Media
LIVROS
O PRÍNCIPE
- MAQUIAVEL
DIVIDIDO
EM 4 PARTES:
PARTE 4
CAPÍTULO
XX
SE AS FORTALEZAS E MUITAS OUTRAS COISAS QUE A CADA DIA SÃO
FEITAS PELOS
PRÍNCIPES SÃO ÚTEIS OU NÃO
(AN ARCES ET MULTA ALIA QUAE COTIDIE A PRINCIPIBUS FIUNT UTILIA AN
INUTILIA SINT)
Para conservar seguramente o Estado, alguns príncipes desarmaram
os seus súditos, outros mantiveram divididas as terras
submetidas, alguns nutriram inimizades contra si mesmos, outros
dedicaram-se a conquistar o apoio
daqueles que lhes eram suspeitos no início de seu governo,
alguns construíram
fortalezas, outros as arruinaram e destruíram. E, se bem
não
seja possível estabelecer determinado juízo sobre todas
essas
coisas sem entrar nas particularidades de cada um dos Estados onde
devesse
ser tomada alguma dessas deliberações, falarei de maneira
genérica,
compatível com o assunto.
Jamais existiu um príncipe novo que desarmasse os seus
súditos, mas, antes, sempre que os encontrou desarmados,
armou-os; isto porque, armando-os, essas armas passam a ser tuas,
tornam fiéis aqueles que te são suspeitos, os que eram
fiéis assim se conservam e de súditos tornam-se teus
partidários. E, porque não se pode armar todos os
súditos, beneficiados aqueles que armas, com os outros podes
tratar mais seguramente; essa diversidade de tratamento que reconhecem
em seu favor os torna obrigados para contigo e os outros
desculpar-te-ão, julgando ser necessário tenham aqueles
mais recompensas por estarem sujeitos a maiores perigos e maiores
obrigações. Mas quando os desarmas, começas a
ofendê-los, mostras deles duvidar, ou por vileza ou por
desconfiança uma ou outra destas opiniões concebe
ódio contra ti. E, por não poderes ficar desarmado,
torna-se necessário que te voltes à milícia
mercenária, que é daquela qualidade que já foi
dita e, quando fosse boa, não poderia sê-lo
por forma a defender-te dos inimigos poderosos e dos súditos
suspeitos.
Porém, como disse, um príncipe novo num principado
também novo, sempre organizou as forças armadas e destes
exemplos a história está repleta. Mas, quando um
príncipe conquista um novo Estado que, como membro, se agrega ao
antigo, então é necessário desarmar o conquistado,
salvo aqueles que, nele, foram teus partidários na conquista;
estes mesmos, com o tempo e a oportunidade, devem ser tornados
amolecidos e efeminados, procedendo-se de modo que as armas fiquem
somente em poder de teus próprios soldados, daqueles que, no
Estado antigo, estavam junto de ti.
Os nossos antepassados e aqueles que eram considerados entendidos
costumavam dizer que Pistóia precisava ser mantida pela
divisão do povo e Pisa pelas fortalezas; e, por isso mesmo, em
algumas regiões por eles conquistadas, mantinham as
discórdias entre os partidos para dominá-las
mais facilmente. Isto, naqueles tempos em que a Itália
apresentava
certo equilíbrio, devia ser útil. Mas não creio se
possa
admitir tal como preceito hodierno, eis que não acredito
pudessem
as divisões, alguma vez, acarretar qualquer benefício; ao
contrário,
quando o inimigo se avizinha, as cidades divididas, necessariamente,
perdem-se
logo, eis que sempre a parte mais fraca aderirá às
forças
externas e a outra não poderá resistir.
Os venezianos, levados pelas razões acima mencionadas segundo
acredito, incentivavam as facções guelfas e gibelinas nas
cidades a eles submetidas; e, se bem nunca as deixassem chegar à
luta, alimentavam entre elas essas divergências para que,
ocupados os cidadãos naquelas suas diferenças, não
se unissem contra eles. Isso, como se viu, não lhes aproveitou
porque, derrotados em Vailá, logo algumas daquelas cidades
passaram a se insurgir e lhes tomaram todo o
Estado. Tais atitudes revelam fraqueza do príncipe, eis que em
um principado
poderoso jamais serão permitidas semelhantes divisões,
úteis
somente em tempo de paz, eis que por elas pode-se mais facilmente
manejar
os súditos; mas, sobrevindo a guerra, tal sistema demonstra sua
falácia.
Sem dúvida alguma, os príncipes se tornam grandes quando
superam as dificuldades e as oposições que lhes
são antepostas; porém a fortuna, principalmente quando
quer tornar grande um príncipe novo, que tem mais necessidade de
adquirir reputação do que um hereditário, o faz
nascer dos inimigos e determina que lhe sejam opostos embaraços,
a fim de que ele tenha oportunidade de superá-los e, assim,
possa subir mais alto pela escada que os inimigos lhe oferecem, Por
isso, muitos pensam que um príncipe hábil deve, quando
tenha
ocasião, incentivar com astúcia alguma inimizade para,
eliminada
esta, continuar a ascensão de sua grandeza.
Os príncipes, particularmente aqueles que são novos,
têm encontrado mais lealdade e maior utilidade nos homens que no
início de seu governo foram considerados suspeitos, do que nos
que inicialmente eram
seus confidentes. Pandolfo Petrucci, príncipe de Siena, dirigia
o
seu Estado mais com aqueles que lhe foram suspeitos do que com os que
não o foram. Mas deste assunto não é
possível falar em caráter genérico, pois o mesmo
varia segundo cada caso. Somente direi isto: os homens que no
início de um principado haviam sido inimigos, sendo de
condição que para manter-se precisam de apoio, o
príncipe poderá sempre com grande facilidade vir a
conquistá-los; e eles
tanto mais são forçados a servi-lo com lealdade, quanto
reconheçam
ser-lhes necessário cancelar com obras aquela má
opinião
que, a seu respeito, se fazia. Assim, o príncipe deles
obtém
sempre maior utilidade do que daqueles que, servindo-o com excessiva
segurança,
descuram de seus interesses.
