrial do Gabinete russo, disse que as forças do país encomendariam 70 mísseis estratégicos nos próximos três anos, como parte de um programa maciço de rearmamento que incluirá também mísseis de curto alcance, 300 tanques, 14 navios de guerra e 50 aviões.


Especialistas em assuntos militares disseram que o novo arsenal consistiria presumivelmente de mísseis balísticos intercontinentais com base terrestre (ICBMs), em vez de mísseis lançados de submarinos. Se isso se confirmasse, os planos representariam um aumento de quatro vezes na taxa de posicionamento desses mísseis intercontinentais.


O arsenal incluiria um míssil de ogivas múltiplas de nova geração RS-24. Ele foi testado pela primeira vez em 2007, quando o vice-primeiro-ministro Serguei Ivanov alardeou que ele era "capaz de vencer qualquer sistema de defesa de mísseis existente ou futuro".


Os novos mísseis fariam parte de um pacote de Defesa de US$ 140 bilhões para o período de 2009 a 2011, um aumento de 28% em gastos com armamentos, segundo Putilin. Também estavam previstos novos aumentos nos dois anos seguintes.


Moscou também vinha fornecendo ao Irã novos mísseis de defesa terra-ar em desafio à oposição americana. São mísseis S-300, que têm alcance de 120 km. Eles poderiam ameaçar aviões americanos no Iraque e também proteger sítios nucleares iranianos de ataques aéreos.




FONTES & LINKS


Wikipedia

BBC - Guide to Planned US Missile Shield

Tupolev - Tu-160

Blog Defesa BR :

       Medvedev Demite Chefe da Inteligência






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