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LIVROS
O PRÍNCIPE
- MAQUIAVEL
DIVIDIDO
EM 4 PARTES:
PARTE 2
CAPÍTULO
VII
DOS PRINCIPADOS NOVOS QUE SE CONQUISTAM COM AS ARMAS E FORTUNA DOS
OUTROS
(DE PRINCIPATIBUS NOVIS QUI ALIENIS ARMIS ET FORTUNA ACQUIRUNTUR)
Aqueles que somente por fortuna se tornam de privados em
príncipes, com pouca fadiga assim se transformam, mas só
com muito esforço assim se mantêm: não encontram
nenhuma dificuldade pelo caminho porque atingem o posto a vôo;
mas toda sorte de dificuldades nasce
depois que aí estão. São aqueles aos quais
é
concedido um Estado, seja por dinheiro, seja por graça do
concedente:
como ocorreu a muitos na Grécia, nas cidades da Jônia e do
Helesponto,
onde foram feitos príncipes por Dario, a fim de que as
conservassem
para sua segurança e glória; como eram feitos, ainda,
aqueles
imperadores que, por corrupção dos soldados, de privados
alcançavam o domínio do Império.
Estes estão simplesmente submetidos à vontade e à
fortuna de quem lhes concedeu o Estado, que são duas coisas
grandemente
volúveis e instáveis: e não sabem e não
podem
manter a sua posição. Não sabem, porque, se
não
são homens de grande engenho e virtude, não é
razoável
que, tendo vivido sempre em ambiente privado, saibam comandar;
não
podem, porque não têm forças que lhes possam ser
amigas
e fiéis. Ainda, os Estados que surgem rapidamente, como todas as
demais coisas da natureza que nascem e crescem depressa, não
podem
ter raízes e estruturação perfeitas, de forma que
a
primeira adversidade os extingue; salvo se aqueles que, como foi dito,
assim
repentinamente se tornaram príncipes, forem de tanta virtude que
saibam desde logo preparar-se para conservar aquilo que a fortuna lhes
pôs
no regaço, formando posteriormente as bases que os outros
estabeleceram
antes de se tornar príncipes.
Destes dois citados modos de vir a ser príncipe, por virtude ou
por fortuna, quero apontar dois exemplos ocorridos nos dias de nossa
memória: estes são Francisco Sforza e César
Bórgia. Francisco, pelos meios devidos e com grande virtude, de
privado tornou-se duque de
Milão; e aquilo que com mil esforços tinha conquistado,
com
pouco trabalho manteve. Por outro lado, César Bórgia,
pelo
povo chamado Duque Valentino, adquiriu o Estado com a fortuna do pai e,
juntamente com aquela, o perdeu; isso não obstante fossem por
ele
utilizados todos os meios e feito tudo aquilo que devia ser efetivado
por
um homem prudente e virtuoso, para lançar raízes naqueles
Estados que as armas e a fortuna de outrem lhe tinham concedido.
Porque,
como se disse acima, quem não lança os alicerces
primeiro,
com uma grande virtude poderá estabelecê-los depois, ainda
que
se façam com aborrecimentos para o construtor e perigo para o
edifício.
Se, pois, se considerarem todos os progressos do duque, ver-se-á
ter
ele estabelecido grandes alicerces para o futuro poderio, os quais
não
julgo supérfluo descrever, pois não saberia que melhores
preceitos
do que o exemplo de suas ações poderia indicar a um
príncipe
novo; e se as suas disposições não lhe
aproveitaram,
não foi por culpa sua, mas sim em resultado de uma
extraordinária
e extrema má sorte.
Tinha Alexandre VI, ao querer tornar grande o duque seu filho, muitas
dificuldades presentes e futuras. Primeiro, não via meio de
poder fazê-lo senhor de algum Estado que não fosse Estado
da Igreja; voltando-se para tomar um destes, sabia que o duque de
Milão e os venezianos
não lho permitiriam, porque Faenza e Rimini estavam já
sob
a proteção dos venezianos. Via além disto as armas
da Itália, e em especial aquelas de que poderia servir-se,
encontrarem-se
nas mãos daqueles que deviam temer a grandeza do Papa;
não
podia fiar-se, assim, pertencendo todas elas aos Orsíni e
Colonna
e seus partidários. Era, pois, necessário que se
perturbasse
aquela organização dos Estados italianos e fossem
desarticulados
os pertencentes àqueles, para poder assenhorear-se seguramente
de
parte dos mesmos. Isso foi-lhe fácil, eis que encontrou os
venezianos
que, levados por outras causas, tinham se posto a fazer com que os
franceses
retornassem à Itália, ao que não somente
não
se opôs, como também tornou mais fácil com a
dissolução
do primeiro matrimônio do Rei Luís. Passou, portanto, o
rei
à Itália com a ajuda dos venezianos e consentimento de
Alexandre:
nem bem era chegado a Milão, já o Papa dele obteve tropas
para
a conquista da Romanha, a qual tornou-se possível em
razão
da reputação do rei. Tendo ocupado a Romanha e batido os
partidários
dos Colonna, o duque, querendo manter a conquista e avançar mais
à
frente, tinha duas coisas que tal lhe impediam: uma, as suas tropas que
não
lhe pareciam fiéis, a outra, a vontade da França; isto
é,
temia o duque que lhe falhassem as tropas dos Orsíni, das quais
se
valera, não só impedindo-o de conquistar, como
também
tomando-lhe o conquistado, bem como receava que o rei não
deixasse
de fazer-lhe o mesmo. Dos Orsíni teve prova quando, depois da
tomada
de Faenza, assaltando Bolonha, os viu irem friamente a esse assalto;
acerca
do rei, conheceu sua disposição quando, tomado o ducado
de
Urbino, atacou a Toscana; o rei fê-lo desistir dessa campanha. Em
conseqüência
de tal, o duque deliberou não mais depender das armas e fortuna
dos
outros. Inicialmente, enfraqueceu as facções dos
Orsíni
e dos Colonna em Roma; para tanto, atraiu para junto de si todos os
adeptos
dos mesmos, que fossem gentis-homens, fazendo-os seus gentis-homens,
dando-lhes
grandes estipêndios e os honrando. Segundo suas qualidades, com
comandos
e governos; de forma que, em poucos meses, a afeição que
mantinham
pelas facções foi extinta e voltou-se toda ela para o
duque.