Já que o assunto torna oportuno, não quero deixar de
recordar aos príncipes que tomaram um Estado novo pelo favor de
alguns dos habitantes
do mesmo deverem considerar bem qual a razão que determinou
assim
agissem os que o favoreceram; se a mesma não é
afeição natural em relação a eles mas sim,
se o apoio decorreu do fato dos mesmos não estarem satisfeitos
com o Estado anterior, só com fadiga e grande dificuldade se
poderá conservá-los amigos, dado que é quase
impossível possam vir a ser contentados. E, considerando bem os
exemplos que se extraem das coisas antigas e modernas, em razão
disso, ver-se-á ser muito mais fácil ao príncipe
tornar amigos aqueles homens que se contentavam com o regime antigo e,
portanto, eram seus inimigos, que aqueles que, por descontentes,
fizeram-se seus amigos e o favoreceram na conquista.
Tem sido costume dos príncipes, para poder manter seu Estado
mais seguramente, edificar fortalezas que sejam a brida e o freio
postos aos que desejassem enfrentá-los, bem como um
refúgio seguro contra um
ataque de surpresa. Eu louvo esse proceder, porque usado desde tempos
remotos;
não obstante messer Nicoló Vitelli, nos tempos atuais,
destruiu
duas fortalezas na Cidade de Castelo para, assim, conservar o Estado.
Guido
Ubaldo, Duque de Urbino, tendo retornado ao seu domínio de que
havia
sido expulso por César Bórgia, destruiu desde os
alicerces todas
as fortalezas daquela província, por entender que sem aquelas
seria
mais difícil perder novamente seu Estado. Os Bentivoglio,
retornados a Bolonha, usaram igual expediente. Portanto, as fortalezas
são úteis ou não, segundo os tempos; se te fazem
bem por um lado, prejudicam-te por outro. Pode-se explicar esta
afirmativa pela forma a seguir exposta.
O príncipe que tiver mais temor de seu povo do que dos
estrangeiros, deve construir as fortalezas; mas aquele que sentir mais
medo dos estrangeiros que de seu povo, deve abandoná-las. O
castelo de Milão, edificado por Francisco Sforza, fez e
fará mais guerra à casa dos Sforza do que qualquer outra
desordem naquele Estado. Por isso, a melhor fortaleza que possa existir
é o não ser odiado pelo povo: mesmo que tenham
fortificações elas de nada valem se o povo te odeia, eis
que a este, quando tome das armas, nunca faltam estrangeiros que o
socorram. Nos
nossos tempos vê-se que as fortalezas não têm sido
proveitosas
a príncipe algum, senão à Condessa de Forli quando
foi
morto o Conde Girolamo, seu esposo, eis que a mesma, refugiando-se numa
fortificação,
pode fugir ao ímpeto popular, esperar pelo socorro de
Milão
e recuperar o Estado; ademais, as circunstâncias eram tais que o
estrangeiro
não podia socorrer o povo. Depois, também para ela pouco
valeram
as fortalezas quando César Bórgia a atacou e o povo, seu
inimigo,
aliou-se ao estrangeiro. Portanto, teria sido mais seguro para ela,
quer
então, quer antes, não ser odiada pelo povo do que
possuir
fortalezas. Consideradas assim todas estas questões, louvarei
tanto
os que fizerem como os que não fizerem as fortalezas e
censurarei
aquele que, fiando-se nas fortificações, venha a
subestimar
o fato de ser odiado pelo povo.
CAPÍTULO XXI
O QUE CONVÉM A UM PRÍNCIPE PARA SER ESTIMADO
(QUOD PRINCIPEM DECEAT UT EGREGIUS HABEATUR)
Nada faz estimar tanto um príncipe como as grandes empresas e o
dar de si raros exemplos. Temos, nos nossos tempos, Fernando de
Aragão, atual rei de Espanha. A este pode-se chamar, quase,
príncipe novo, porque de um rei fraco tornou-se, por fama e por
glória, o primeiro rei dos cristãos; e, se considerardes
suas ações, as achareis todas grandiosas e algumas mesmo
extraordinárias. No começo de seu reinado, assaltou
Granada e esse empreendimento foi o fundamento de seu Estado. Primeiro
ele o fez isoladamente, sem luta com outros Estados e
sem receio de ser impedido de tal; manteve ocupadas nesse
empreendimento as
atenções dos barões de Castela que, pensando na
guerra, não cogitavam de inovações e ele, por esse
meio, adquiria reputação e autoridade sobre os mesmos sem
que de tal se apercebessem. Pode manter exércitos com dinheiro
da Igreja e do povo e, com tão longa campanha, estabeleceu a
organização de sua milícia que, depois, tanto o
honrou. Além disto, para poder encetar maiores empreendimentos,
servindo-se sempre da religião, dedicou-se a uma piedosa
crueldade expulsando e livrando seu reino dos marranos,
ação de que não pode haver exemplo mais
miserável nem mais raro. Sob essa mesma capa, atacou a
África, fez a campanha da Itália e, ultimamente, assaltou
a França; assim, sempre fez e urdiu grandes empreendimentos, os
quais em todo o tempo mantiveram suspensos e admirados os ânimos
dos súditos, ocupados em esperar o êxito dessas guerras.
Essas suas ações nasceram umas das outras, pelo que,
entre elas, não houve tempo para que os homens pudessem agir
contra ele.
Muito apraz a um príncipe dar de si exemplos raros na forma de
comportar-se com os súditos, semelhantes àqueles que
são narrados de messer Barnabò de Milão, quando
surge a oportunidade de alguém
ter realizado alguma coisa extraordinária de bem ou de mal na
vida
civil, obtendo meio de premiá-lo ou puni-lo por forma que seja
bastante
comentada, Acima de tudo, um príncipe deve empenhar-se em dar de
si,
com cada ação, conceito de grande homem e de
inteligência
extraordinária.
Um príncipe é estimado, ainda, quando verdadeiro amigo e
vero inimigo, isto é, quando sem qualquer
consideração se revela em favor de um, contra outro. Esta
atitude é sempre mais útil do que ficar neutro, eis que,
se dois poderosos vizinhos teus entrarem em luta, ou são de
qualidade que vencendo um deles tenhas a temer o vencedor, ou
não. Em qualquer um destes dois casos será sempre mais
útil o definir-te e fazer guerra digna, porque no primeiro caso
se não te
definires serás sempre presa do que vencer, com prazer e
satisfação do que foi vencido, e não terás
razão ou coisa alguma que te defenda nem quem te receba. O
vencedor não quer amigos suspeitos ou que não o ajudem
nas adversidades; quem perde não te recebe por não teres
querido correr a sua sorte de armas em punho.
