INTRODUÇÃO
Nicolau Maquiavel é um dos mais
conhecidos filósofos políticos de todos os tempos. Séculos
após terem sido publicados,
os trabalhos de Maquiavel continuam sendo lidos e analisados por
estudantes de
filosofia, história e política.
Florença na época de Maquiavel.
A obra-prima de Maquiavel - O Príncipe
- pode ser considerada um guia de conselhos para
governantes. O tema central do livro é o de que para permanecer
no poder, o líder deve estar disposto a desrespeitar qualquer
consideração moral, e recorrer inteiramente à
força e ao poder da decepção.
Para ele, o governante, se
necessário, deve ser cruel e fraudulento para obter e manter o
poder. Maquiavel entendia o mundo político e pôde aqui
descrevê-lo como ele realmente é.
Maquiavel nasceu em Florença, na Itália, em 3 de maio de
1469. Durante a juventude de Maquiavel, Florença era governada
pelo famoso Lorenzo Medici, o Magnífico. Em 1492, Medici morreu
e sua família foi expulsa de Florença, que se tornou uma
república em 1498.
Aos 29 anos de idade, Maquiavel conquistou um alto cargo na
administração civil da república. Ao longo dos
quatorze anos seguintes, ele participou de diversas missões
diplomáticas, tendo viajado pela França, Alemanha e pelo
interior da Itália.
A Itália dividida da Renascência.
Em 1502, Maquiavel se casou com Marieta
Corsini, com quem teve quatro filhos e duas filhas. Em 1510, inspirado
por sua leitura sobre a história romana, organizou uma
milícia civil da República de Florença. Todavia,
em agosto de 1512, um exército espanhol entrou na Toscana e
saqueou Prato.
Aterrorizados, os florentinos depuseram seu governante, Pier Soderini,
a quem Maquiavel havia caracterizado como “bom, porém fraco”, e
permitiram a volta da família Medici ao poder.
Em 7 de novembro do mesmo ano, pouco após os Medici assumirem
novamente o poder, Maquiavel foi demitido de seu cargo, e no ano
seguinte, foi preso por ter supostamente colaborado contra a
família Medici.
Ele foi torturado, mas ainda assim insistiu ser inocente. Foi libertado
naquele mesmo ano, e a partir de então, se isolou, vivendo em
uma
pequena propriedade em San Casciano, próximo a Florença.
Sem
perspectivas de conseguir uma nomeação para o novo
governo,
Maquiavel se dedicou a escrever livros.
Piazza Santa Croce, em Florença
Durante os 14 anos seguintes, Maquiavel
escreveu diversos livros. Sua obra mais famosa foi “O Príncipe”
(1513). Também escreveu “A Arte da Guerra” e “História de
Florença”. Mas seu mais brilhante e conhecido trabalho é,
sem dúvida, “O Príncipe”. Faleceu 21 de junho
de 1527, aos
58 anos de idade.
Um dos temas mais
importantes de “O Príncipe” é o debate sobre a seguinte
questão: “é preferível que um líder seja
amado ou temido?” Maquiavel responde que é importante ser amado
e temido, porém, é melhor ser temido que amado.
Maquiavel também afirma que, se necessário, um governante
deve mentir e trapacear. O autor declara que é melhor para um
líder caluniar do que agir de acordo com suas promessas, se
estas forem resultar em conseqüências adversas para sua
administração e seus interesses.
Da mesma forma que Maquiavel acreditava que os líderes deveriam
ser falsos quando preciso, ele os aconselhava a ficarem atentos em
relação às promessas de outros: eles também
podem estar mentindo caso seja de interesse deles.
Maquiavel preferia uma república à ditadura. Tinha uma
preocupação com a fraqueza militar e política da
Itália, e desejava ver um governante forte que unificasse o
país e expulsasse os invasores estrangeiros que estavam
devastando a Itália.
As idéias de Nicolau Maquiavel podem não ter sido morais,
mas foram certamente influentes. O próprio Maquiavel declarou
que
elas não eram originais: seus conselhos já haviam sido
adotados na prática por diversos governantes bem-sucedidos.
“O Príncipe” tornou-se notório após ter sido lido
por diversos vilões da história. Benito Mussolini,
o líder fascista italiano durante a Segunda Guerra Mundial, um
homem que trouxe muita destruição para seu país,
elogiou publicamente o livro. Dizem que Napoleão Bonaparte
dormia com um exemplar do livro sob seu travesseiro.
Maquiavel acreditava na capacidade
humana de determinar seu próprio destino. Para ele, os fins
justificavam os
meios: um governante deveria fazer qualquer coisa para atingir seus
objetivos. Ao escrever “O Príncipe”, Maquiavel desejava guiar os
governantes, alertando-os sobre as armadilhas da selva política.
Seu livro é um manual de auto-preservação para
líderes mundiais.
Seu trabalho e suas
idéias continuam sendo amplamente lidas e discutidas e ele
é considerado um
dos principais filósofos políticos de todos os tempos. Se
a
teoria política moderna é discutida hoje com tamanho
realismo, grande parte disso deve-se ao autor de “O Príncipe”.
ÍNDICE
DOS PRINCIPADOS
Capítulo II. Dos principados hereditários
Capítulo III. Dos principados mistos
Capítulo IV. Por que o reino de Dario, ocupado por Alexandre,
não se rebelou contra seus sucessores após a morte deste
Capítulo V. De que modo se devam governar as cidades ou
principados que, antes de serem ocupados, viviam com as suas
próprias leis
Capítulo VI. Dos principados novos que se conquistam com as
armas próprias e virtuosamente
Capítulo VII. Dos principados novos que se conquistam com as
armas e fortuna dos outros
Capítulo VIII. Dos que chegaram ao principado por meio de crimes
Capítulo IX. Do principado civil
Capítulo X. Como se devem medir as forças de todos os
principados
Capítulo XI. Dos principados eclesiásticos
Capítulo XII. De quantas espécies são as
milícias, e dos soldados mercenários
Capítulo XIII. Dos soldados auxiliares, mistos e próprios
Capítulo XIV. O que compete a um príncipe acerca da
milícia (tropa)
Capítulo XV. Daquelas coisas pelas quais os homens, e
especialmente os príncipes, são louvados ou vituperados .
