SIMULADOR DE PÍER DA USP
O Laboratório de
Hidráulica da USP, em São Paulo, está auxiliando a
construção
do Píer III do Terminal Marítimo
de Ponta da Madeira, na Ilha de São
Luís, no Maranhão,
de propriedade da Companhia Vale do Rio Doce - CVRD. As obras
estão avaliado em R$ 125 milhões. O Terminal Marítimo embarca granéis sólidos, como minério de ferro, soja e
ferro-gusa, em grande parte,
nos navios
da frota da DOCENAVE.
Foi necessário ensaiar as obras através de um modelo físico em tamanho reduzido do Terminal
Marítimo, com 1,6 mil
metros quadrados, o que resulta em uma reprodução completa da Baia de São
Marcos. Construído a
partir de fotografias de satélite, entre outros recursos, no modelo são reproduzidas todas as
áreas da baía que influenciam
as operações portuárias e projetos da Vale. As simulações são
feitas por modelagem matemática em computador, parceiro de trabalho fundamental com o modelo físico reduzido.
Desde a execução do
projeto até a execução das obras, todos os trabalhos são auxiliados por
testes reduzidos de
laboratório (em São Paulo), que funcionam como suporte técnico, aumentando a
confiabilidade e reduzindo a
maior parte de riscos futuros.
Em virtude da intensa
variação de marés no Maranhão, há a necessidade de se fazer
simulações para
desenvolver uma obra de engenharia. É possível conhecer os efeitos da natureza nas manobras, realizadas pelos comandantes e práticos, como o calado do porto irá variar e a que tensões um
navio vai estar sujeito. Todos
os
detalhes são ajustados para que os testes simulem o que de fato acontece na natureza.
Um Ciclone próximo a
navios e plataformas.
O trabalho
é tão complexo e detalhado que, em uma simulação de
atracação de um navio no píer foram utilizados ventiladores que simulam a
ação dos rebocadores
e câmeras instaladas no convés que dão a mesma visão que o comandante ou o
prático têm no momento
da manobra.
Foram essas análises dos
ensaios de manobras que possibilitaram
determinar quais manobras podem ser realizadas pelas embarcações no Terminal
Marítimo de Ponta da
Madeira. Inclusive as obras de dragagem do porto serão beneficiadas com os estudos.
Para o projeto, foram feitas pesquisas com 11 mil fotografias técnicas, dezenas de
horas de vídeo, 3 mil desenhos
e mais de uma centena de documentos técnicos. Efetuou-se ainda a especificação,
execução, acompanhamento,
elaboração e interpretação das várias campanhas hidrográficas
efetuadas no período de
1972 a 2003.
Em acervo construído ao
longo de 25 anos de parceria, o
projeto conta a totalidade das sondagens batimétricas, levantamentos correntométricos e
sedimentométricos, sondagens
geotécnicas e geofísicas.
É um
exemplo de parceria de sucesso firmada entre uma empresa privada e uma
instituição de ensino
no Brasil. Trata-se de trabalho inédito e
pioneiro no Brasil nestas
proporções e visa atender às necessidades da empresa. O atual modelo físico servirá de base para os estudos de construção de novos
píeres, como os do Porto
de Itaqui.
O DCTA obteve verbas para modernizar seu Túnel de Vento T2 graças à conquista de parceria
com o setor privado. Entre outras, a Embraer procura
aumentar a produtividade e a confiabilidade
de seus ensaios em túnel de vento.
Modelo de um ERJ 170 passando por
ensaio
aerodinâmico em Túnel de Vento do CTA.
(Foto CTA)
Com a modernização do T2,
a Embraer aumentou a confiabilidade dos ensaios realizados em
túnel e diminuir em 30 % o tempo dos testes. O tempo
médio gasto nos ensaios feitos no antigo túnel era de
1.000 horas.
Assim, o trabalho passou a ser feito, em alguns casos, na metade do
tempo. Em outubro de 2005, a Embraer começou uma bateria de
ensaios no T2 do seu novo jato executivo, o VLJ.