Antíoco invadiu a Grécia a chamado dos etólios
para expulsar os romanos. Enviou embaixadores aos aqueus, amigos dos
romanos, para
concitá-los a ficarem neutros, enquanto os romanos os persuadiam
a
tomar armas ao seu lado. Esta matéria veio à
deliberação do congresso dos aqueus, onde o legado de
Antíoco os induzia à neutralidade; a isto, o
representante romano respondeu: Quod autem isti dicunt non interponendi
vos bello, nihil magis alienum rebus vestris est; sine gratia, sine
dignitate, praemium victoris eritis.
Sempre acontecerá que aquele que não é amigo
procurará tua neutralidade e aquele que é amigo
pedirá que te definas com as armas. Os príncipes
irresolutos, para fugir aos perigos presentes, seguem na maioria das
vezes o caminho da neutralidade e, geralmente, caem em ruína.
Mas, quando o príncipe se define galhardamente em favor de uma
das partes, se aquele a quem aderes vence, mesmo que seja tão
poderoso que venhas a ficar á sua discrição, ele
tem obrigação para contigo e está ligado a ti pela
amizade; e os homens nunca são tão desonestos que, com
tamanha prova de ingratidão, possas vir a ser oprimido.
Além disso, as vitórias nunca são tão
brilhantes que o vencedor não deva ter qualquer
consideração, principalmente para com o que é
justo. Mas, se aquele a quem aderes perder, serás amparado por
ele e, enquanto puder, ajudar-te-á e ficarás associado a
uma fortuna que poderá ressurgir. No segundo caso, quando
aqueles que lutam são de classe que não devas temer o
vencedor, ainda maior prudência é aderir, pois causas a
ruína de um com a ajuda de quem deveria salvá-lo, se
fosse sábio; vencendo, fica à tua mercê, e é
impossível não vença com o teu auxílio.
Note-se aqui que um príncipe deve ter a cautela de jamais fazer
aliança com um mais poderoso que ele para atacar os outros,
senão quando a necessidade o compelir, como se disse acima,
porque, vencendo, torna-se seu prisioneiro; e os príncipes devem
fugir o quanto possam de ficar à discrição dos
outros. Os venezianos aliaram-se à França contra o duque
de Milão, podendo ter evitado essa aliança de que
resultou a sua ruína. Mas, quando não se pode
evitá-la (como aconteceu aos florentinos quando o Papa e a
Espanha levaram seus exércitos a atacar a Lombardia),
então deverá o príncipe aderir pelas razões
acima expostas. Nem julgue algum Estado poder adotar sempre
partidos seguros, devendo antes pensar ser obrigado a tomar,
freqüentemente, partidos duvidosos; vê-se na ordem das
coisas que nunca se procura fugir
a um inconveniente sem incorrer em outro e a prudência consiste
em
saber conhecer a natureza desses inconvenientes e tomar como bom o
menos prejudicial.
Deve, ainda, um príncipe mostrar-se amante das virtudes, dando
oportunidade aos homens virtuosos e honrando os melhores numa arte. Ao
mesmo tempo, deve animar os seus cidadãos a exercer
pacificamente as suas atividades no comércio, na agricultura e
em qualquer outra ocupação, de forma que o agricultor
não tema ornar as suas propriedades por receio
de que as mesmas lhe sejam tomadas, enquanto o comerciante não
deixe
de exercer o seu comércio por medo das taxas; deve, além
disso,
instituir prêmios para os que quiserem realizar tais coisas e os
que
pensarem em por qualquer forma engrandecer a sua cidade ou o seu
Estado.
Ademais, deve, nas épocas convenientes do ano, distrair o povo
com
festas e espetáculos. E, porque toda cidade está dividida
em
corporações de artes ou grupos sociais, deve cuidar
dessas corporações
e desses grupos, reunir-se com eles algumas vezes, dar de si prova de
humanidade
e munificência, mantendo sempre firme, não obstante, a
majestade
de sua dignidade, eis que esta não deve faltar em coisa alguma.
CAPÍTULO XXII
DOS SECRETÁRIOS QUE OS PRÍNCIPES TÊM JUNTO DE SI
(DE HIS QUOS A SECRETIS PRINCIPES HABENT)
Não é de pouca importância para um príncipe
a escolha
dos ministros, os quais são bons ou não, segundo a
prudência
daquele. E a primeira conjetura que se faz da inteligência de um
senhor,
resulta da observação dos homens que o cercam; quando
são
capazes e fiéis, sempre se pode reputá-lo sábio,
porque
soube reconhecê-los competentes e conservá-los. Mas,
quando
não são assim, sempre se pode fazer mau juízo do
príncipe,
porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha,
Não
houve ninguém que, conhecendo messer Antônio de Venafro
como
ministro de Pandolfo Petruci, príncipe de Siena, deixasse de
julgar
este senhor como extremamente valoroso pelo fato de ter aquele por
ministro.
E, porque são de três espécies as
inteligências, uma que entende as coisas por si, a outra que
discerne o que os outros entendem e a terceira que não entende
nem por si nem por intermédio dos
outros, a primeira excelente, a segunda muito boa e a terceira
inútil, estavam todos acordes que se Pandolfo não se
classificava no primeiro grau, estava, necessariamente, no segundo;
porque, toda vez que alguém tem a capacidade de conhecer o bem e
o mal que uma pessoa faça ou diga,
mesmo que por si não tenha capacidade para solucionar os
problemas, discerne as más e as boas obras do ministro, exalta
estas e corrige aquelas, e o ministro não pode esperar
enganá-lo, pelo que se
conserva bom.
Mas, para que um príncipe possa conhecer o ministro, existe um
método que não falha. Quando vires o ministro pensar mais
em si do que em ti, e que em todas as ações procura o seu
interesse próprio, podes concluir que este jamais será um
bom ministro e nele nunca poderás confiar; aquele que tem o
Estado de outrem em suas mãos não deve pensar nunca em
si, mas sim e sempre no príncipe, não lhe
recordando nunca coisa que não seja da sua competência.
Por
outro lado, o príncipe, para conservá-lo bom ministro,
deve
pensar nele, honrando-o, fazendo-o rico, obrigando-se-lhe, fazendo-o
participar
das honrarias e cargos, a fim de que veja que não pode ficar sem
sua
proteção, e que as muitas honras não o
façam
desejar mais honras, as muitas riquezas não o façam
desejar
maiores riquezas e os muitos cargos o façam temer as
mudanças. Quando, pois, os ministros, e os príncipes com
relação àqueles, estão assim preparados,
podem confiar um no outro; quando não for assim, o fim
será sempre danoso ou para um ou para o outro.
