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A HEGEMONIA DOS EUA

             

REPORTAGEM 2


"Os EUA não Querem Aliados, Querem Vassalos. "
Entrevista de Assis Moreira - Genebra - Gazeta Mercantil

Com Victor Ghebaldi - Analista Internacional e
Professor do Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra


Gazeta Mercantil de 20 de maio de 2003


Para Victor Ghebali, analista internacional, situação atual é "inquietante". A Organização das Nações Unidas (ONU) nunca passou por uma crise tão profunda como agora. Para o professor Victor Yves Ghebali, do Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra, a instabilidade na ordem internacional pode continuar por um bom tempo. Afinal, os Estados Unidos querem a partir de agora usar as leis "à la carte’’, causando mais incertezas. Diretor da coleção "Organisation internationale et relations internationales", Ghebali tem-se concentrado em pesquisas sobre as Nações Unidas, relações Leste-Oeste, o Mediterrâneo e as minorias nacionais.


Gazeta Mercantil - Como o sr vê a ordem internacional após a ocupação do Iraque?

Victor Yves Ghebali - A situação é inquietante, porque a superpotência, que deveria ser estabilizadora e democrática, hoje age de maneira exatamente contrária.


Gazeta Mercantil - E marginaliza as Nações Unidas.

Sim. Antes da guerra no Iraque, a ONU salvou a honra, pois não legitimou a intervenção americana. Agora, a ONU será forçada de uma maneira ou de outra a legitimar a intervenção americana com esse projeto de resolução em debate no Conselho de Segurança, que prevê um papel puramente humanitário para as Nações Unidas. Esse projeto sobretudo legitimaria a intervenção americana. Se a ONU fosse corajosa, deveria recusar dar um cheque em branco aos Estados Unidos, e deixá-los agir em toda ilegalidade. Mas a coragem política nunca foi o forte da ONU.


Gazeta Mercantil - Como o sr vê o comportamento do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, nessa crise?

Há duas escolas de reflexão. Uma defende que Kofi Annan deveria ter se demitido para mostrar que a carta da Organização das Nações Unidas foi completamente desrespeitada pelos Estados Unidos, e que isso era inaceitável. Outra opina que a demissão teria sido uma péssima idéia naquele momento, pois a crise teria sido ainda maior, deixando o navio sem piloto. Mas quando pensamos na responsabilidade de Annan em operações de manutenção da paz que fracassaram na Bósnia, Ruanda, Somália - ele deveria, por razões morais, ter-se demitido ou feito um grande protesto.


Gazeta Mercantil - Qual o papel hoje do Conselho de Segurança?

O Conselho de Segurança não pode ter um papel a partir do momento em que os Estados Unidos dizem que ou a ONU nos legitima e funciona, ou não nos legitima, mas ela não tem nada a fazer. A ONU nunca atravessou uma crise tão terrível. As crises de antes eram provocadas pela União Soviética, por um Estado totalitário. Mas agora são causadas, em princípio, por um Estado democrático. Pior, os Estados Unidos rejeitam a própria ordem internacional depois de 1945, que foi estabelecida por eles mesmos. O mais inquietante é que os EUA consideram que o direito internacional deve ser "à la carte’’. Quando lhes convém, tudo bem. Quando não, não respeita. Ora, não se pode ter uma ordem internacional assim. É por isso que é extremamente perigoso o que os Estados Unidos fizeram.


Gazeta Mercantil - Como o sr vê a posição da Alemanha e da Franca, que se opuseram aos EUA na ONU?

Há nuances na posição de ambos. Os alemães são pacifistas, o que é agradável para um europeu constatar. Os franceses são legalistas. Acho que os franceses vão manter sua posição (no Conselho de Segurança). Um compromisso (sobre a resolução envolvendo o Iraque) não é bom para a ONU, porque a intervenção americana no Iraque foi totalmente ilegal e ilegítima.


Gazeta Mercantil - E com relação à Rússia e a China?

Putin é um realista, joga a carta americana. Os americanos foram muito mais veementes e desagradáveis com a França do que com a Rússia. Quanto à China, foi de uma discrição total e também jogou a carta do realismo. Talvez os americanos tenham feito concessões sobre Taiwan que não conhecemos ainda.