Capítulo XVI. Da liberalidade e da parcimônia
Capítulo XVII. Da crueldade e da piedade; se é melhor ser
amado que temido, ou antes temido que amado
Capítulo XVIII. De que modo os príncipes devem manter a
fé da palavra dada
Capítulo XIX. De como se deva evitar o ser desprezado e odiado
Capítulo XX. Se as fortalezas e muitas outras coisas que a cada
dia são feitas pelos príncipes são úteis ou
não
Capítulo XXI. O que convém a um príncipe para ser
estimado
Capítulo XXII. Dos secretários que os príncipes
têm junto de si
Capítulo XXIII. Como se afastam os aduladores
Capítulo XXIV. Por que os príncipes da Itália
perderam seus estados
Capítulo XXV. De quanto pode a fortuna nas coisas humanas e de
que modo se lhe deva resistir
Capítulo XXVI. Exortação para procurar tomar a
Itália e libertá-la das mãos dos bárbaros
Carta de Machiavelli a Francesco Vettori, em Roma
O
PRÍNCIPE
Capa da
Edição de 1580.
AO MAGNÍFICO LORENZO DE MEDICI
NICOLÓ MACHIAVELLI
Costumam, o mais das vezes, aqueles que desejam conquistar as
graças de um Príncipe, trazer-lhe aquelas coisas que
consideram mais caras ou nas quais o vejam encontrar deleite, donde se
vê amiúde serem a ele oferecidos cavalos, armas, tecidos
de ouro, pedras preciosas e outros ornamentos semelhantes, dignos de
sua grandeza. Desejando eu, portanto, oferecer-me a Vossa
Magnificência com um testemunho qualquer de minha
submissão, não encontrei entre os meus cabedais coisa a
mim mais cara ou que
tanto estime, quanto o conhecimento das ações dos grandes
homens
apreendido através de uma longa experiência das coisas
modernas
e uma contínua lição das antigas as quais tendo,
com
grande diligência, longamente perscrutado e examinado e, agora,
reduzido
a um pequeno volume, envio a Vossa Magnificência.
E se bem julgue esta obra indigna da presença de Vossa
Magnificência, não menos confio que deva ela ser aceita,
considerado que de minha parte não lhe possa ser feito maior
oferecimento senão o dar-lhe a faculdade de poder, em tempo
assaz breve, compreender tudo aquilo que eu, em tantos anos e com
tantos incômodos e perigos, vim a conhecer. Não ornei este
trabalho, nem o enchi de períodos sonoros ou de palavras
pomposas e magníficas, ou de qualquer outra figura de
retórica ou ornamento extrínseco, com os quais muitos
costumam desenvolver
e enfeitar suas obras; e isto porque não quero que outra coisa o
valorize, a não ser a variedade da matéria e a gravidade
do assunto
a tornarem-no agradável. Nem desejo se considere
presunção se um homem de baixa e ínfima
condição ousa discorrer e estabelecer regras a respeito
do governo dos príncipes: assim como aqueles que desenham a
paisagem se colocam nas baixadas para considerar a natureza dos montes
e das altitudes e, para observar aquelas, se situam em
posição elevada sobre os montes, também, para bem
conhecer o caráter do povo, é preciso ser príncipe
e, para bem entender o do príncipe, é preciso ser do
povo. Receba, pois, Vossa Magnificência este pequeno presente com
aquele intuito com que o mando; nele, se diligentemente considerado e
lido, encontrará o
meu extremo desejo de que lhe advenha aquela grandeza que a fortuna e
as outras
suas qualidades lhe prometem. E se Vossa Magnificência, das
culminâncias
em que se encontra, alguma vez volver os olhos para baixo,
notará
quão imerecidamente suporto um grande e contínuo
infortúnio.
CAPÍTULO I
DE QUANTAS ESPÉCIES SÃO OS PRINCIPADOS E DE QUE MODOS SE
ADQUIREM
(QUOT SINT GENERA PRINCIPATUUM ET QUIBUS MODIS ACQUIRANTUR)
Todos os Estados, todos os governos que tiveram e têm autoridade
sobre os homens, foram e são ou repúblicas ou
principados. Os principados são: ou hereditários, quando
seu sangue senhorial é nobre há já longo tempo, ou
novos. Os novos podem ser
totalmente novos, como foi Milão com Francisco Sforza, ou o
são como membros acrescidos ao Estado hereditário do
príncipe que os adquire, como é o reino de Nápoles
em relação ao rei da Espanha. Estes domínios assim
obtidos estão acostumados, ou a viver submetidos a um
príncipe, ou a ser livres, sendo adquiridos com tropas de outrem
ou com as próprias, bem como pela fortuna ou por
virtude.
DOS PRINCIPADOS
(De Principatibus)
CAPÍTULO II
DOS PRINCIPADOS HEREDITÁRIOS
(DE PRINCIPATIBUS HEREDITARIIS)
Não cogitarei aqui das repúblicas porque delas tratei
longamente em outra oportunidade. Voltarei minha atenção
somente para os principados, irei delineando os princípios
descritos e discutirei como devem ser eles governados e mantidos. Digo,
pois, que para a preservação dos Estados
hereditários e afeiçoados à linhagem de seu
príncipe, as dificuldades são assaz menores que nos
novos, pois é bastante não preterir os costumes dos
antepassados e, depois, contemporizar com os acontecimentos fortuitos,
de forma que, se tal príncipe for dotado de ordinária
capacidade sempre se manterá no poder, a menos que uma
extraordinária e excessiva força dele
venha a privá-lo; e, uma vez dele destituído, ainda que
temível
seja o usurpador, volta a conquistá-lo.