CAPÍTULO XXIII
COMO SE AFASTAM OS ADULADORES
(QUOMODO ADULATORES SINT FUGIENDI)
Não quero deixar de tratar de um ponto importante, de um erro do
qual os príncipes só com muita dificuldade se defendem,
se
não são de extrema prudência ou se não fazem
boa
escolha. Refiro-me aos aduladores, dos quais as cortes estão
repletas,
dado que os homens se comprazem tanto nas suas coisas próprias e
de
tal modo se iludem, que com dificuldade se defendem desta peste e,
querendo
defender-se, há o perigo de tornar-se menosprezado. Não
há
outro meio de guardar-se da adulação, a não ser
fazendo
com que os homens entendam que não te ofendem dizendo a verdade;
mas, quando todos podem dizer-te a verdade, passam a faltar-te com a
reverência.
Portanto, um príncipe prudente deve proceder por uma terceira
maneira, escolhendo em seu Estado homens sábios e somente a eles
deve dar a liberdade de falar-lhe a verdade daquilo que ele pergunte e
nada mais. Deve consultá-los sobre todos os assuntos e ouvir as
suas opiniões; depois, de liberar por si, a seu modo, e, com
estes conselhos e com cada um
deles, portar-se de forma que todos compreendam que quanto mais
livremente falarem, tanto mais facilmente serão aceitas suas
opiniões. Fora aqueles, não querer ouvir ninguém,
seguir a deliberação adotada e ser obstinado nas suas
decisões. Quem procede por outra forma,
ou é precipitado pelos aduladores, ou muda freqüentemente
de
opinião pela variedade dos pareceres; daí resulta a sua
desestima.
Quero, a este propósito, aduzir um exemplo atual. Pe. Lucas,
homem do atual Imperador Maximiliano, falando de Sua Majestade, disse
que ele não se aconselhava com ninguém e não fazia
nada a seu modo; isso resultava de ter costume contrário ao
acima exposto. Porque o Imperador é homem discreto, não
comunica a ninguém os seus desígnios, não pede
parecer; mas, como ao serem postos em prática começam a
ser conhecidos e descobertos, começam, a ser contrariados por
aqueles que o cercam, e ele, como é homem de opinião
fraca, os desfaz. Dai resulta que as coisas que faz num dia são
destruídas no outro e que não se entenda nunca o que ele
quer ou o que deseja fazer, não podendo pessoa alguma basear-se
em suas deliberações.
Um príncipe, portanto, deve aconselhar-se sempre, mas quando ele
queira e não quando os outros desejem; antes, deve tolher a
todos
o desejo de aconselhar-lhe alguma coisa sem que ele venha a pedir. Mas
deve
ser grande perguntador e, depois, acerca das coisas perguntadas,
paciente
ouvinte da verdade; antes, notando que alguém por algum respeito
não
lhe diga a verdade, deve mostrar aborrecimento. Há muitos que
entendem que o príncipe que dá de si opinião de
prudente, seja assim considerado não pela sua natureza, mas
pelos bons conselhos que
o rodeiam, porém, sem dúvida alguma, estão
enganados, eis que esta é uma regra geral que nunca falha: um
príncipe que não seja sábio por si mesmo,
não pode ser bem aconselhado, a menos que por acaso confiasse em
um só que de todo o governasse e
fosse homem de extrema prudência. Este caso poderia bem
acontecer, mas
duraria pouco, porque aquele que efetivamente governasse, em pouco
tempo lhe
tomaria o Estado; mas, aconselhando-se com mais de um, um
príncipe que não seja sábio, não
terá nunca os conselhos uniformes e não saberá por
si mesmo harmonizá-los. Cada conselheiro pensará por si e
ele não saberá corrigi-los nem inteirar-se do assunto. E
não é possível encontrar conselheiros diferentes,
porque os homens sempre serão maus se por uma necessidade
não forem tornados bons. Consequentemente se conclui que os bons
conselhos, venham de onde vierem, devem nascer da prudência do
príncipe, e não a prudência do príncipe
resultar dos bons conselhos.
CAPÍTULO XXIV
POR QUE OS PRÍNCIPES DA ITÁLIA PERDERAM SEUS ESTADOS
(CUR ITALIAE PRINCIPES REGNUM AMISERUNT)
As coisas já referidas, observadas prudentemente, fazem um
príncipe novo parecer antigo e logo o tornam mais seguro e mais
firme no Estado do que se aí fosse um príncipe antigo.
Porque um príncipe novo é muito mais observado nas suas
ações do que um hereditário; e, quando estas
são reconhecidas como virtuosas, atraem mais fortemente os
homens e os ligam a si muito mais que a tradição do
sangue. Porque os homens são levados muito mais pelas coisas
presentes do que pelas passadas e, quando nas presentes encontram o
bem, ficam satisfeitos e nada mais procuram. Antes, assumirão
toda sua defesa, desde que não
falte à palavra nas outras coisas. Assim, terá a dupla
glória
de ter dado início a um principado novo e de tê-lo ornado
e
fortalecido com boas leis, boas armas e bons exemplos; por outro lado,
aquele
que, tendo nascido príncipe, veio a perder o Estado por sua
pouca
prudência, terá duplicada a sua vergonha.
E, se se consideraram aqueles senhores que, na Itália, perderam
seus Estados nos nossos tempos, como o rei de Nápoles, o duque
de Milão e outros, achar-se-á neles, primeiro um defeito
comum quanto às armas, pelas razões que já foram
expostas; depois, ver-se-á que alguns deles, ou tiveram a
inimizade do povo, ou, tendo o povo por amigo, não souberam
garantir-se contra os grandes, eis que sem estes defeitos não se
perdem os Estados que tenham tanta força que possam levar
a campo um exército. Felipe da Macedônia, não o pai
de
Alexandre, mas o que foi vencido por Tito Quinto, tinha um Estado
não
muito extenso, em comparação com a grandeza dos romanos e
da
Grécia que o assaltaram; não obstante, por ser homem de
espírito
militar, que sabia ter o povo como amigo e garantir-se contra os
grandes,
sustentou por muitos anos a guerra contra aqueles; e se, afinal, perdeu
o
domínio de algumas cidades, restou-lhe todavia o reino.