Depois, esperou a ocasião de eliminar os Orsíni,
dispersos
que já estavam os da casa Colonna, ocasião que lhe surgiu
bem
e que ele melhor aproveitou; porque, tendo percebido os Orsíni,
tarde
porém, que a grandeza do duque e da Igreja era a sua
ruína,
organizaram uma conferência em Magione, no Perugino. Dessa
reunião
nasceram a rebelião de Urbino, os tumultos da Romanha e
infinitos
perigos para o duque, o qual a todos superou com o auxílio dos
franceses.
E, readquirida a reputação, não confiando na
França nem nas outras tropas estrangeiras, para não as
ter fortalecidas,
socorreu-se da astúcia. E tão bem soube dissimular seus
sentimentos,
que os Orsíni, por intermédio do Senhor Paulo,
reconciliaram-se com ele: para assegurar-se melhor deste
intermediário, o duque não deixou de dispensar-lhe
cortesia de toda natureza, dando-lhe dinheiro, roupas e cavalos; tanto
assim que a simplicidade dos Orsíni levou-os a Sinigalia,
às mãos do duque. Eliminados, pois, estes chefes,
transformados os partidários dos mesmos em amigos seus, tinha o
duque lançado muito boas bases para o seu poderio, possuindo
toda a Romanha com o ducado de Urbino, parecendo-lhe, ainda, ter
tornado amiga a Romanha e ganho para si todas aquelas
populações que começavam a experimentar o seu
bem-estar.
E, porque esta parte é digna de ser conhecida e imitada pelos
outros, não desejo omiti-la. Tomada que foi a Romanha,
encontrando-a dirigida por senhores impotentes, os quais mais depressa
haviam espoliado os seus
súditos do que os tinham governado, dando-lhes motivo de
desunião
ao invés de união, tanto que aquela província era
toda
ela cheia de latrocínios, de brigas e de tantas outras causas de
insolência, o duque julgou necessário, para
torná-la pacífica e
obediente ao poder real, dar-lhe bom governo. Por isso, aí
colocou
Ramiro de Orco, homem cruel e solícito, ao qual deu os mais
amplos
poderes. Este, em pouco tempo, tornou-a pacífica e unida, com
mui
grande reputação. Depois, entendeu o duque não ser
necessária
tão excessiva autoridade, e isso porque não duvidava
pudesse
vir a mesma a tornar-se odiosa; instalou um juízo civil no
centro
da província, com um presidente excelentíssimo, onde cada
cidade
tinha o seu advogado. E porque sabia que os rigorismos passados tinham
dado
origem a algum ódio, para limpar os espíritos daquelas
populações
e conquistá-los completamente, quis mostrar que, se alguma
crueldade
havia ocorrido, não nascera dele, mas sim da triste e cruel
natureza
do ministro. E, servindo-se da oportunidade, fez colocarem-no uma
manhã,
na praça pública de Casena, cortado em dois
pedaços,
com um pau e uma faca ensangüentada ao lado. A ferocidade desse
espetáculo
fez com que a população ficasse ao mesmo tempo satisfeita
e
pasmada.
Mas voltemos ao ponto de partida. Digo que, encontrando-se o duque
bastante forte e relativamente garantido contra os perigos presentes,
por ter-se
armado a seu modo e ter em boa parte dissolvido aquelas tropas que,
próximas, poderiam molestá-lo, restava-lhe, querendo
prosseguir com as conquistas, o temor ao rei de França, porque
sabia como tal proceder não seria suportado pelo mesmo que,
tarde, havia se apercebido de seu erro.
Começou, por isso, a procurar novas amizades e a tergiversar com
a França na incursão que os franceses fizeram no reino de
Nápoles, contra os espanhóis que assediavam Gaeta. A sua
intenção
era garantir-se contra eles, o que ter-lhe-ia surtido pronto efeito se
Alexandre tivesse continuado vivo.
Esta foi a sua política quanto às coisas presentes.
Mas, quanto às futuras, ele tinha a temer, inicialmente, que um
novo sucessor ao governo da Igreja não fosse seu amigo e
procurasse
tomar-lhe aquilo que Alexandre lhe dera; e pensou proceder por quatro
modos:
primeiro, extinguir as famílias daqueles senhores que ele tinha
espoliado,
para tolher ao Papa aquela oportunidade; segundo, conquistar todos os
gentis-homens de Roma, como foi dito, para poder com eles manter o Papa
tolhido; terceiro, tornar o Colégio mais seu o quanto
possível; quarto, conquistar tanto poder antes que o pai
morresse, que pudesse por si mesmo resistir
a um primeiro impacto. Destas quatro coisas, à morte de
Alexandre
ele havia realizado três, estando a quarta quase terminada:
porque
dos senhores despojados ele matou quantos pode alcançar e
pouquíssimos
se salvaram; tinha conseguido o apoio dos gentis-homens romanos e no
Colégio possuía mui grande parte; e, quanto à nova
conquista, resolvera tornar-se senhor da Toscana, possuía
já Perúgia e Piombino e havia tomado a
proteção de Pisa.
Como não mais precisasse ter respeito à França
(que o desmerecera por estarem já os franceses despojados do
Reino pelos espanhóis, de forma que cada um deles necessitava
comprar a sua amizade), saltaria sobre Pisa. Depois disso, Lucca e
Ciena cederiam prontamente, parte por inveja dos florentinos, parte por
medo; os florentinos não teriam remédio: o que, se
tivesse acontecido (deveria ocorrer no mesmo ano em que Alexandre
morreu), conferir-lhe-ia tantas forças e tanta
reputação que ele ter-se-ia mantido por si mesmo,
não mais dependendo da fortuna e das forças dos outros,
mas sim de sua própria potência e virtude. Mas Alexandre
morreu cinco anos depois que ele começara a desembainhar a
espada. Deixou-o apenas com o Estado da Romanha consolidado, com todos
os outros no ar, em meio a dois fortíssimos exércitos
inimigos e doente de morte.
Havia no duque tanta bravura indômita e tanta virtude, conhecia
tão bem como se conquistam ou se perdem os homens e talmente
sólidos
eram os alicerces que assim em tão pouco tempo havia
lançado,
que, se não tivesse tido aqueles exércitos sobre si, ou
se
estivesse são, teria vencido qualquer dificuldade. E que os seus
alicerces fossem bons, viu-se: por que a Romanha esperou-o mais de um
mês;
em Roma, ainda que apenas meio vivo, esteve em segurança e, se
bem
os Baglioni, Vitelli e Orsíni viessem a Roma, nada puderam fazer
contra
ele; se não pode fazer papa quem queria, pelo menos evitou que o
fosse
quem ele não queria. Mas, se por ocasião da morte de
Alexandre
ele tivesse estado são, tudo lhe teria sido fácil.