Nós temos na Itália, como exemplo, o Duque de Ferrara que
não cedeu aos assaltos dos venezianos em 1484 nem aos do Papa
Júlio em 1510, apenas por ser antigo naquele domínio. Na
verdade, o príncipe natural tem menores razões e menos
necessidade de ofender: donde se conclui dever ser mais amado e, se
não se faz odiar por desbragados vícios, é
lógico e natural seja benquisto de todos. E na antigüidade
e continuação do exercício do poder,
apagam-se as lembranças e as causas das inovações,
porque
uma mudança sempre deixa lançada a base para a
ereção de outra.
CAPÍTULO III
DOS PRINCIPADOS MISTOS
(DE PRINCIPATIBUS MIXTIS)
Mas é nos principados novos que residem as dificuldades. Em
primeiro lugar, se não é totalmente novo mas sim como
membro anexado a um Estado hereditário (que, em seu conjunto,
pode chamar-se "quase misto"), as suas variações resultam
principalmente de uma natural dificuldade inerente a todos os
principados novos: é que os homens, com
satisfação, mudam de senhor pensando melhorar e esta
crença faz com que lancem mão de armas contra o senhor
atual, no que se
enganam porque, pela própria experiência, percebem mais
tarde
ter piorado a situação. Isso depende de uma outra
necessidade
natural e ordinária, a qual faz com que o novo príncipe
sempre
precise ofender os novos súditos com seus soldados e com outras
infinitas
injúrias que se lançam sobre a recente conquista; dessa
forma,
tens como inimigos todos aqueles que ofendeste com a
ocupação
daquele principado e não podes manter como amigos os que te
puseram
ali, por não poderes satisfazê-los pela forma por que
tinham
imaginado, nem aplicar-lhes corretivos violentos uma vez que
estás
a eles obrigado; porque sempre, mesmo que fortíssimo em
exércitos,
tem-se necessidade do apoio dos habitantes para penetrar numa
província.
Foi por essas razões que Luís XII, rei de França,
ocupou
Milão rapidamente e logo depois o perdeu, para tanto bastando
inicialmente
as forças de Ludovico, porque aquelas populações
que
lhe haviam aberto as portas, reconhecendo o erro de seu pensar anterior
e
descrentes daquele bem-estar futuro que haviam imaginado, não
mais
podiam suportar os dissabores ocasionados pelo novo príncipe.
Ë bem verdade que, reconquistando posteriormente as regiões
rebeladas, mais dificilmente se as perdem, eis que o senhor, em
razão da rebelião, é menos vacilante em
assegurar-se da punição daqueles que lhe faltaram com a
lealdade, em investigar os suspeitos e em reparar os pontos mais
fracos. Assim sendo, se para que a França
viesse a perder Milão pela primeira vez foi suficiente um Duque
Ludovico
que fizesse motins nos seus limites, já para perdê-lo pela
segunda vez foi preciso que tivesse contra si o mundo todo e que seus
exércitos fossem desbaratados ou expulsos da Itália, o
que resultou das razões logo acima apontadas. Não
obstante, tanto na primeira como na segunda vez, Milão foi-lhe
tomado.
As razões gerais da primeira foram expostas; resta agora falar
sobre as da segunda vez e ver de que remédios dispunha a
França e de que meios poderá valer-se quem venha a
encontrar-se em circunstâncias tais, para poder manter-se na
posse da conquista melhor do que o fez esse país.
Digo, consequentemente, que estes Estados conquistados e anexados a um
Estado antigo, ou são da mesma província e da mesma
língua, ou não o são: Quando o sejam, é
sumamente fácil mantê-los sujeitos, máxime quando
não estejam habituados a viver em liberdade, e para
dominá-los seguramente será bastante ter-se extinguido a
estirpe do príncipe que os governava, porque nas outras coisas,
conservando-se suas velhas condições e não
existindo alteração de costumes, os homens passam a viver
tranqüilamente, como se viu ter ocorrido com a Borgonha, a
Bretanha,
a Gasconha e a Normandia que por tanto tempo estiveram com a
França, isto a despeito da relativa diversidade de
línguas, mas graças à semelhança de
costumes facilmente se acomodaram entre eles. E quem conquista,
querendo conservá-los, deve adotar duas medidas: a primeira,
fazer com que a linhagem do antigo príncipe seja extinta; a
outra, aquela de não alterar nem as suas leis nem os impostos;
por
tal forma, dentro de mui curto lapso de tempo, o território
conquistado passa a constituir um corpo todo com o principado antigo.
Mas, quando se conquistam territórios numa província com
língua, costumes e leis diferentes, aqui surgem as dificuldades
e é necessário haver muito boa sorte e habilidade para
mantê-los. E um dos maiores e mais eficientes remédios
seria aquele do conquistador ir habitá-los. Isto tornaria mais
segura e mais duradoura a posse adquirida, como ocorreu com o Turco da
Grécia, que a despeito de ter
observado todas as leis locais, não teria conservado esse
território se para aí não tivesse se transferido.
Isso porque, estando no local, pode-se ver nascerem as desordens e,
rapidamente, podem ser elas reprimidas; aí não estando,
delas somente se tem notícia quando já alastradas e
não mais passíveis de solução. Além
disso, a província conquistada não é saqueada
pelos lugar-tenentes; os súditos ficam satisfeitos porque o
recurso ao príncipe se torna mais fácil, donde têm
mais razões para amá-lo, querendo ser bons, e para
temê-lo, caso queiram agir por forma diversa. Quem do exterior
desejar assaltar aquele Estado, por ele terá maior respeito;
donde, habitando-o, o príncipe somente com muita dificuldade
poderá vir a perdê-lo.