Portanto, estes nossos príncipes que tinham permanecido muitos
anos em seus principados para depois perdê-los, não podem
acusar a
sorte, mas sim a sua própria ignávia, pois, não
tendo nunca, nos tempos pacíficos, pensado que estes poderiam
mudar (o que é defeito comum dos homens na bonança
não se preocupar com a tempestade) quando chegaram os tempos
adversos preocuparam-se em fugir e não em defender-se, esperando
que as populações, cansadas da insolência dos
vencedores, os chamassem de volta. Esse partido é bom quando os
outros falham, mas é muito mau o ter abandonado os outros
remédios por esse, pois não irás cair apenas por
acreditar encontrar quem te levante; isso não acontece ou, se
acontecer, não será para tua segurança, dado que
aquela defesa torna-se vil se não depender de ti. As defesas
somente são boas, certas e
duradouras quando dependem de ti próprio e da tua virtude.
CAPÍTULO XXV
DE QUANTO PODE A FORTUNA NAS COISAS HUMANAS E DE QUE MODO SE LHE DEVA
RESISTIR
(QUANTUM FORTUNA IN REBUS HUMANIS POSSIT, ET QUOMODO ILLI SIT OCCURREN
DUM)
Não ignoro que muitos têm tido e têm a
opinião de que as coisas do mundo sejam governadas pela fortuna
e por Deus, de forma que os homens, com sua prudência, não
podem modificar nem evitar de forma alguma; por isso poder-se-ia pensar
não convir insistir muito nas coisas, mas deixar-se governar
pela sorte. Esta opinião tornou-se mais aceita nos nossos tempos
pela grande modificação das coisas que foi vista e que se
observa todos os dias, independente de qualquer conjetura humana.
Pensando nisso algumas vezes, em parte inclinei-me em favor dessa
opinião. Contudo, para que o nosso livre arbítrio
não seja extinto, julgo poder ser verdade que a sorte seja o
árbitro da metade das nossas ações, mas que ainda
nos deixe governar a outra metade, ou quase. Comparo-a a um desses rios
torrenciais que, quando se encolerizam, alagam as planícies,
destróem as árvores e os edifícios, carregam terra
de um lugar para outro; todos fogem diante dele, tudo cede ao seu
ímpeto, sem poder opor-se em qualquer parte. E, se bem assim
ocorra, isso não impedia que os homens, quando a época
era de calma, tomassem providências com anteparos e diques,
de modo que, crescendo depois, ou as águas corressem por um
canal,
ou o seu ímpeto não fosse tão desenfreado nem
tão
danoso.
Da mesma forma acontece com a sorte, a qual demonstra o seu poderio
onde não existe virtude preparada para resistir e, aí,
volta seu ímpeto em direção ao ponto onde sabe
não foram construídos diques e anteparos para
contê-la, E, se considerardes a Itália, que é a
sede destas variações e aquela que lhes deu motivo,
vereis ser ela uma região sem diques e sem qualquer anteparo,
eis que se protegida por convenientes forças militares, como
a Alemanha, a Espanha e a França, ou esse transbordamento
não teria feito as grandes alterações que fez, ou
não teria ocorrido. Penso que isto seja suficiente quanto ao que
tinha a dizer acerca da oposição que se pode antepor
à sorte em geral.
Mas, restringindo-me mais ao particular, digo por que se vê um
príncipe hoje em franco e feliz progresso e amanhã em
ruína, sem que tenha mudado sua natureza ou as suas qualidades;
isso resulta, segundo creio, primeiro das razões que foram
longamente expostas mais atrás, isto é, que o
príncipe que se apoia totalmente na sorte arruina-se segundo as
variações desta. Creio, ainda, seja feliz aquele que
acomode o seu modo de proceder com a natureza dos tempos, da mesma
forma que penso seja infeliz aquele que, com o seu proceder, entre em
choque com o momento que atravessa.
Isso decorre de ver-se que os homens, naquilo que os conduz ao fim que
cada um tem por objetivo, isto é, glórias e riquezas,
procedem por formas diversas: um com cautela, o outro com
ímpeto, um com violência, o outro com astúcia, um
com paciência e o outro por forma contrária; e cada um,
por esses diversos meios, pode alcançar o objetivo.
Vê-se, ainda, de dois indivíduos cautos, um
alcançar o seu objetivo, o outro não, e da mesma maneira,
dois deles alcançarem igualmente fim feliz com duas
tendências diversas, sendo, por exemplo, um cauteloso e o outro
impetuoso; isso resulta apenas da natureza dos tempos que se adaptam ou
não ao proceder dos mesmos. Daí decorre aquilo que eu
disse, isto é, que dois indivíduos agindo por formas
diversas podem alcançar o mesmo efeito, ao passo que de dois que
operem igualmente, um alcança o seu fim e o outro não.
Disto depende, ainda, a variação do conceito de bem,
porque, se alguém se orienta com prudência e
paciência e os tempos e as situações se apresentam
de modo a que a sua orientação seja boa, ele
alcança a felicidade; mas, se os tempos e as
circunstâncias se modificam, ele se arruina, visto não ter
mudado seu modo de proceder. Nem é possível encontrar
homem tão prudente que saiba acomodar-se a isso, seja porque
não pode se desviar daquilo a que a
natureza o inclina, seja ainda porque, tendo alguém prosperado
seguindo sempre por um caminho, não se consegue persuadi-lo de
abandoná-lo. Por isso, o homem cauteloso, quando é tempo
de passar para o ímpeto, não sabe fazê-lo e, em
conseqüência, cai em ruína, dado que se mudasse de
natureza de acordo com os tempos e com as coisas, a
sua fortuna não se modificaria.
O Papa Júlio II, em todas as suas coisas procedeu impetuosamente
e encontrou tanto os tempos como as circunstâncias coincidentes
com
aquele seu modo de proceder, pelo que sempre alcançou feliz
êxito. Considerai a primeira campanha que encetou contra Bolonha,
sendo ainda vivo messer Giovanni Bentivoglio. Os venezianos estavam
descontentes; o rei da Espanha, nas mesmas condições; com
a França ainda discutia tal empresa. Isso não obstante,
com ferocidade e ímpeto, deu início pessoalmente
àquela expedição que, uma vez iniciada, fez com
que ficassem suspensos e parados tanto a Espanha como os venezianos,
estes por medo, aquela pelo desejo de recuperar todo o reino de
Nápoles, de outra parte, arrastou consigo o rei de França
porque, vendo-o esse rei em campanha e desejando torná-lo seu
amigo para aviltar os venezianos, julgou não poder negar-lhe a
sua gente sem injuriá-lo por forma manifesta.