Disse-me
ele, no dia em que foi eleito Júlio que havia cogitado de tudo
aquilo
que podia acontecer morrendo o pai e para tudo encontrara
remédio,
mas jamais havia pensado, além da morte de seu pai, que ele
mesmo,
também, pudesse estar para morrer.
Relatadas, assim, todas as ações do duque, eu não
saberia repreendê-lo; antes penso que, como o fiz, deva ser
proposto
à imitação de todos aqueles que por fortuna e com
as
armas dos outros subiram ao poder. Porque, tendo grande ânimo e
alta
intenção, ele não podia portar-se de outra for ma;
aos seus desígnios, somente se opuseram a brevidade da vida de
Alexandre
e a sua enfermidade, Quem, pois, julgar necessário, no seu
principado
novo, assegurar-se contra os inimigos, adquirir amigos, vencer ou pela
força
ou pela fraude, fazer-se amar e temer pelo povo, seguir e reverenciar
pelos
soldados, eliminar aqueles que podem ou têm razões para
ofender,
ordenar por novos modos as instituições antigas, ser
severo
e grato, magnânimo e liberal, extinguir a milícia infiel,
criar
uma nova, manter a amizade dos reis e dos príncipes, de modo que
beneficiem
de boa vontade ou ofendam com temor, não poderá encontrar
exemplos
mais recentes que as ações do duque.
Somente se pode acusá-lo na criação de
Júlio pontífice, onde má foi a
eleição; porque, como foi dito, não podendo fazer
um papa de acordo com seu desejo, ele
podia impedir fosse feito quem não quisesse; e não devia
jamais
consentir no papado daqueles cardeais que tivessem sido por ele
ofendidos,
ou que, tornados papas, viessem a temê-lo. Na verdade, os homens
ofendem
ou por medo ou por ódio. Os que ele ofendera eram, entre outros,
San
Piero ad Vincula, Colonna, San Giorgio, Ascânio; todos os outros,
tornados papas, tinham por que temê-lo, exceto o de Ruão e
os espanhóis; estes, por afinidade e por
obrigações, aquele pelo poder e
por ter ao seu lado o reino da França. Conseqüentemente, o
duque, antes de tudo, devia criar para um espanhol e, não
podendo, devia
consentir que fosse eleito o cardeal de Ruão e não o de
San
Piero ad Vincula. E quem acreditar que nas grandes personagens os novos
benefícios façam esquecer as velhas injúrias,
engana-se. Errou, pois,
o duque nessa eleição, tornando-se ele mesmo a causa de
sua
ruína final.
CAPÍTULO VIII
DOS QUE CHEGARAM AO PRINCIPADO POR MEIO DE CRIMES
(DE HIS QUI PER SCELERA AD PRINCIPATUM PERVENERE)
Mas, porque pode-se tornar príncipe ainda por dois modos que
não podem ser atribuídos totalmente à fortuna ou
à virtude, não me parece acertado pô-los de parte,
ainda que de um deles se possa mais amplamente cogitar em falando das
repúblicas. Estes
são, ou quando por qualquer meio criminoso e nefário se
ascende
ao principado, ou quando um cidadão privado torna-se
príncipe
de sua pátria pelo favor de seus concidadãos. E, falando
do
primeiro modo, apontarei dois exemplos, um antigo e outro atual, sem
entrar,
contudo, no mérito desta parte, pois penso seja suficiente, a
quem
de tal necessitar, apenas imitá-los.
Agátocles siciliano, não só de privada mas
também de ínfima e abjeta condição,
tornou-se rei de Siracusa. Filho de um oleiro, teve sempre, no decorrer
de sua juventude, vida celerada; todavia, acompanhou seus atos
delituosos de tanto vigor de ânimo e
de corpo que, tendo ingressado na milícia, em razão de
atos
de maldade, chegou a ser pretor de Siracusa. Uma vez investido nesse
posto,
tendo deliberado tornar-se príncipe e manter pela
violência
e sem favor dos outros aquilo que por acordo de todos lhe tinha sido
concedido, depois de acerca desse seu desejo ter estabelecido acordo
com Amilcar cartaginês, que se encontrava em ação
com os seus exércitos na
Sicilia, reuniu certa manhã o povo e o senado de Siracusa como
se
tivesse de deliberar sobre assuntos pertinentes à
República
e, a um sinal combinado, fez que seus soldados matassem todos os
senadores
e os mais ricos da cidade; mortos estes, ocupou e manteve o principado
daquela
cidade sem qualquer controvérsia civil. E, se bem por duas vezes
os cartagineses tivessem com ele rompido e estabelecido assédio,
não só pode defender a sua cidade como ainda, tendo
deixado
parte de sua gente na defesa contra o cerco, com o restante assaltou a
África
e em breve tempo libertou Siracusa do sítio levando os
cartagineses
a extrema dificuldade: tiveram de com ele estabelecer acordo e
contentar-se
com as possessões da África, deixando a Sicília
para
Agátocles.
Quem considere, pois, as ações e a vida desse
príncipe, não encontrará coisa, ou pouca
achará, que possa atribuir à fortuna: suas
ações resultaram, como acima se disse, não do
favor de alguém mas de sua ascensão na milícia,
obtida com mil aborrecimentos e perigos, que lhe permitiu
alcançar o principado e, depois, mantê-lo com tantas
decisões corajosas e arriscadas. Não se pode, ainda,
chamar virtude o matar os seus
concidadãos, trair os amigos, ser sem fé, sem piedade,
sem
religião; tais modos podem fazer conquistar poder, mas
não
glória. Ademais, se se considerar a virtude de Agátocles
no
entrar e no sair dos perigos e a grandeza de seu ânimo no
suportar
e superar as adversidades, não se achará por que deva ser
ele julgado inferior a qualquer dos mais excelentes capitães;
contudo,
sua exacerbada crueldade e desumanidade, com infinitas perversidades,
não
permitem seja ele celebrado entre os homens mais ilustres. Não
se
pode, assim, atribuir à fortuna ou à virtude aquilo que
sem
uma e outra foi por ele conseguido.
Nos nossos tempos, reinando Alexandre VI, Oliverotto de Fermo, tendo
anos antes ficado órfão de pai, foi criado por um tio
materno de nome Giovanni Fogliani; nos primeiros anos de sua juventude,
foi encaminhado à vida militar sob o comando de Paulo Vitelli, a
fim de que, tomado daquela disciplina, atingisse algum excelente posto
da milícia. Morto Paulo, militou sob Vitellozzo, irmão
daquele, e em muito pouco tempo, por ser engenhoso, de físico e
ânimo fortes, tornou-se o primeiro homem de sua milícia.