Outro remédio eficaz é instalar colônias num ou
dois pontos, que sejam como grilhões postos àquele
Estado, eis que é necessário ou fazer tal ou aí
manter muita tropa. Com as colônias não se despende muito
e, sem grande custo, podem ser instaladas e mantidas, sendo que sua
criação prejudica somente àqueles de quem se tomam
os campos e as casas para cedê-los aos novos habitantes, os quais
constituem uma parcela mínima do Estado conquistado. Ainda, os
assim prejudicados, ficando dispersos e pobres, não podem causar
dano algum, enquanto que os não lesados ficam à parte,
amedrontados, devendo aquietar-se ao pensamento de que não
poderão errar para que a eles não ocorra o mesmo que
aconteceu àqueles que foram espoliados. Concluo dizendo que
estas colônias não são onerosas, são mais
fiéis, ofendem menos e os prejudicados não podem causar
mal, tornados pobres e dispersos como já foi dito. Por onde se
depreende que os homens devem ser acarinhados ou eliminados, pois se se
vingam das pequenas ofensas, das graves não podem fazê-lo;
daí decorre que a ofensa que se faz ao homem deve
ser tal que não se possa temer vingança. Mas mantendo, em
lugar
de colônias, forças militares, gasta-se muito mais,
absorvida
toda a arrecadação daquele Estado na guarda aí
destacada;
dessa forma, a conquista transforma-se em perda e ofende muito mais por
que
danifica todo aquele país com as mudanças do alojamento
do
exército, incômodo esse que todos sentem e que transforma
cada
habitante em inimigo: e são inimigos que podem causar dano ao
conquistador,
pois, vencidos, ficam em sua própria casa. Sob qualquer ponto de
vista
essa guarda armada é inútil, ao passo que a
criação
de colônias é útil.
Deve, ainda, quem se encontre à frente de uma província
diferente, como foi dito, tornar-se chefe e defensor dos menos fortes,
tratando
de enfraquecer os poderosos e cuidando que em hipótese alguma
aí penetre um forasteiro tão forte quanto ele. E sempre
surgirá quem seja chamado por aqueles que na província se
sintam descontentes, seja por excessiva ambição, seja por
medo, como viu-se terem os etólios introduzido na Grécia
os romanos que, aliás, em todas as outras províncias que
conquistaram, fizeram-no auxiliados pelos respectivos habitantes. E a
ordem das coisas é que, tão logo um estrangeiro poderoso
penetre numa província, todos aqueles que nela são mais
fracos a ele dêem adesão, movidos pela inveja contra quem
se tornou poderoso sobre eles; tanto assim é que em
relação a estes não se torna necessário
grande trabalho para obter seu apoio, pois logo todos eles,
voluntariamente, formam bloco com o seu Estado conquistado. Apenas deve
haver o cuidado de não permitir adquiram eles muito poder e
muita autoridade, podendo o conquistador, facilmente, com suas
forças e com o apoio dos mesmos, abater aqueles que ainda
estejam fortes, para tornar-se senhor absoluto daquela
província. E quem não encaminhar satisfatoriamente esta
parte, cedo perderá a sua conquista e, enquanto puder
conservá-la, terá infinitos aborrecimentos e dificuldades.
Os romanos, nas províncias de que se assenhorearam, observaram
bem estes pontos: fundaram colônias, conquistaram a amizade dos
menos prestigiosos, sem lhes aumentar o poder, abateram os mais fortes
e não deixaram que os estrangeiros poderosos adquirissem
conceito. Quero tomar como
exemplo apenas a província da Grécia. Os aqueus e os
etólios tornaram-se amigos dos romanos; foi abatido o reino dos
macedônios e
daí foi expulso Antíoco; mas nem os méritos dos
aqueus e dos etólios lhes asseguraram permissão para
conquistar algum Estado, nem a persuasão de Felipe logrou fazer
com que os romanos se
tornassem seus amigos e não o diminuíssem, nem o poder de
Antíoco
conseguiu fazer com que os mesmos o autorizassem a manter seu
domínio
naquela província. Isso tudo ocorreu porque os romanos fizeram
nesses
casos aquilo que todo príncipe inteligente deve fazer:
não
somente vigiar e ter cuidado com as desordens presentes, como
também
com as futuras, evitando-as com toda a cautela porque, previstas a
tempo,
facilmente se lhes pode opor corretivo; mas, esperando que se
avizinhem,
o remédio não chega a tempo, e o mal já
então
se tornou incurável. Ocorre aqui como no caso do tuberculoso,
segundo
os médicos: no princípio é fácil a cura e
difícil
o diagnóstico, mas com o decorrer do tempo, se a enfermidade
não
foi conhecida nem tratada, torna-se fácil o diagnóstico e
difícil
a cura. Assim também ocorre nos assuntos do Estado porque,
conhecendo
com antecedência os males que o atingem (o que não
é
dado senão a um homem prudente), a cura é rápida;
mas
quando, por não se os ter conhecido logo, vêm eles a
crescer
de modo a se tornarem do conhecimento de todos, não mais existe
remédio.
Contudo, os romanos, prevendo as perturbações, sempre as
tolheram e jamais, para fugir à guerra, permitiram que as mesmas
seguissem
seu curso, pois sabiam que a guerra não se evita mas apenas se
adia
em benefício dos outros; por isso mesmo, promoveram a guerra
contra
Felipe e Antíoco na Grécia, para evitar terem de
fazê-la na Itália e, no entanto, podiam ter evitado a luta
naquele momento, se o quisessem. Nem em momento algum lhes agradou
aquilo que todos os dias está nos lábios dos entendidos
de nosso tempo, o desejo de gozar
do benefício da contemporização, mas sim apenas
aquilo
que resultava de sua própria virtude e prudência: na
verdade
o tempo lança à frente todas as coisas e pode transformar
o
bem em mal e o mal em bem.