Realizou Júlio, portanto, com seu movimento impetuoso, aquilo
que jamais outro pontífice, com toda a humana prudência,
teria feito, pois se ele, para partir de Roma, tivesse esperado estar
com todos os planos estabelecidos e todas as coisas assentadas, como
qualquer outro Papa teria feito, nunca teria obtido êxito, eis
que o rei de França teria apresentado mil desculpas e os outros
lhe teriam incutido mil receios. Desejo omitir as outras suas
ações, todas semelhantes e todas com feliz
êxito, sendo que a brevidade da vida não o deixou
experimentar o contrário, dado que se tivessem sobrevindo tempos
em que se tornasse necessário agir com cautelas, surgiria a sua
ruína, pois jamais ele teria desviado daquele modo de proceder a
que a natureza o inclinava.
Concluo, pois, que variando a sorte e permanecendo os homens obstinados
nos seus modos de agir, serão felizes enquanto aquela e estes
sejam
concordes e infelizes quando surgir a discordância. Considero
seja
melhor ser impetuoso do que dotado de cautela, porque a fortuna
é
mulher e consequentemente se torna necessário, querendo
dominá-la,
bater-lhe e contrariá-la; e ela mais se deixa vencer por estes
do
que por aqueles que procedem friamente. A sorte, porém, como
mulher,
sempre é amiga dos jovens, porque são menos cautelosos,
mais
afoitos e com maior audácia a dominam.
CAPÍTULO XXVI
EXORTAÇÃO PARA PROCURAR TOMAR A ITÁLIA E
LIBERTÁ-LA DAS MÃOS DOS BÁRBAROS
(EXHORTATIO AD CAPESSENDAM ITALIAM IN LIBERTATEMQUE A BARBARIS
VINDICANDAM)
Consideradas pois, todas as coisas já expostas, pensando comigo
mesmo se no momento presente, na Itália, corriam tempos capazes
de honrar um príncipe novo e se havia matéria que
assegurasse a alguém, prudente e valoroso, a oportunidade de
nela introduzir nova organização que a ele desse honra e
fizesse bem a todo o povo, quer me parecer concorrerem tantas
circunstâncias favoráveis a um príncipe novo que
não sei qual o tempo que poderia ser mais adequado para isto. E
se, como já disse, para se conhecer a virtude de Moisés
foi necessário que o povo de Israel estivesse escravizado no
Egito, para conhecer a grandeza do ânimo de Ciro, que os persas
fossem oprimidos pelos medas, e o valor de Teseu, que os atenienses
estivessem dispersos, também no presente, querendo conhecer a
virtude de um espírito italiano, seria necessário que a
Itália se reduzisse ao ponto em que se encontra no momento, que
ela fosse mais escravizada do que os hebreus, mais oprimida do que os
persas,
mais desunida do que os atenienses, sem chefe, sem ordem, batida,
espoliada,
lacerada, invadida, e tivesse suportado ruína de toda sorte.
Se bem tenha surgido, até aqui, certo vislumbre de
esperança em relação a algum príncipe,
parecendo poder ser julgado como dirigido por Deus para
redenção da Itália, contudo foi visto depois como,
no apogeu de suas ações, foi abandonado pela sorte. De
modo que, tornada sem vida, espera ela por aquele que cure as suas
feridas e ponha fim aos saques da Lombardia, às mortandades no
Reino de Nápoles e na Toscana, e a cure daquelas suas chagas
já de há muito enfistuladas. Vê-se como ela implora
a Deus lhe envie
alguém que a redima dessas crueldades e insolências
bárbaras. Vê-se, ainda, toda ela pronta e disposta a
seguir uma bandeira, desde que haja quem a empunhe.
Nem se vê no presente em quem possa ela confiar a não ser
na vossa ilustre casa, a qual, com a sua fortuna e virtude, favorecida
por Deus e pela Igreja, da qual é agora príncipe,
poderá tornar-se chefe desta redenção. Isso
não será muito difícil, se procurardes seguir as
ações e a vida dos acima indicados. E, se bem aqueles
homens sejam raros e maravilhosos, sem dúvida foram homens,
todos eles tiveram menor ocasião que a presente: porque os
empreendimentos dos mesmos não foram mais justos nem mais
fáceis do que este, nem foi Deus mais amigo deles do que de
vós. É de grande justiça o que digo: iustum enim
est bellum quibus necessarium, et pia arma ubi nulla nisi in armis spes
est. Aqui há uma grande disposição, e onde esta
existe não pode haver grande dificuldade, desde que se imite o
modo de agir daqueles que apontei como exemplo. Além disso, aqui
se vêem acontecimentos extraordinários emanados de Deus: o
mar se abriu, uma nuvem revelou o caminho, a pedra verteu água,
aqui
choveu o maná; todas as coisas concorreram para a vossa
grandeza. O
restante deve ser feito por vós. Deus não quer fazer
tudo, para
não nos tolher o livre arbítrio e parte daquela
glória que compete a nós. E não é de
admirar se algum dos já citados italianos não tenha
podido fazer aquilo que se pode esperar faça a vossa ilustre
casa, e se, em tantas revoluções da Itália e em
tantas manobras de guerra, parecer sempre que nesta a virtude militar
esteja extinta. Isso resulta de que as suas antigas
instituições não eram boas e não houve quem
soubesse encontrar outras; e nenhuma coisa faz tanta honra a um
príncipe novo, quanto as novas leis
e os novos regulamentos por ele elaborados. Estes, quando são
bem
fundados e em si encerrem grandeza, tornam o príncipe digno de
reverência
e admiração; na Itália não faltam motivos
para
introduzir-se qualquer reforma. Aqui existe grande valor no povo,
enquanto
ele falta nos chefes. Observei nos duelos e nos combates individuais o
quanto
os italianos são superiores na força, na destreza ou no
engenho.