Mas, parecendo-lhe coisa servil o estar sob
as ordens de outrem, com a ajuda de alguns cidadãos de Fermo,
aos
quais era mais cara a servidão que a liberdade de sua
pátria,
e com o favor de Vitellozzo, pensou ocupar Fermo. E escreveu a Giovanni
Fogliani dizendo que, por ter estado muitos anos fora de casa, desejava
ir visitá-lo e à sua cidade e conhecer o seu
patrimônio; e, como não tinha trabalhado senão para
conquistar honras, para que seus concidadãos vissem como
não tinha gasto o tempo em vão, queria chegar
com pompa e acompanhado de cem cavalos de amigos e servidores seus;
pedia-lhe, pois, se servisse ordenar fosse ele recebido pelos
cidadãos de Fermo com todas as honras, o que não somente
o dignificaria, mas também a Fogliani, dado haver sido seu
discípulo.
Não deixou Giovanni de despender esforços em favor de seu
sobrinho: tendo feito com que os moradores de Fermo o recebessem com
honrarias, alojou-o em suas casas. Aí, passados alguns dias e
pronto para ordenar secretamente aquilo que era necessário
à sua futura perfídia, Oliverotto promoveu
soleníssimo banquete para o qual convidou Giovanni Fogliani e
todos os principais homens de Fermo. Consumadas que foram as iguarias e
após todos os demais entretenimentos usuais em semelhantes
ocasiões, Oliverotto, com habilidade, abordou certos assuntos
graves, falando da grandeza do Papa Alexandre, de seu filho
César e dos empreendimentos dos mesmos. Tendo Giovanni e os
demais respondido a tais considerações, ele,
repentinamente, ergueu-se dizendo ser aquilo assunto para falar-se
em lugar mais secreto, retirando-se para um cômodo onde Giovanni
e
todos os outros foram ter com ele. Nem ainda tinham se assentado, de
lugares
ocultos saíram soldados que mataram Giovanni e a todos os demais.
Depois desse homicídio, Oliverotto montou a cavalo, correu a
cidade acompanhado de seus homens e assediou em seu palácio o
supremo magistrado; em conseqüência, por medo, foram
obrigados a obedecê-lo
e formar um governo do qual ele se fez príncipe. E, mortos todos
aqueles que, por descontentes, poderiam ofendê-lo, fortaleceu-se
com novas
ordens civis e militares de forma que, no período de um ano em
que
reteve o principado, não somente esteve forte na cidade de
Fermo,
como também se tornou causa de pavor para todas as
populações
vizinhas. Teria sido difícil a sua destruição,
como
difícil foi a de Agátocles, se não tivesse sido
enganado
por César Bórgia quando este, em Sinigalia, como
já
se disse, aprisionou os Orsíni e os Vitelli. Ai, preso
também
ele, foi estrangulado juntamente com Vitellozzo, mestre de suas
virtudes
e suas perfídias, um ano após haver cometido o
parricídio.
Poderia alguém ficar em dúvida sobre a razão por
que Agátocles e algum outro a ele semelhante, após tantas
traições e crueldades, puderam viver longamente, sem
perigo, dentro de sua pátria e, ainda, defender-se dos inimigos
externos sem que os seus concidadãos contra eles tivessem
conspirado, tanto mais notando-se que muitos outros
não conseguiram manter o Estado, mediante a crueldade, nos
tempos
pacíficos e, muito menos, nos duvidosos tempos de guerra. Penso
que
isto resulte das crueldades serem mal ou bem usadas. Bem usadas pode-se
dizer
serem aquelas (se do mal for lícito falar bem) que se fazem
instantaneamente
pela necessidade do firmar-se e, depois, nelas não se insiste
mas
sim se as transforma no máximo possível de utilidade para
os
súditos; mal usadas são aquelas que, mesmo poucas a
princípio,
com o decorrer do tempo aumentam ao invés de se extinguirem.
Aqueles
que observam o primeiro modo de agir, podem remediar sua
situação com apoio de Deus e dos homens, como ocorreu com
Agátocles; aos outros torna-se impossível a continuidade
no poder.
Por isso é de notar-se que, ao ocupar um Estado, deve o
conquistador exercer todas aquelas ofensas que se lhe tornem
necessárias, fazendo-as todas a um tempo só para
não precisar renová-las a
cada dia e poder, assim, dar segurança aos homens e
conquistá-los com benefícios, Quem age diversamente, ou
por timidez ou por mau
conselho, tem sempre necessidade de conservar a faca na mão,
não
podendo nunca confiar em seus súditos, pois que estes nele
também
não podem ter confiança diante das novas e
contínuas
injúrias. Portanto, as ofensas devem ser feitas todas de uma
só
vez, a fim de que, pouco degustadas, ofendam menos, ao passo que os
benefícios
devem ser feitos aos poucos, para que sejam melhor apreciados. Acima de
tudo, um príncipe deve viver com seus súditos de modo que
nenhum acidente, bom ou mau, o faça variar: porque, surgindo
pelos
tempos adversos a necessidade, não estarás em tempo de
fazer
o mal, e o bem que tu fizeres não te será útil eis
que,
julgado forçado, não trará gratidão.
CAPÍTULO IX
DO PRINCIPADO CIVIL
(DE PRINCIPATU CIVILI)
Mas passando a outra parte, quando um cidadão privado,
não por perfídia ou outra intolerável
violência, porém com o favor de seus concidadãos,
torna-se príncipe de sua
pátria, o que se pode chamar principado civil (para tal se
tornar,
não é necessária muita virtude ou muita fortuna,
mas
antes uma astúcia afortunada) digo que se ascende a esse
principado
ou com o favor do povo ou com aquele dos grandes. Porque em toda cidade
se
encontram estas duas tendências diversas e isso resulta do fato
de
que o povo não quer ser mandado nem oprimido pelos poderosos e
estes
desejam governar e oprimir o povo: é destes dois anseios
diversos
que nasce nas cidades um dos três efeitos: ou principado, ou
liberdade,
ou desordem.