A utilização de tecnologias como o túnel de vento
permitiram à Embraer reduzir o tempo de desenvolvimento dos seus
aviões. Em 1996 a empresa levava até 14 meses para fazer
montagem completa do jato ERJ-145, com uma produtividade por empregado
de US$ 40 mil.
Em 2004 o ciclo de produção do jato foi de 3,1 meses e a
receita por empregado atingiu US$ 243 mil. O Embraer 170 tem um ciclo
de 4,3 meses. Em 2002, era de 8 meses.
Historicamente, a Embraer absorve cerca de 85 % do tempo de
utilização dos túneis do DCTA. O projeto do jato
regional ERJ-145, de 50 passageiros, realizou cerca de 4.000 horas de
ensaios no túnel do CTA.
A nova família de jatos
regionais da empresa, 170/190, realizou grande parte dos ensaios em
túneis transônicos (que operam em limites próximos
a velocidade do som) estrangeiros, de Países como a
Rússia, Holanda, França e EUA.
O Brasil
não possui um túnel transônico para operar em
escala industrial. O CTA desenvolveu um protótipo de
túnel transônico. Porém, o projeto (de 10 anos) não foi
levado adiante por falta de recursos. A tecnologia de túnel
transônico está disponível hoje apenas em 6
Países (China, EUA, França, Alemanha, Rússia e
Holanda).
Orçado em US$
80 milhões, o projeto do túnel transônico do DCTA
reduziria a dependência externa do Brasil para a
realização de ensaios de projetos estratégicos
como os da Embraer e os riscos de espionagem.
A indústria aeronáutica não é a
única usuária do túnel de vento do DCTA. Empresas
como a Avibrás e outras dos setores de construção
civil, eletroeletrônico, automobilístico, naval e
plataforma
de perfuração de petróleo também se valeram
do túnel do DCTA para qualificarem seus projetos de acordo com
padrões internacionais de qualidade.
O TÚNEL DE VENTO HIPERSÔNICO
PULSADO
Com
duração prevista de 4 anos, o projeto nacional de um motor hipersônico
do tipo SCRAMJET (ver abaixo),
que é um motor de
propulsão aspirada, previa a construção de um novo TÚNEL DE
VENTO HIPERSÔNICO PULSADO (com tempo de teste curto) no Departamento de Ciência e
Tecnologia Aeroespacial (DCTA).
Este novo túnel foi inaugurado em 15 de dezembro de 2006 e
passou a ser o maior da América Latina. Trata-se do novo
Túnel T3 do DCTA.
(Clique na
foto para ampliação)
Vista aérea da entrada do CTA.
(Foto CTA)
O Túnel T3 conseguiu aumentar o
tempo de testes de 1,5 milésimo de segundo para 3 a 10 milésimos de
segundo. Sua seção de testes pode abrigar modelos maiores porque tem o dobro do
tamanho
do T2, que tem uma
seção de testes de 300 milímetros de
diâmetro.
A visualização
de fenômenos fica mais clara, pois há novas possibilidades para capturar todos os
fenômenos resultantes da combustão.
O processo de combustão acontece em um período de apenas 3
milésimos de segundo, desde o início da interação do ar com o
modelo
ou veículo estudado até a combustão propriamente dita, incluindo a mistura
do hidrogênio com o ar.
INAUGURADO O T3
As partes principais do maior TÚNEL DE
VENTO HIPERSÔNICO PULSADO
da América Latina chegaram a Divisão de
Aerotermodinâmica e Hipersônica do IEAv, do agora Departamento de Ciência e
Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em 18 de outubro de 2006.
O dispositivo, capaz de produzir escoamentos de ar com velocidade de
até 25 vezes a velocidade do som (número de Mach 25), foi
inteiramente projetado no IEAv e seus componentes construídos
por empresas nacionais.
Modelos ou componentes de veículos hipersônicos
com até 1 metro de comprimento poderão ser ensaiados
na seção de testes do novo túnel.
O T3 tem 25 m de
comprimento por 15 cm de diâmetro e fica em um dos
laboratórios do DCTA,
do Comando da Aeronáutica.
Uma perspectiva do Túnel T3
do CTA.