Mas voltemos à França e examinemos se ela fez alguma das
coisas que expomos, falando eu de Luís e não de Carlos
porque foi daquele que, por ter mantido mais prolongado domínio
na Itália, melhor se viram os progressos: e vereis como ele fez
o contrário que se deve fazer para conservar um Estado numa
província diferente.
O Rei Luís foi conduzido à Itália pela
ambição dos venezianos que, por tal meio, quiseram ganhar
o Estado da Lombardia, Não desejo censurar o partido tomado pelo
rei; porque, querendo começar a pôr um pé na
Itália e não tendo amigos nesta província,
sendo-lhe, ao contrário, fechadas todas as portas em
razão do comportamento do Rei Carlos, foi obrigado a servir-se
daquelas amizades com que podia contar: e ter-lhe-ia resultado bem
escolhido esse partido, se nos outros manejos não tivesse
cometido erro algum. Conquistada, pois, a Lombardia, o rei readquiriu
prontamente aquela reputação que Carlos perdera:
Gênova cedeu; os florentinos tornaram-se seus amigos; o
marquês de Mantua, o duque de Ferrara, Bentivoglio, a senhora de
Forli, o senhor de Faenza, de Pesaro, de Rimini, de Camerino, de
Piombino, os Luqueses, os Pisanos e os Sieneses, todos foram ao seu
encontro para tornarem-se seus amigos. Os venezianos puderam considerar
então a temeridade da resolução que haviam
adotado, pois que, para conquistar dois tratos de terra na Lombardia,
fizeram o rei tornar-se senhor de dois terços da Itália.
Considere-se agora com quanta facilidade podia o rei manter a sua
reputação na Itália se, observadas as normas
já referidas, tivesse conservado seguros e defendidos todos
aqueles seus amigos que, por serem em grande número, fracos e
medrosos uns em relação à Igreja os outros
face aos venezianos, precisavam sempre estar com ele; por meio deles
poderia,
facilmente, ter-se assegurado contra os que ainda se conservavam fortes.
Mas ele, apenas chegado a Milão, fez o contrário, dando
auxilio ao papa Alexandre para que ocupasse a Romanha. Nem percebeu que
com essa deliberação enfraquecia a si próprio,
afastando
os amigos e aqueles que se lhe tinham lançado aos braços,
enquanto
engrandecia a Igreja acrescentando ao poder espiritual, que lhe
dá
tanta autoridade, tamanha força temporal. Cometido um primeiro
erro,
foi compelido a seguir praticando outros até que, para pôr
fim
à ambição de Alexandre e evitar que este se
tornasse
senhor da Toscana, teve de vir pessoalmente à Itália.
Não
lhe bastou ter tornado grande a Igreja e perder os amigos; por querer o
reino
de Nápoles, dividiu-o com o rei da Espanha; sendo primeiro o
árbitro
da Itália, aí colocou um companheiro para que os
ambiciosos
daquela província e os descontentes com ele mesmo tivessem onde
recorrer
e, em vez de deixar naquele reino um soberano a ele sujeito, tirou-o
para,
em seu lugar, colocar um outro que pudesse expulsá-lo dali.
É coisa muito natural e comum o desejo de conquistar e, sempre,
quando os homens podem fazê-lo, serão louvados ou, pelo
menos, não serão censurados; mas quando não
têm possibilidade e querem fazê-lo de qualquer maneira,
aqui está o erro e, consequentemente, a censura. Se a
França, pois, podia assaltar Nápoles com suas
forças, devia fazê-lo; se não podia, não
devia dividir esse reino. E se a divisão que fez com os
venezianas sobre a Lombardia mereceu desculpa por ter com ela firmado
pé na Itália, aquela merece censura em razão de
não ser justificada por essa necessidade.
Tinha, pois, Luís, cometido estes cinco erros: eliminou os menos
fortes; aumentou na Itália o prestígio de um poderoso;
aí colocou um estrangeiro poderosíssimo; não veio
habitar no
país; não instalou colônias.
Estes erros, contudo, poderiam não ter causado dano enquanto
vivo ele fosse, se não houvesse sido cometido o sexto erro,
tomar os territórios aos venezianos. Na verdade, se não
tivesse tornado grande a Igreja nem introduzido a Espanha na
Itália, seria bem razoável e necessário
enfraquecê-los; mas, tomados que foram aqueles partidos, nunca
deveriam consentir na ruína dos mesmos, pois, sendo poderosos,
teriam sempre mantido aquelas à distância da Lombardia, e
isso porque os
venezianos jamais iriam consentir em qualquer manobra contra esse
Estado,
a menos que eles se tornassem os senhores, da mesma forma que os outros
não iriam querer tomá-lo à França para
dá-lo
aos venezianos, ao mesmo tempo que lhes faltava coragem para entrar em
luta
com estes e com a França. E se alguém dissesse: o Rei
Luís
cedeu a Romanha a Alexandre e o Reino à Espanha para fugir a uma
guerra - respondo com as razões já anteriormente expostas
de que - nunca se deve deixar prosseguir uma crise para escapar a uma
guerra,
mesmo porque dela não se foge mas apenas se adia para
desvantagem
própria. E se alguns outros alegassem a palavra que o rei havia
dado
ao Papa, qual a de realizar para ele aquela conquista em troca da
dissolução
de seu casamento e do chapéu cardinalício para o
arcebispo
de Ruão - respondo com o que mais adiante se dirá acerca
da
palavra dos príncipes e de como se a deve respeitar.