O principado é constituído ou pelo povo ou pelos grandes,
conforme uma ou outra destas partes tenha oportunidade: vendo os
grandes não
lhes ser possível resistir ao povo, começam a emprestar
prestígio
a um dentre eles e o fazem príncipe para poderem, sob sua
sombra,
dar expansão ao seu apetite; o povo, também, vendo
não
poder resistir aos poderosos, volta a estima a um cidadão e o
faz
príncipe para estar defendido com a autoridade do mesmo. O que
chega
ao principado com a ajuda dos grandes se mantém com mais
dificuldade
daquele que ascende ao posto com o apoio do povo, pois se encontra
príncipe
com muitos ao redor a lhe parecerem seus iguais e, por isso, não
pode
nem governar nem manobrar como entender.
Mas aquele que chega ao principado com o favor popular, aí se
encontra só e ao seu derredor não tem ninguém ou
são
pouquíssimos que não estejam preparados para obedecer.
Além
disso, sem injúria aos outros, não se pode honestamente
satisfazer
os grandes, mas sim pode-se fazer bem ao povo, eis que o objetivo deste
é mais honesto daquele dos poderosos, querendo estes oprimir
enquanto
aquele apenas quer não ser oprimido. Contra a inimizade do povo
um
príncipe jamais pode estar garantido, por serem muitos; dos
grandes,
porém, pode se assegurar porque são poucos. O pior que
pode
um príncipe esperar do povo hostil é ser por ele
abandonado;
mas dos poderosos inimigos não só deve temer ser
abandonado,
como também deve recear que os mesmos se lhe voltem contra, pois
que, havendo neles mais visão e maior astúcia, contam
sempre
com tempo para salvar-se e procuram adquirir prestígio junto
àquele
que esperam venha a vencer. Ainda, o príncipe tem de viver,
necessariamente,
sempre com o mesmo povo, ao passo que pode bem viver sem aqueles mesmos
poderosos, uma vez que pode fazer e desfazer a cada dia esse seu
poderio,
dando-lhes ou tirando-lhes reputação, a seu alvedrio.
E, para melhor esclarecer esta parte, digo que os grandes devem ser
considerados em dois grupos principais: ou procedem por forma a se
obrigarem totalmente à tua fortuna, ou não. Os que se
obrigam e não são rapaces, devem ser considerados e
amados. Os que não se obrigam devem ser encarados de dois modos:
se fazem isso por pusilanimidade ou por natural defeito de
espírito, deverás servir-te deles, máxime que
são bons conselheiros, porque na prosperidade isso te
honrará e na adversidade não precisarás
temê-los. Mas quando
eles, ardilosamente, não se obrigam por ambição,
é
sinal que pensam mais em si próprios do que em ti: desses deve o
príncipe guardar-se temendo-os como se fossem inimigos
declarados, porque sempre,
na adversidade, ajudarão a arruiná-lo.
Deve, pois, alguém que se torne príncipe mediante o favor
do povo, conservá-lo amigo, o que se lhe torna fácil, uma
vez que não pede ele senão não ser oprimido. Mas
quem se torne príncipe pelo favor dos grandes, contra o povo,
deve antes
de mais nada procurar ganhar este para si, o que se lhe torna
fácil
quando assume a proteção do mesmo. E, por que os homens,
quando
recebem o bem de quem esperavam somente o mal, se obrigam mais ao seu
benfeitor,
torna-se o povo desde logo mais seu amigo do que se tivesse sido por
ele
levado ao principado. O príncipe pode ganhar o povo por muitas
maneiras
que, por variarem de acordo com as circunstâncias, delas
não
se pode estabelecer regra certa, razão pela qual das mesmas
não
cogitaremos.
Concluirei apenas que a um príncipe é necessário
ter o povo como amigo, pois, de outro modo, não terá
possibilidades na adversidade. Nabis, príncipe dos espartanos,
suportou o assédio de toda a Grécia e de um
exército romano coberto de vitórias, contra eles
defendendo sua pátria e seu Estado; bastou-lhe apenas,
sobrevindo o perigo, garantir-se contra poucos, o que não seria
suficiente se tivesse o povo como inimigo. E não surja
alguém para refutar esta minha opinião com aquele
provérbio bastante conhecido
de que, quem se apoia no povo firma-se na lama, porque o mesmo é
verdadeiro somente quando um cidadão privado estabelece bases
sobre o povo e
imagina que o mesmo vá libertá-lo quando oprimido pelos
inimigos
ou pelos magistrados; neste caso seria possível sentir-se
freqüentemente enganado, como os Gracos em Roma e Messer
Giórgio Scali em Florença. Mas sendo um príncipe
quem se apoie no povo, que possa mandar e seja um homem de coragem, que
não esmoreça nas adversidades, não careça
de armas e mantenha com seu valor e suas determinações
alentado o povo todo, jamais se sentirá por ele enganado e
constatará ter estabelecido bons fundamentos.
Amiúde esses principados periclitam quando estão para
passar da ordem civil para um governo absoluto, porque esses
príncipes ou governam por si mesmos ou por intermédio dos
magistrados. Neste último caso a situação dos
mesmos é mais fraca e perigosa,
porque dependem completamente da vontade dos cidadãos prepostos
à
magistratura, os quais, principalmente nos tempos adversos, podem
tomar-lhes
o Estado com grande facilidade, ou contrariando suas ordens ou
não
lhes prestando obediência. E o príncipe não pode,
nas
ocasiões de perigo, assumir em tempo a autoridade absoluta,
porque
os cidadãos e os súditos, acostumados a receber as ordens
dos
magistrados, não estão, naquelas conjunturas, para
obedecer
às suas determinações, havendo sempre, ainda, nos
tempos
duvidosos, carência de pessoas nas quais ele possa confiar. Tal
príncipe
não pode fundar-se naquilo que observa nas épocas de paz,
quando
os cidadãos precisam do Estado, porque então todos
correm,
todos prometem e cada um quer morrer por ele enquanto a morte
está
longe; mas na adversidade, no momento em que o Estado tem necessidade
dos
cidadãos, então poucos são encontrados. E tanto
mais
é perigosa esta experiência, quanto não se a pode
fazer
senão uma vez. Contudo, um príncipe hábil deve
pensar
na maneira pela qual possa fazer com que os seus cidadãos sempre
e
em qualquer circunstância tenham necessidade do Estado e dele
mesmo,
e estes, então, sempre lhe serão fiéis.