Mas, quando se passa para os exércitos, não comparecem. E
tudo
resulta da fraqueza dos chefes, porque aqueles que sabem não
são
obedecidos, e todos julgam saber, não tendo surgido até
agora
alguém que tenha sabido se sobressair pela virtude ou pela
fortuna
de forma a que os outros cedam. Daí decorre que, em tanto tempo,
em
tantas guerras feitas nos últimos vinte anos, sempre que se
formou
um exército inteiramente italiano o mesmo deu mau exemplo, do
que
dão prova Taro, depois Alexandria, Cápua, Gênova,
Vailá,
Bolonha, Mestri.
Querendo, pois, a vossa ilustre casa seguir aqueles homens excelentes e
redimir suas províncias, é necessário, antes de
toda
e qualquer outra coisa, como verdadeiro fundamento de qualquer
empreendimento,
prover-se de tropas próprias, pois não se pode conseguir
outras
mais fiéis e mais seguras, nem melhores soldados. E, ainda que
cada
um deles seja bom, todos juntos tornar-se-ão ainda melhores,
quando
se virem comandados pelo seu príncipe e por este honrados e
mantidos. É necessário, portanto, preparar esses
exércitos, para poder, com a virtude itálica, defender-se
dos estrangeiros.
E, se bem as infantarias suíças e espanholas sejam
consideradas terríveis, em ambas existem defeitos, pelo que um
terceiro tipo de infantaria poderia não somente opor-se-lhes,
mas confiar em superá-las. Porque os espanhóis não
podem enfrentar a cavalaria e os suíços deverão
ter medo dos infantes, quando no combate os encontrarem obstinados como
eles. Já se viu, e vê-se ainda, os espanhóis
não poderem enfrentar uma cavalaria francesa e os
suíços serem derrotados
por uma infantaria espanhola. E, se bem deste último caso
não
se tenha tido plena prova, contudo viu-se uma amostra na campanha de
Ravena,
quando as infantarias espanholas se defrontaram com os batalhões
alemães,
que têm a mesma organização dos
suíços; aí os espanhóis, com a agilidade do
corpo e auxílio dos
seus pequenos escudos, haviam-se colocado debaixo dos chuços
alemães e estavam certos de feri-los e matá-los sem que
os mesmos tal pudessem impedir; realmente, não fosse a cavalaria
que os atacou, teriam morto todos os inimigos. Pode-se, pois, conhecido
o defeito de uma e de outra dessas infantarias, organizar uma
diferente, que resista à cavalaria e não tenha medo dos
infantes, o que dará qualidade superior aos exércitos e
imporá a mudança de táticas. Estas são
daquelas coisas que, reformadas, dão reputação e
grandeza a um príncipe novo.
Não se deve, pois, deixar passar esta ocasião, a fim de
que a Itália conheça, depois de tanto tempo, um seu
redentor. Nem posso exprimir com que amor ele seria recebido em todas
aquelas províncias que têm sofrido por essas
invasões estrangeiras, com que sede de vingança, com que
obstinada fé, com que piedade, com que lágrimas. Quais
portas se lhe fechariam? Quais povos lhe negariam obediência?
Qual inveja se lhe oporia? Qual italiano lhe negaria o seu favor? A
todos
repugna este bárbaro domínio. Tome, portanto, a vossa
ilustre
casa esta incumbência com aquele ânimo e com aquela
esperança
com que se abraçam as causas justas, a fim de que, sob sua
insígnia,
esta pátria seja nobilitada e sob seus auspícios se
verifique
aquele dito de Petrarca:
Virtude contra Furor
Tomará Armas; e Faça o Combater Curto
Que o Antigo Valor
Nos Itálicos Corações Ainda não é
Morto.
CARTA DE MAQUIAVEL
DE MACHIAVELLI A FRANCESCO VETTORI, EM ROMA
(RELATIVA À OBRA IL PRÍNCIPE)
Magnifico oratori Florentino Francisco Vectori apud Summum Pontificem
et benefactori suo.
Romae,
Magnífico embaixador. Tardias jamais foram as graças
divinas. Digo isto porque me parecia não ter perdido mas sim
estar esmaecida a vossa graça, tendo estado vós muito
tempo sem escrever-me; estava em dúvida de onde pudesse vir a
razão de tal. E dava pouca importância a todas as causas
que vinham à minha mente, salvo quando pensava que
tivésseis retraído de escrever-me, porque vos tivesse
sido escrito que eu não fosse bom guardião de vossas
cartas; e eu sabia que, afora Filippo e Pagolo, outros, de minha parte,
não as tinham visto. Readquiri essa graça pela vossa
última de 23 do mês passado, pelo que fico
contentíssimo ao ver quão ordenada e calmamente exerceis
essa função pública, e eu vos concito a continuar
assim, porque quem deixa as suas
comodidades pelas comodidades dos outros, perde as suas e destes
não recebe gratidão. Desde que a fortuna quer dispor
todas as coisas, é
preciso deixá-la fazer, ficar quieto e não lhe criar
embaraço,
esperando que o tempo lhe permita fazer alguma coisa pelos homens;
então,
será bem suportardes maiores fadigas, zelar melhor das coisas, e
a
mim convirá partir da vilas e dizer: eis-me aqui. Não
posso,
portanto, desejando render-vos iguais graças, dizer nesta minha
carta
outra coisa que não aquilo que seja a minha vida, e se julgardes
tal
que valha trocá-la com a vossa, ficarei contente em
mudá-la.
Aqui estou, na vila; depois que ocorreram aqueles meus últimos
casos, não estive, somando todos, vinte dias em Florença.
Até aqui tenho apanhado tordos à mão. Levantava-me
antes do amanhecer, preparava a armadilha, ia-me além com um
feixe de gaiolas ao ombro, que até parecia o Getas quando o
mesmo voltava do porto com os livros de Anfitrião; apanhava no
mínimo dois e no máximo seis tordos. E, assim, passei
todo o mês de setembro. Depois esse passatempo, ainda que
desprezível e estranho, veio a faltar com desgosto meu.
Dir-vos-ei
qual a minha vida agora. Levanto-me de manhã com o sol e vou a
um
meu bosque que mandei cortar, onde fico duas horas a examinar o
trabalho
do dia anterior e a passar o tempo com aqueles cortadores que
estão
sempre às voltas com algum aborrecimento entre si ou com os
vizinhos.
Acerca deste bosque eu teria a dizer-vos mil belas coisas que me
aconteceram,
bem como de Frosino de Panzano e dos outros que queriam desta lenha.