Perdeu, pois, o Rei Luís a Lombardia por não ter
respeitado nenhum dos princípios observados por outros que
dominaram províncias e quiseram conservá-las. Não
há aqui milagre algum, mas é sim muito comum e
razoável. E deste assunto falei em Nantes
ao arcebispo de Ruão, quando Valentino, assim popularmente
chamado
César Bórgia, filho do Papa Alexandre, ocupava a Romanha:
porque,
dizendo-me o cardeal de Ruão que os italianos não
entendiam de guerra, retruquei-lhe que os franceses não
entendiam do Estado, pois que, se de tal compreendessem, não
teriam deixado que a Igreja alcançasse tanta grandeza. E por
experiência viu-se que a grandeza da Igreja e da Espanha na
Itália foi causada pela França, e a ruína desta
foi acarretada por aquelas.
Disso se extrai uma regra geral que nunca ou raramente falha: quem
é causa do poderio de alguém arruina-se, por que esse
poder resulta ou da astúcia ou da força e ambas
são suspeitas para aquele que se tornou poderoso.
CAPÍTULO IV
POR QUE O REINO DE DARIO, OCUPADO POR ALEXANDRE, NÃO SE REBELOU
CONTRA SEUS SUCESSORES APÓS A MORTE DESTE
(CUR DARII REGNUM QUOD ALEXANDER OCCUPAVERAT A SUCCESSORIBUS SUIS POST
ALEXANDRI MORTEM NON DEFECIT)
Consideradas as dificuldades que devem ser enfrentadas para a
conservação de um Estado recém-conquistado,
alguém poderia ficar pasmo ante o fato de que, tendo se tornado
senhor da Ásia em poucos anos, não apenas havia terminado
sua ocupação Alexandre Magno veio a morrer e, a despeito
de parecer razoável que todo aquele Estado devesse rebelar-se,
seus sucessores o conservaram e para tanto não encontraram outra
dificuldade senão aquela que, por ambição pessoal,
nasceu entre eles mesmos. - Argumento: os principados de que se
conserva
memória, têm sido governados de duas formas diversas: ou
por
um príncipe, sendo todos os demais servos que, como ministros
por
graça e concessão sua, ajudam a governar o Estado, ou por
um
príncipe e por barões, os quais, não por
graça do senhor mas por antigüidade de sangue, têm
aquele grau de ministros. Estes barões têm Estados e
súditos próprios que os reconhecem por senhores e a eles
dedicam natural afeição. Os Estados que são
governados por um príncipe e servos, têm aquele com maior
autoridade, porque em toda a sua província não existe
alguém reconhecido como chefe senão ele, e se os
súditos obedecem a algum outro, fazem-no em razão de sua
posição de ministro e oficial, não lhe dedicando o
menor amor.
Os exemplos dessas duas espécies de governo são, nos
nossos tempos, o Turco e o rei de França. Toda a monarquia do
Turco é dirigida por um senhor: os outros são seus
servos; dividindo o seu reino em sandjaks, para aí manda
diversos administradores e os muda e varia de acordo com sua
própria vontade. Mas o rei de França está em meio
a uma multidão de antigos senhores que, nessa qualidade,
são reconhecidos pelos seus súditos e por eles amados:
têm as suas preeminências e não pode o rei
privá-los das mesmas sem perigo para si próprio. Quem
tiver em mira, pois, um e outro desses governos, encontrará
dificuldades para conquistar o Estado Turco, mas, vencido que seja
este, encontrará grande facilidade para conservá-lo, Ao
contrário, encontrar-se-á em todos os sentidos maior
facilidade para ocupar o Estado de França, mas grande
dificuldade para mantê-lo.
As razões da dificuldade em ocupar o reino do Turco decorrem de
não poder o atacante ser chamado por príncipes daquele
reino, nem esperar, com a rebelião dos que rodeiam o soberano,
poder ter facilitada a sua empresa: é o que resulta das
razões referidas. Porque, sendo todos escravos e obrigados,
são mais dificilmente corruptíveis e, quando fossem
subornados, pouco de útil poder-se-ia esperar, visto não
serem eles capazes de arrastar o povo atrás de si, pelos motivos
já mencionados. Logo, se alguém assaltar o Estado Turco,
deve pensar que irá encontrá-lo todo unido, convindo
contar mais com suas próprias forças que com as desordens
dos outros. Mas, vencido que seja e uma vez desbaratado em batalha
campal de modo que não possa refazer os exércitos,
não se deve recear
outra coisa senão a dinastia do príncipe; uma vez extinta
esta, ninguém mais resta que deva ser temido, já que os
demais
não gozam de prestígio junto ao povo; e como o vencedor
deste
nada podia esperar antes da vitória, depois dela não deve
receá-lo.
O contrário ocorre nos reinos como o de França, por que
com facilidade podes invadi-lo em obtendo o apoio de algum barão
do reino, pois que sempre se encontram descontentes e os que desejam
fazer
inovações. Estes, pelas razões referidas, podem
abrir
o acesso àquele Estado e facilitar a vitória. Esta,
depois,
se desejares manter-te, arrasta atrás de si infinitas
dificuldades,
seja com aqueles que te ajudaram, seja com os que oprimiste. Não
é
bastante extinguir a estirpe do príncipe, pois permanecem
aqueles
senhores que se tornam chefes das novas revoluções e,
não
podendo nem contentá-los nem exterminá-los, perde aquele
Estado
tão logo surja a oportunidade.