CAPÍTULO X
COMO SE DEVEM MEDIR AS FORÇAS DE TODOS OS PRINCIPADOS
(QUOMODO OMNIUM PRINCIPATUUM VIRES PERPENDI DEBEANT)
Ao examinar as qualidades destes Estados, convém fazer uma outra
consideração, isto é, se um príncipe tem
Estado tão grande e forte que possa, precisando, manter-se por
si mesmo, ou
então se tem sempre necessidade da defesa de outrem. Para
esclarecer melhor esta parte, digo julgar como podendo manter-se por si
mesmos aqueles que podem, por abundância de homens e de dinheiro,
organizar um exército à altura do perigo a enfrentar e
fazer face a uma batalha contra quem venha assaltá-lo, assim
como julgo necessitados da defesa de outrem os que não podem
defrontar o inimigo em campo aberto, mas são obrigados a
refugiar-se atrás dos muros da cidade, guarnecendo-os. Quanto ao
primeiro caso já foi falado e, futuramente, diremos o que for
necessário; relativamente ao segundo, não se pode aduzir
algo mais do que exortar tais príncipes a fortificarem e a
proverem sua cidade, não se preocupando com o território
que a contorna. E quem tiver bem fortificada sua cidade e, acerca dos
outros assuntos, se tenha conduzido para com os súditos como
acima foi dito e abaixo se esclarecerá, será sempre
assaltado com grande temor, porque os homens são sempre inimigos
dos empreendimentos onde vejam dificuldades, e não se pode
encontrar facilidade para atacar quem tenha sua cidade forte e
não seja odiado pelo povo.
As cidades da Alemanha gozam de grande liberdade, têm pouco
território e obedecem ao imperador quando assim querem,
não temendo nem a este nem a outro poderoso que lhes esteja ao
derredor porque são de tal forma fortificadas que todos pensam
dever ser enfadonha e difícil
sua expugnação. Na verdade, todas têm fossos e
muros
adequados, possuem artilharia suficiente, conservam sempre nos
armazéns
públicos o necessário para beber, comer e arder por um
ano;
além disso, para manter a plebe alimentada sem prejuízo
do
povo, têm sempre, em comum, por um ano, meios para lhe dar
trabalho
naquelas atividades que sejam o nervo e a vida daquelas cidades e das
indústrias
das quais a plebe se alimente. Têm em grande conceito os
exercícios
militares, a respeito dos quais têm muitas leis de
regulamentação.
Um príncipe, pois, que tenha uma cidade forte e não se
faça odiar, não pode ser atacado e, existindo
alguém que o assaltasse, retirar-se-ia com vergonha, eis que as
coisas do mundo são assim
tão variadas que é quase impossível alguém
pudesse
ficar com os exércitos ociosos por um ano, a assediá-lo.
A
quem replicasse que, tendo as suas propriedades fora da cidade e
vendo-as
a arder, o povo não terá paciência e o longo
assédio
e a piedade de si mesmo o farão esquecer o príncipe, eu
responderia
que um príncipe poderoso e afoito superará sempre aquelas
dificuldades, ora dando aos súditos esperança de que o
mal
não será longo, ora incutindo temor da crueldade do
inimigo,
ora assegurando-se com destreza daqueles que lhe pareçam muito
temerários.
Além disso, é razoável que o inimigo deva queimar
o
país apenas chegado, nos tempos em que o ânimo dos homens
está
ainda ardente e voluntarioso na defesa; por isso, o príncipe
deve
ter pouca dúvida porque, depois de alguns dias, quando os
ânimos
estão mais frios, os danos já foram causados, os males
já
foram sofridos e não há mais remédio;
então,
os súditos vêm se unir ainda mais ao semi príncipe,
parecendo-lhes
que este lhes deva obrigação, uma vez que suas casas
foram
incendiadas e suas propriedades arruinadas para a defesa do mesmo. E a
natureza
dos homens é aquela de obrigar-se tanto pelos benefícios
que
são feitos como por aqueles que se recebem. Donde, em se
considerando
tudo bem, não será difícil a um príncipe
prudente
conservar firmes, antes e depois do cerco, os ânimos de seus
cidadãos, desde que não faltem víveres nem meios
de defesa.
CAPÍTULO XI
DOS PRINCIPADOS ECLESIÁSTICOS
(DE PRINCIPATIBUS ECLESIASTICIS)
Resta-nos somente, agora, falar dos principados eclesiásticos,
nos quais todas as dificuldades existem antes que se os possuam, eis
que são adquiridos ou pela virtude ou pela fortuna, e sem uma e
outra se conservam, porque são sustentados pelas ordens de
há muito estabelecidas na religião; estas tornam-se
tão fortes e de tal natureza
que mantêm os seus príncipes sempre no poder, seja qual
for
o modo por que procedam e vivam. Só estes possuem Estados e
não
os defendem; súditos, e não os governam; os Estados, por
serem indefesos, não lhes são tomados; os súditos,
por não serem governados, não se preocupam, não
pensam e nem podem
separar-se deles. Somente estes principados, pois, são seguros e
felizes.
Mas, sendo eles dirigidos por razão superior, à qual a
mente
humana não atinge, deixarei de falar a seu respeito,mesmo
porque,
sendo engrandecidos e mantidos por Deus, seria obra de homem
presunçoso
e temerário dissertar a seu respeito. Contudo, se alguém
me
perguntar donde provém que a Igreja, no poder temporal, tenha
chegado
a tanta grandeza, pois que antes de Alexandre os potentados italianos,
e
não apenas aqueles que eram ditos "potentados" mas qualquer
barão
e senhor, mesmo que sem importância, pouco valor davam ao poder
temporal
da Igreja, e agora um rei de França treme, ela pode
expulsá-lo
da Itália e ainda logra arruinar os venezianos, apontarei fatos
que,
a despeito de conhecidos, não me parece supérfluo
reavivar
em parte na memória.
Antes que Carlos, rei da França, invadisse a Itália, esta
província encontrava-se sob o domínio do Papa, dos
venezianos, do rei de Nápoles, do duque de Milão e dos
florentinos. Estes potentados tinham de se haver com dois cuidados
principais: um, que nenhum estrangeiro entrasse na Itália com
tropas; o outro, que nenhum deles ocupasse mais Estado. Aqueles dos
quais se tinha mais receio eram o Papa e
os venezianos. Para conter os venezianos tornou-se necessária a
união
de todos os demais, como ocorreu na defesa de Ferrara; para deter o
Papa,
serviam-se dos barões de Roma, eis que. estando divididos em
duas
facções, Orsíni e Colonna, sempre existia motivo
de
discórdia entre eles e, estando de arma em punho sob os olhos do
pontífice,
mantinham o pontificado fraco e inseguro. Se bem surgisse, vez por
outra,
um Papa animoso, como foi Xisto, nem a sua fortuna nem o seu saber
puderam
livrá-lo desses inconvenientes. A brevidade da vida dos
pontífices
era a causa dessa situação, porque, nos dez anos que, em
média,
vivia um Papa, somente com muita dificuldade podia ele enfraquecer uma
das
facções; se, por exemplo, um deles tivesse quase
extinguindo
os collonessi surgia um outro, inimigo dos Orsíni, que os fazia
ressurgir
sem que tivesse tempo de liquidar os Orsíni. Isto tornava o
poder
temporal do Papa pouco considerado na Itália.