Frosino,
principalmente, mandou buscar certa quantidade sem dizer-me nada e, na
ocasião
do pagamento, queria reter dez liras que disse ter ganho de mim,
há
quatro anos, num jogo de cricca em casa de Antônio Guicciardini.
Comecei
a fazer o diabo: queria acusar o carroceiro, que fora ali mandado por
ele,
como ladrão. Enfim Giovanni Machiaveili interveio e nos
pôs
de acordo. Batista Guicciardini, Filippo Ginori, Tommaso dei Bene e
alguns
outros cidadãos, quando aqueles maus ventos sopravam, cada um me
adquiriu
uma ruma de lenha. Prometi a todos e mandei uma a Tommaso, a qual
chegou
a Florença pela metade, porque, para empilhá-la, ali
estavam
ele, a mulher, as criadas e os filhos, os quais pareciam o Gabburra
quando
na quinta-feira, com seus rapazes, abate um boi. De modo que, visto em
quem
eu depositava o meu ganho, disse aos outros que não tinha mais
lenha;
todos se encolerizaram e agastaram comigo, especialmente Batista, que
inclui
esta entre as demais desgraças de Prato.
Saindo do bosque, vou a uma fonte e, daqui, ao meu viveiro de tordos.
Levo um livro comigo, ou Dante ou Petrarca, ou um desses poetas
menores, Tíbulo, Ovidio e semelhantes; leio aquelas suas
amorosas paixões, e aqueles seus amores lembram-me os meus;
deleito-me algum tempo nestes pensamentos. Depois, vou pela estrada
até à hospedaria; falo com os que passam,
pergunto notícias das suas cidades, ouço muitas coisas e
noto
vários gostos e fantasias dos homens. Enquanto isso, chega a
hora
do almoço, quando com a minha família como aqueles
alimentos que esta pobre vila e este pequeno patrimônio
comportam. Terminado o
almoço, retorno à hospedaria; aqui, geralmente,
estão o estalajadeiro, um açougueiro, um moleiro e dois
padeiros. Com estes eu me rebaixo o dia todo jogando cricca, trichtach,
e, depois, daí nas cem mil contendas e infinitos acintes com
palavras injuriosas; a maioria das vezes se disputa uma
insignificância e, contudo, somos ouvidos gritar
por São Casciano. Assim, envolvido entre estes piolhos, cubro o
cérebro
de bolor e desabafo a malignidade de minha sorte, ficando contente se
me
encontrásseis nesta estrada para ver se essa malignidade se
envergonha.
Chegada a noite, retorno para casa e entro no meu escritório; na
porta, dispo a roupa quotidiana, cheia de barro e lodo, visto roupas
dignas
de rei e da corte e, vestido assim condignamente, penetro nas antigas
cortes
dos homens do passado onde, por eles recebido amavelmente, nutro-me
daquele
alimento que é unicamente meu, para o qual eu nasci; não
me
envergonho ao falar com eles e perguntar-lhes das razões de suas
ações. Eles por sua humanidade, me respondem, e eu
não sinto durante quatro horas qualquer tédio,
esqueço todas as aflições, não temo a
pobreza, não me amedronta a morte: eu me integro inteiramente
neles. E, porque Dante disse não haver ciência sem
que seja retido o que foi apreendido, eu anotei aquilo de que, por sua
conversação,
fiz capital, e compus um opúsculo De Principatibus, onde me
aprofundo
o quanto posso nas cogitações deste assunto, discutindo o
que
é principado, de que espécies são, como são
adquiridos,
como se mantêm, porque são perdidos. Se alguma vez vos
agradou
alguma fantasia minha, esta não vos deveria desagradar; e um
príncipe,
principalmente um príncipe novo, deveria aceitar esse trabalho:
por
isso eu o dedico à magnificência de Juliano. Filippo
Casavecchia
o viu e vos poderá relatar mais ou menos como é e das
conversas
que tive com ele, se bem que freqüentemente eu aumente e corrija o
texto.
Vós desejaríeis, magnífico embaixador, que eu
deixasse esta vida e fosse gozar convosco a vossa. Eu o farei de
qualquer maneira; mas o que me retém por ora são certos
negócios que dentro de seis semanas terei ultimado. O que me
deixa ficar em dúvida é que estão ai aqueles
Soderini, aos quais eu seria forçado, estando
aí, a visitar e a falar. Receio que ao meu retorno, pensando
apear
em casa, viesse a desmontar no Bargiello, eis que, se bem este Estado"
tenha
mui sólidas bases e grande segurança, ele é novo
e,
por isso, cheio de suspeitas; nem faltam sabidos que, para aparecer,
como Pagolo Bertini, meteriam outros na prisão e deixariam a meu
cargo os
aborrecimentos. Peço-vos me tranqüilizeis deste receio e,
depois,
dentro do tempo mencionado, irei visitar-vos de qualquer modo.
Discuti com Filippo sobre esse meu opúsculo, se convinha
dá-lo ou não e, sendo acertado dá-lo, se era mais
conveniente que eu o levasse ou que o mandasse. Não me fazia
dá-lo o receio de que Juliano não o lesse e que esse
Ardinghelli se honrasse com esse
meu último trabalho. Por outro lado, dá-lo satisfaria a
necessidade
que me oprime, porque estou em ruína e não posso
permanecer
assim por muito tempo, sem que me torne desprezível por pobreza,
isso
além do desejo que teria de que esses senhores Medici passassem
a
utilizar-me, se tivesse de começar a fazer-me rolar uma pedra;
porque,
se depois não conseguisse ganhar o seu favor, lamentar-me-ia de
mim
mesmo, eis que, quando fosse lido o opúsculo, ver-se-ia que os
quinze
anos que estive no estudo da arte do Estado, não os dormi nem
brinquei,
devendo todo homem achar agradável servir-se de alguém
que,
a custas de outros, fosse cheio de experiência. E da minha
fidelidade não se deveria duvidar porque, tendo sempre observado
a lealdade, não
devo aprender agora a rompê-la; quem foi fiel e bom durante
quarenta
e três anos, que eu os tenho, não deve poder mudar sua
natureza;
da minha lealdade e bondade é testemunho a minha pobreza.
Desejaria, pois, que vós ainda me escrevêsseis aquilo que
sobre este assunto vos pareça. A vós me recomendo. Seja
feliz.
10 de Dezembro de 1513
NICOLÓ MACHIAVELLI
Florença.
FONTES & LINKS
Wikipedia
-
Nicolau_Maquiavel