Gazeta Mercantil - A Europa sai bem dividida da guerra no Iraque.

Há duas explicações para isso. Para se ter uma Europa política, é preciso uma liderança. Mas quem vai assumí-la, a França, Alemanha ou Grã-Bretanha ou uma aliança dos três? Os pequenos países não aceitarão jamais uma hegemonia continental. Preferirão sempre a hegemonia dos Estados Unidos, que são um aliado distante e que não tem ambição territorial e nem mesmo cultural, pois somos nós europeus que buscamos os produtos culturais americanos. Daí porque a Europa não tem chances de ser feita no plano político. A segunda explicação é que os antigos países do Pacto de Varsóvia estão condicionados por suas experiências sob o regime soviético e vêem os Estados Unidos como o país que soube resistir aos russos e derrubar o muro (de Berlim). Mas é um erro profundo, porque os Estados Unidos de hoje não são os Estados Unidos que conhecemos antes. A administração Bush é um governo de ideólogos e pouco profissional que se comporta de maneira emocional, irracional e que vai até mesmo contra os próprios interesses americanos. E com isso não há estabilidade nas relações internacionais. Os EUA não querem parceiros ou aliados, querem vassalos.


Gazeta Mercantil - Os EUA estão contra a integração européia?

Sim, a administração Bush quer que os EUA fiquem sem nenhum rival em nenhum domínio. É do interesse americano quebrar a União Européia. Até recentemente, os laços transatlânticos eram fundados em valores comuns. Ora, não vejo mais valores comuns entre a Europa e a administração Bush, que pratica o intervencionismo messiânico. Os atentados de 9 de setembro (2001) provocaram um traumatismo muito grave nos EUA. A administração decidiu que alguém deveria pagar por esse traumatismo. Como não conseguiam capturar Bin Laden nem destruir a Al-Qaida, resolveram atacar o Iraque como bode expiatório. Mas os EUA não tinham direito de fazer isso. Um país democrático não invade outro, ainda mais com base em falsos pretextos. Os americanos concluíram que o mundo era muito perigoso e os problemas vinham do Oriente Médio. Para tornar os EUA mais seguros, era
necessário mudar politicamente e culturalmente a região. O Iraque é um elemento de uma estratégia global, para mudar toda a carta política e cultural do Oriente Médio. Mas essa é uma tarefa impossível.


Gazeta Mercantil - Por que?

Primeiro, porque o verdadeiro problema não era o Iraque, e sim a questão israelense-palestina. Se isso não for resolvido, não se conseguirá nada. Além disso, se os EUA querem alterar o mapa da região, vão desestabilizar seus aliados, os egípcios, os sauditas e todos os outros. Não tem sentido. Se querem instaurar uma verdadeira democracia no Iraque, o poder vai cair nas mãos dos xiitas. E sabemos qual o projeto dos xiitas.


Gazeta Mercantil - Pode-se esperar reação dos meios empresariais americanos à política de Bush?

Não creio, ainda mais com a queda drástica de impostos que beneficia 1% da população. É esse grupo que apóia a administração republicana. Até a industria de armas vai obter do Congresso que não haja processo contra os que utilizam armas. É esse o centro da questão: o comportamento da administração Bush é uma verdadeira revolução no plano da sociedade americana e na política externa. Não vejo como os empresários reagirão, a não ser a longo prazo. No intervalo, o governo Bush provavelmente vai se reeleger em 2004 e isso será uma verdadeira catástrofe.


Gazeta Mercantil - Ou seja, continua a instabilidade na ordem internacional.

Ah sim, se o governo Bush for reeleito, os estragos podem ser irreparáveis na ordem internacional. O unilateralismo se imporá mais. No curto prazo, acho que haverá uma pausa. A prioridade será a reeleição de um presidente que não recebeu a maioria dos sufrágios na primeira eleição. A não ser que haja outros atentados. E sabemos que os EUA exploram a luta contra o terrorismo de maneira totalmente desonesta.