Surgiu depois Alexandre VI que, de todos os pontífices que
já existiram, foi o que mostrou o quanto um Papa podia, com o
dinheiro e as
tropas, para adquirir maior poder; e fez, com o uso do Duque Valentino
como
instrumento e com a oportunidade da invasão dos franceses, todas
aquelas
coisas que relatei acima com relação às
ações do duque. Se bem seu intento não fosse o de
tornar grande a Igreja mas sim o duque, não obstante, tudo o que
fez reverteu em favor da grandeza da Igreja, a qual, após a sua
morte, extinto o duque, se
tornou herdeira de sua obra. Veio depois o Papa Júlio e
encontrou
a Igreja grande, possuindo toda a Romanha, reduzidos à
impotência
os barões de Roma e, pelas perseguições de
Alexandre,
anuladas aquelas facções; encontrou, ainda, o caminho
aberto
para acumular dinheiro, o que jamais havia sido feito antes de
Alexandre.
Júlio não só seguiu tais práticas, como as
ampliou; pensou em conquistar Bolonha, extinguir os venezianos e
expulsar
os franceses da Itália: todos esses empreendimentos lhe
saíram
bem, e com tanto maior louvor quanto realizou tudo isso para
engrandecer
a Igreja e não para favorecer algum cidadão particular.
Conservou,
ainda, os partidos dos Orsíni e dos Colonna nas mesmas
condições
em que os encontrara e, se bem entre eles houvesse algum chefe capaz de
fazer
mudar a situação, duas coisas os mantiveram quietos: uma,
a
grandeza da Igreja, que os atemorizava; a outra, não terem eles
cardeais,
os quais são os causadores dos tumultos entre as
facções. Nem em tempo algum ficarão quietas essas
partes, desde que possuam cardeais, pois estes sustentam os partidos
dentro e fora de Roma e os barões são forçados a
defendê-los; assim, da ambição dos prelados, nascem
as discórdias e os tumultos entre os barões. Sua
Santidade, o Papa Leão, encontrou o pontificado
potentíssimo e, espera-se, se aqueles que referimos o fizeram
grande pelas armas, este o fará ainda maior e mais venerado pela
bondade e suas outras infinitas virtudes.
CAPÍTULO XII
DE QUANTAS ESPÉCIES SÃO AS MILÍCIAS, E DOS
SOLDADOS MERCENÁRIOS
(QUOT SINT GENERA MILITIAE ET DE MERCENARIIS MILITIBUS)
Tendo falado detalhadamente de todas as espécies de principados,
dos quais já no início me propus comentar, e
consideradas, em
alguns pontos, as causas do bem-estar e do mal-estar dos mesmos,
mostrados que foram os modos pelos quais muitos procuraram adquiri-los
e conservá-los, resta-me agora falar de forma genérica
dos meios ofensivos e defensivos que em cada um dos citados principados
possam ocorrer, Dissemos acima como é necessário a um
príncipe ter bons fundamentos; do
contrário, necessariamente, cairá em ruína. Os
principais
fundamentos que os Estados têm, tanto os novos como os velhos ou
os
mistos, são as boas leis e as boas armas. E, como não
pode
haver boas leis onde não existam boas armas e onde existam boas
armas
convém que haja boas leis, deixarei de falar das leis e me
reportarei
apenas às armas.
Digo, pois, que as armas com as quais um príncipe defende o seu
Estado, ou são suas próprias ou são
mercenárias,
ou auxiliares ou mistas. As mercenárias e as auxiliares
são
inúteis e perigosas e, se alguém tem o seu Estado apoiado
nas tropas mercenárias, jamais estará firme e seguro,
porque
elas são desunidas, ambiciosas, indisciplinadas, infiéis;
galhardas entre os amigos, vis entre os inimigos; não têm
temor
a Deus e não têm fé nos homens, e tanto se adia a
ruína,
quanto se transfere o assalto; na paz se é espoliado por elas,
na
guerra, pelos inimigos. A razão disto é que elas
não
têm outro amor nem outra razão que as mantenha em campo, a
não
ser um pouco de soldo, o qual não é suficiente para fazer
com que queiram morrer por ti. Querem muito ser teus soldados enquanto
não
estás em guerra, mas, quando esta surge, querem fugir ou ir
embora.
Para persuadir de tais coisas não me é necessária
muita fadiga, eis que a atual ruína da Itália não
foi
causada por outro fator senão o de ter, por espaço de
muitos
anos, repousado sobre as armas mercenárias. Elas já
fizeram
algo em favor de alguns e pareciam galhardas nas lutas entre si; mas,
quando
surgiu o estrangeiro, mostraram-lhe o que eram. Por isso foi
possível
a Carlos, rei de França, tomar a Itália com o giz; e quem
disse
que a causa disso foram os nossos pecados, dizia a verdade, se bem que
esses
pecados não fossem aqueles que ele julgava, mas sim esses que eu
narrei,
e como eram pecados de príncipes, estes sofreram o castigo.
Quero demonstrar melhor a infeliz qualidade destas tropas. Os
capitães mercenários ou são homens excelentes, ou
não: se o
forem, não podes confiar, porque sempre aspirarão
à
própria grandeza, abatendo a ti que és o seu
patrão,
ou oprimindo os outros contra a tua vontade; mas se não forem
grandes
chefes, certamente te levarão à ruína. E, se for
respondido
que qualquer um que detenha as forças nas mãos
fará
isso, mercenário ou não, responderei dizendo como as
armas
devem ser usadas por um príncipe ou por uma República. O
príncipe
deve ir pessoalmente com as tropas e exercer as
atribuições
do capitão: a República deve mandar seus cidadãos
e,
quando enviar um que não se revele valente, deve substitui-lo,
quando
animoso deve detê-lo com as leis para que não avance
além
do limite. Por experiência se vêem príncipes
sós
e repúblicas armadas fazerem grandes progressos, enquanto se
vêem
tropas mercenárias não causarem mais do que danos. Ainda,
uma República armada de tropas próprias se submete ao
domínio
de um seu cidadão com muito maior dificuldade do que aquela que
esteja
protegida por tropas mercenárias ou auxiliares.