(Arte CTA)
Utilizando ondas de choque para
comprimir e aquecer o ar atmosférico, simulando assim as altas
temperaturas e pressões encontradas por uma aeronave em
vôo hipersônico, o Túnel de Vento T3 é
utilizado para projetos de interesse do Comando da Aeronáutica
(Hipervelocidade e Propulsão com Ar Aspirado) e do Programa
Espacial Brasileiro
(Veículo Lançador de Satélites - VLS e
Satélite
Recuperável Atmosférico – SARA).
O Túnel T3 foi inaugurado e entrou em operação
experimental em 15 de dezembro de 2006, e em operação
plena em 15 de janeiro de 2007, ampliando a capacidade de
simulação experimental do DCTA.
Financiado com recursos da FAPESP, o túnel T3 incorporou a
experiência acumulada no projeto, construção
e operação de seus predecessores, os túneis
hipersônicos T1 e T2 de menor porte, ambos no IEAv. Incorporou
ainda características inéditas que viabilizam o estudo da
interação de pulsos laser de altas energias com o
escoamento hipersônico de
ar.
Hoje, não passam de
10 os países do mundo que têm túneis de vento
hipersônico, como EUA, Rússia, Alemanha e
Austrália. No Japão, está sendo montado o maior
túnel do mundo, com cerca de
100 m de comprimento.
FUNCIONAMENTO DO T3
Ao lado de produzir um tempo de teste bem mais longo que o T1 e o T2, o
que facilita os estudos de combustão supersônica, uma
outra grande vantagem do Túnel T3 está na possibilidade
de ensaios de propulsão a laser, um conceito novo sobre o
lançamento
de micro e nanossatélites para a órbita terrestre,
utilizando
radiação laser.
O comprimento do T3 é de 25 metros e é composto de 3
componentes básicos: uma região de alta pressão,
chamada driver; uma região de baixa pressão
- driven; e a sessão de testes onde é colocado o
modelo, em escala reduzida, do veículo hipersônico a ser
estudado.
Para separar os gases das regiões de alta e baixa
pressão, um disco de metal, ou diafragma, é colocado
entre o driver e o driven. Um outro diafragma
também é colocado para separar o driven e a
sessão de testes, conhecida como tanque de exaustão.
No driver é inserido gás hélio a
5 mil libras de pressão, enquanto no driven é
colocado ar atmosférico em pressões baixas. Na
sessão de
testes onde fica o modelo, todo o ar é retirado para que o
tanque
de exaustão funcione a vácuo, acelerando o
estabelecimento
do escoamento sobre o modelo.
Para iniciar os experimentos, o diafragma que separa o driver
do driven é rompido, de modo a criar uma onda de choque
que aquece e pressuriza o ar, acelerando-o para cima do modelo e
simulando a condição ideal de uma aeronave em vôo
hipersônico.
O equipamento produz escoamentos de ar com velocidade 25 vezes maior
que a velocidade do som. Assim, pode-se simular o vôo de um
veículo em um único estágio, desde quando sai da
superfície até chegar à órbita terrestre.
SIMULAÇÃO
O T3 reproduzirá as condições que aviões e
naves espaciais enfrentam em vôos hipervelozes - de 8,5 km/s (25
vezes a velocidade do som) - e abrirá caminho para a
criação de aeronaves mais leves, mais baratas e mais
rápidas.
O túnel de vento testa veículos aéreos sem
fazê-los voar. Uma versão reduzida da nave é
colocada
numa extremidade do túnel. O veículo fica parado. O ar
é jogado contra ele a velocidades altíssimas, o que faz
com que passe pelas mesmas situações de um vôo.
Os ventos são chamados de supersônicos quando superam a
velocidade do som (340 m/s no nível do mar). Se passam de 6
vezes a velocidade do som, são hipersônicos.
Esse tipo de observação permite saber que formato
uma espaçonave deve ter e com que material deve ser
construída. Se não tiver a aerodinâmica certa, a
nave pode ricochetear de volta para o espaço ao tocar a
atmosfera da Terra. Se não for feita com o material adequado,
pode derreter ao entrar na atmosfera.