Ora, se for considerado de que natureza era o governo de Dario, se o
encontrará semelhante ao reino do Turco. Para Alexandre foi
necessário primeiro encurralá-lo e desbaratá-lo em
batalha campal sendo que, depois da vitória, estando morto
Dario, aquele Estado tornou-se seguro para Alexandre pelas
razões acima expostas. Seus sucessores, se tivessem sido unidos,
poderiam tê-lo gozado tranqüilamente, pois ali não
surgiram outros tumultos que não os por eles próprios
provocados. Mas quanto aos Estados organizados como o da França,
é impossível possuí-los com tanta
tranqüilidade. Dessa circunstância é que nasceram as
freqüentes rebeliões da Espanha, da França e da
Grécia contra os romanos; em decorrência do
grande número de principados que havia naqueles Estados e por
todo o tempo em que perdurou a sua memória, os romanos estiveram
inseguros na posse daqueles domínios. Mas extinta a
lembrança dos principados, com o poder e a constância de
sua autoridade, os romanos tornaram-se dominadores seguros. Puderam
eles, também, combatendo mais tarde em lutas internas, arrastar
cada facção, para o seu lado, parte daquelas
províncias, segundo a autoridade que havia adquirido junto a
elas; e essas províncias, por não mais existir o sangue
de seus antigos senhores, não reconheciam senão a
soberania dos romanos. Consideradas, pois, todas estas coisas,
ninguém se maravilhará da facilidade que Alexandre
encontrou para conservar o Estado da Ásia, e das dificuldades
que foram arrostadas pelos outros para manterem o conquistado, como
Pirro e muitos outros. Isso não resultou da muita ou da pouca
virtude do vencedor, mas sim da diversidade de forma do objeto da
conquista.
CAPÍTULO V
DE QUE MODO SE DEVAM GOVERNAR AS CIDADES OU PRINCIPADOS QUE, ANTES DE
SEREM OCUPADOS, VIVIAM COM AS SUAS PRÓPRIAS LEIS
(QUOMODO ADMINISTRANDAE SUNT CIVITATES VEL PRINCIPATUS, QUI ANTEQUAM
OCCUPARENTUR, SUIS LEGIBUS VIVEBANT)
Quando aqueles Estados que se conquistam, como foi dito, estão
habituados a viver com suas próprias leis e em liberdade,
existem
três modos de conservá-los: o primeiro,
arruiná-los;
o outro, ir habitá-los pessoalmente; o terceiro,
deixá-los
viver com suas leis, arrecadando um tributo e criando em seu interior
um
governo de poucos, que se conservam amigos, porque, sendo esse governo
criado
por aquele príncipe, sabe que não pode permanecer sem sua
amizade
e seu poder, e há que fazer tudo por conservá-los.
Querendo
preservar uma cidade habituada a viver livre, mais facilmente que por
qualquer
outro modo se a conserva por intermédio de seus cidadãos.
Como exemplos, existem os espartanos e os romanos. Os espartanos
conservaram Atenas e Tebas, nelas criando um governo de poucos;
todavia, perderam-nas. Os romanos, para manterem Cápua, Cartago
e Numância, destruíram-nas e não as perderam;
quiseram conservar a Grécia quase como o fizeram os espartanos,
tornando-a livre e deixando-lhe suas próprias leis e não
o conseguiram: em razão disso, para conservá-la, foram
obrigados a destruir muitas cidades daquela província.
É que, em verdade, não existe modo seguro para conservar
tais conquistas, senão a destruição. E quem se
torne senhor de uma cidade acostumada a viver livre e não a
destrua, espere ser destruído por ela, porque a mesma sempre
encontra, para apoio de sua rebelião, o nome da liberdade e o de
suas antigas instituições, jamais esquecidas seja pelo
decurso do tempo, seja por benefícios recebidos. Por quanto se
faça e se proveja, se não se dissolvem ou desagregam os
habitantes, eles não esquecem aquele nome nem aquelas
instituições, e logo, a cada incidente, a eles recorrem
como fez Pisa cem anos após estar submetida aos florentinos.
Mas quando as cidades ou as províncias estão acostumadas
a viver sob um príncipe, extinta a dinastia, sendo de um lado
afeitas a obedecer e de outro não tendo o príncipe
antigo, dificilmente chegam a acordo para escolha de um outro
príncipe, não sabem, enfim, viver em liberdade: dessa
forma, são mais lerdas para tomar das armas e, com maior
facilidade, pode um príncipe vencê-las e delas
apoderar-se. Contudo, nas repúblicas há mais vida, mais
ódio, mais desejo de vingança; não deixam nem
podem deixar esmaecer a lembrança da antiga liberdade: assim, o
caminho mais
seguro é destruí-las ou habitá-las pessoalmente.
CAPÍTULO
VI
DOS PRINCIPADOS NOVOS QUE SE CONQUISTAM COM AS ARMAS PRÓPRIAS E
VIRTUOSAMENTE
(DE PRINCIPATIBUS NOVIS QUI ARMIS PROPRIIS ET VIRTUTE ACQUIRUNTUR)
Não se admire alguém se, na exposição que
irei fazer a respeito dos principados completamente novos de
príncipe e de Estado, apontar exemplos de grandes personagens;
por que, palmilhando os homens, quase sempre, as estradas batidas pelos
outros, procedendo nas suas ações por
imitações, não sendo possível seguir
fielmente as trilhas alheias nem alcançar a virtude do que se
imita, deve um homem prudente seguir sempre pelas sendas percorridas
pelos que se tornaram grandes e imitar aqueles que foram excelentes,
isto para que, não sendo possível chegar à virtude
destes, pelo menos daí venha a auferir algum proveito; deve
fazer como os arqueiros hábeis que, considerando muito distante
o ponto que desejam atingir e sabendo até onde vai a capacidade
de seu arco, fazem mira bem mais alto que o local visado, não
para alcançar com sua flecha tanta altura, mas para poder com o
auxílio de tão elevada mira atingir o seu alvo.