Roma e Esparta foram durante muitos séculos armadas e livres, Os
suíços são armadíssimos e
libérrimos, Das
armas mercenárias antigas, podemos citar como exemplo os
cartagineses, os quais quase foram oprimidos por seus soldados
mercenários, ao fim da primeira guerra com os romanos, a
despeito de terem por chefes os próprios cidadãos de
Cartago. Felipe da Macedônia foi pelos tebanos feito
capitão de sua gente, depois da morte de Epaminondas, e
após a vitória lhes tolheu a liberdade, Os milaneses,
morto o Duque Felipe, assalariaram Francisco Sforza para combater os
venezianos e o mesmo, vencidos os inimigos em Caravaggio, a estes se
uniu para oprimir os milaneses, seus patrões. Sforza, seu pai,
estando a serviço da Rainha Joana de Nápoles, deixou-a
repentinamente desarmada; por isso ela, para não
perder o reino, foi obrigada a lançar-se aos braços do
Rei
de Aragão.
E se venezianos e florentinos, ao contrário, tiveram aumentado o
seu domínio com essas tropas, e os seus capitães se
fizeram príncipes mas os defenderam, esclareço que os
florentinos, neste
caso, foram favorecidos pela sorte, porque dos capitães de
valor, aos
quais podiam temer, alguns não venceram ou tiveram de lutar
contra antagonistas, outros voltaram sua ambição para
paragens diversas. Quem não venceu foi Giovanni Aucut, por isso
mesmo não se podendo conhecer de sua fidelidade, mas todos
estarão concordes que, tivesse vencido, os florentinos estariam
à sua mercê. Sforza sempre teve
os Braccio contra si, vigiando-se uns aos outros. Francisco voltou sua
ambição
para a Lombardia, Braccio contra a Igreja e o reino de Nápoles.
Mas,
vejamos o que ocorreu há pouco tempo. Os florentinos fizeram
Paulo
Vitelli seu capitão, homem de muita prudência e que, de
vida
privada, havia alcançado mui grande reputação. Se
ele
conquistasse Pisa, não haveria quem negasse convir aos
florentinos estar sob suas ordens, mesmo porque, se ele tivesse ficado
como soldado
de seus inimigos, não teriam remédio e, tendo-o ao seu
lado,
deveriam obedecer-lhe.
Os venezianos, se se considerar os seus progressos, ver-se-á
terem operado segura e gloriosamente enquanto fizeram a guerra sozinhos
(o que
foi antes de voltarem suas vistas para a terra) sendo que, com o apoio
dos
gentis-homens e com a plebe armada, operaram mui galhardamente; mas,
como
eles começaram a combater em terra, abandonaram essa
prudência
e seguiram os costumes de guerra da Itália. No princípio
de
sua expansão terrestre, por não possuírem muito
Estado
e por usufruírem alta reputação, não
precisavam
temer muito seus capitães; mas, quando ampliaram suas
conquistas,
o que ocorreu sob o Carmignola, tiveram a prova desse erro. Por tanto,
tendo
visto seu valor quando sob seu comando bateram o duque de Milão
e
sentindo, de outra parte, quanto ele esfriara no conduzir a guerra,
julgaram
não mais ser possível com ele vencer dada a sua má
vontade;
e não podendo licenciá-lo para não perder aquilo
que
tinham adquirido, para se garantirem viram-se na contingência de
matá-lo,
Tiveram depois por seus capitães Bartolomeu e Bergamo, Roberto
de
São Severino, Conde de Pitigliano e outros parecidos, com os
quais
deviam temer as derrotas e não suas conquistas, como ocorreu
depois
em Vailá, onde, num dia, perderam tudo aquilo que, em oitocentos
anos,
com tanta fadiga, tinham conquistado. Na verdade, destas tropas
resultam
apenas lentas, tardias e fracas conquistas, mas rápidas e
miraculosas
perdas. E, como apresentei estes exemplos da Itália que tem sido
por
muitos anos dominada por armas mercenárias, quero analisar essas
tropas
por forma mais genérica, a fim de que, vendo a origem e o
desenvolvimento
das mesmas, se possa melhor corrigir o erro de seu emprego.
Deveis, pois, saber como, logo que nestes últimos anos o
império começou a ser repelido da Itália e o Papa
passou a ter reputação no poder temporal, a Itália
dividiu-se em vários Estados.
Na verdade, muitas das maiores cidades tomaram das armas contra seus
nobres, os quais, antes favorecidos pelo imperador, as mantinham
oprimidas, e a
Igreja, para obter reputação em seu poder temporal, as
favorecia
em tal; de muitas outras, os seus cidadãos se tornaram
príncipes.
Daí resultar que, tendo a Itália quase toda, chegado a
cair nas mãos da Igreja e de algumas repúblicas,
não estando aqueles padres e aqueles outros cidadãos
habituados ao uso das armas, começaram a aliciar
mercenários estrangeiros. O primeiro que deu fama a essa
milícia foi Alberico da Conio, natural da Romanha, sendo que de
sua escola de armas vieram, dentre outros, Braccio e Sforza, nos seus
dias os árbitros da Itália. Depois destes vieram
todos os outros que até nossos tempos têm chefiado essas
tropas,
e o fim do valor das mesmas foi que a Itália viu-se percorrida
por
Carlos, saqueada por Luís, violentada por Fernando e desonrada
pelos
suíços.
A ordem que eles observaram inicialmente foi, para dar
reputação a si próprios, tirar o conceito da
infantaria, Fizeram isso porque, sendo eles sem Estado e vivendo da
indústria das armas, poucos infantes não lhes dariam fama
e, sendo muitos, não poderiam alimentá-los; assim,
limitaram-se à cavalaria onde, com número
suportável, as tropas podiam ser nutridas e eles honrados. E,
afinal, a situação tornou-se tal que, em um
exército de vinte mil soldados, não se encontravam dois
mil infantes. Tinham, além disso, usado todos
os meios para afastar de si e de seus soldados o cansaço e o
medo,
não se matando nos combates, fazendo-se prisioneiros uns aos
outros
e libertando-se depois sem resgate. Não atacavam as cidades
muradas
e os das cidades não assaltavam os acampamentos; não
faziam
nem estacadas nem fossos, não saíam a campo no inverno.
Todas
estas coisas eram permitidas nas suas regras militares, por eles
encontradas
para fugir, como foi dito, à fadiga e aos perigos; foi por isso
que
arrastaram a Itália à escravidão e à
desonra.