Digo, pois, que no principado completamente novo, onde exista um novo
príncipe, encontra-se menor ou maior dificuldade para
mantê-lo,
segundo seja mais ou menos virtuoso quem o conquiste. E porque o
elevar-se
de particular a príncipe pressupõe ou virtude ou boa
sorte,
parece que uma ou outra dessas duas razões mitigue em parte
muitas
dificuldades; não obstante, tem-se observado, aquele que menos
se
apoiou na sorte reteve o poder mais seguramente. Gera ainda facilidade
o
fato de, por não possuir outros Estados, ser o príncipe
obrigado
a vir habitá-lo pessoalmente.
Para reportar-me àqueles que pela sua própria virtude e
não pela sorte se tornarem príncipes, digo que os maiores
são Moisés, Ciro, Rômulo, Teseu e outros tais. Se
bem
que de Moisés não se deva cogitar por ter sido ele mero
executor
daquilo que lhe era ordenado por Deus, contudo deve ser admirado
somente
por aquela graça que o tornava digno de conversar com o Senhor.
Mas
consideremos Ciro e os outros que conquistaram ou fundaram reinos:
achareis
a todos admiráveis. E se forem consideradas suas
ações
e ordens particulares, estas parecerão não discrepantes
daquelas
de Moisés que teve tão grande preceptor. E, examinando as
ações e a vida dos mesmos, não se vê que
eles
tivessem algo de sorte senão a ocasião, que lhes forneceu
meios para poder adaptar as coisas da forma que melhor lhes aprouve; e,
sem aquela oportunidade, o seu valor pessoal ter-se-ia apagado e sem
essa
virtude a ocasião teria surgido em vão.
Era necessário, pois, a Moisés, encontrar o povo de
Israel no Egito, escravizado e oprimido pelos egípcios, a fim de
que aquele, para libertar-se da escravidão, se dispusesse a
segui-lo. Convinha que Rômulo não pudesse ser mantido em
Alba, fosse exposto ao nascer, para que se tornasse rei de Roma e
fundador daquela pátria. Era preciso que Ciro encontrasse os
persas descontentes do império dos medas, e estes estivessem
amolecidos e efeminados pela prolongada paz. Não poderia Teseu
demonstrar sua virtude se não encontrasse os atenienses
dispersos. Essas oportunidades por tanto, fizeram esses homens felizes,
e sua excelente capacidade fez com que aquela ocasião fosse
conhecida de cada um: em conseqüência, sua pátria foi
nobilitada e tornou-se felicíssima.
Os que, por suas virtudes, semelhantes às que aqueles tiveram,
tornam-se príncipes, conquistam o principado com dificuldade,
mas
com facilidade o conservam; e os obstáculos que se lhes
apresentam
no conquistar o principado, em parte nascem das novas
disposições
e sistemas de governo que são forçados a introduzir para
fundar
o seu Estado e estabelecer a sua segurança. Deve-se considerar
não haver coisa mais difícil para cuidar, nem mais
duvidosa a conseguir, nem mais perigosa de manejar, que tornar-se chefe
e introduzir novas ordens. Isso porque o introdutor tem por inimigos
todos aqueles que obtinham vantagens com as velhas
instituições e encontra fracos defensores naqueles que
das novas ordens se beneficiam. Esta fraqueza nasce, parte por medo dos
adversários que ainda têm as leis conformes a seus
interesses, parte pela incredulidade dos homens: estes, em verdade,
não crêem nas inovações se não as
vêem resultar de uma firme experiência. Donde decorre que a
qualquer momento em que os inimigos tenham oportunidade de atacar, o
fazem com calor de sectários, enquanto os outros defendem
fracamente, de forma que ao lado deles se corre sério perigo.
É necessário, pois, querendo bem expor esta parte,
examinar se esses inovadores se baseiam sobre forças suas
próprias ou se dependem de outros, isto é, se para levar
avante sua obra é preciso que roguem, ou se em realidade podem
forçar. No primeiro caso, sempre acabam mal e não
realizam coisa alguma; mas, quando dependem de si mesmos e podem
forçar, então é que raras vezes perigam.
Daí resulta que todos os profetas armados venceram e os
desarmados fracassaram. Porque, além dos fatos apontados, a
natureza
dos povos é vária, sendo fácil persuadi-los de
urna
coisa, mas difícil firmá-los nessa persuasão.
Convém,
assim, estar preparado para que, quando não acreditarem mais, se
possa fazê-los crer pela força.
Moisés, Ciro, Teseu e Rômulo não teriam conseguido
fazer observar por longo tempo as suas constituições se
tivessem estado desarmados; como ocorreu nos nossos tempos a Frei
Girolamo Savonarola que fracassou nas suas reformas quando a
multidão começou a nele não mais acreditar, e ele
não dispunha de meios para manter firmes aqueles que haviam
crido, nem para fazer com que os descrentes passassem a crer. Por isso,
têm grandes dificuldades no conduzir-se e todos os perigos
estão no seu caminho, convindo que os superem com o valor
pessoal; mas superado que os tenham, quando começam a ser
venerados, extintos aqueles que tinham inveja de sua
condição, ficam poderosos, seguros, honrados, felizes.
A tão altos exemplos, quero acrescentar um menor, mas que bem
terá alguma relação com aqueles e que julgo
suficiente para todos os outros semelhantes: é Hierão de
Siracusa. Este, de particular, tornou-se príncipe de Siracusa;
também ele, da sorte somente conheceu a ocasião porque,
sendo os siracusanos oprimidos, o elegeram para seu capitão,
donde mereceu ser feito príncipe. E foi de tanta virtude, mesmo
na vida privada, que quem escreveu a seu respeito, disse:
quod nihil illi deerat ad regnandum praeter regnum.
Extinguiu a velha milícia, organizou a nova, abandonou as
antigas amizades, conquistou novas; e, como teve amizades e soldados
seus, pode, sobre tais fundamentos, erigir as obras que desejou: tanto
que custou-lhe muita fadiga para conquistar e pouca para manter.