LEIS DA FÍSICA
Os ventos hipersônicos sopram no T3 sem a necessidade de motores.
Tudo se dá pelas leis da física. Numa ponta do
túnel, os cientistas comprimem gás hélio. No tubo
vizinho, colocam ar seco - o mesmo que respiramos. Na outra ponta,
dentro do vácuo, instalam a réplica do avião ou do
veículo espacial.
Os cientistas começam o experimento fazendo com que o
hélio quebre a “porta” que o separa do ar seco. Por causa da
força da descompressão, o hélio empurra o ar com
toda força pelo túnel e quebra a segunda “porta”. O ar
então atinge a nave a velocidades hipersônicas. O atrito
do choque do ar com o veículo espacial faz com que a temperatura
dentro do túnel suba a cerca de 7.500° C.
Por causa da velocidade hipersônica, tudo é muito
rápido. O ensaio dura frações de segundo. Sensores
dentro do túnel medem a pressão, o calor e a
ionização, entre outros. As imagens são captadas
por uma câmera especial que tira 2 milhões de fotos por
segundo.
MOTOR HIPERSÔNICO BRASILEIRO
A tecnologia de motores
hipersônicos, uma das áreas de pesquisa eleitas pelo Ministério da
Defesa e o Comando da Aeronáutica como prioritárias e
estratégicas para o
país, conta com o T3 como incentivo para avançar no
projeto do motor
hipersônico brasileiro
Ressalte-se que, além da aplicação em
aviões, os motores hipersônicos também poderiam ser utilizados nas futuras
gerações de mísseis e foguetes brasileiros.
O primeiro
protótipo do motor SCRAMJET
(contração de Supersonic Combustion Ramjet) brasileiro já está
pronto, mas os pesquisadores
ainda trabalhavam no desenvolvimento do sistema de injeção de
hidrogênio gasoso no motor.
As
pesquisas sobre a tecnologia dos motores do tipo SCRAMJET, também conhecidos como motores de
propulsão aspirada, são lideradas hoje pelos EUA. Trata-se do teste feito
com o X-43A
Hyper-X (2)
da NASA, a primeira
aeronave hipersônica do mundo.
O Hipersônico Hyper-X.
(Arte NASA)
O primeiro
teste do motor brasileiro em túnel hipersônico foi
realizado em setembro de 2006.
Antes
de ser testado em vôo, o
modelo
experimental do agora Departamento de Ciência e
Tecnologia Aeroespacial (DCTA) passará a partir de outubro de
2009 por uma bateria de
ensaios no novo
túnel de vento hipersônico e na bancada de ensaio de câmaras de
combustão supersônica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)
em
Cachoeira Paulista.
O Comando da Aeronáutica,
principal incentivador das pesquisas em hipervelocidade no Brasil, investiu
cerca de R$ 2,3 milhões no projeto do motor SCRAMJET, conduzido pelos
pesquisadores do
Laboratório
de Aerotermodinâmica e Hipersônica do IEAv.
O valor inclui toda a
parte de instrumentação dos laboratórios, ensaios no túnel de vento
hipersônico existente, construção de modelos experimentais e de
câmaras de alta velocidade.
A FAPESP
também destinou R$ 2,5 milhões para pesquisa em 4 anos
e a
FINEP avalia uma participação
nesse desenvolvimento - por
volta de R$ 3 milhões - que envolve a construção
da infra-estrutura
necessária para o
vôo do motor em uma câmara blindada.
A aprovação do
projeto pela FAPESP complementará os esforços em andamento no DCTA para demonstrar a viabilidade da construção
de
veículos capazes de voar 6 vezes a velocidade do som.
Efeito do Scramjet do X-43A.
(Arte NASA)
O que se
almeja para o futuro é a construção de um avião capaz de dar a volta
ao planeta em poucas horas sem precisar queimar combustível
fóssil.
O veículo utilizará o próprio ar atmosférico como oxidante, ou seja, para a queima do hidrogênio
líquido (combustível). E só levará o
oxigênio necessário para a queima do combustível no
trajeto fora da atmosfera terrestre.
A nave brasileira com a tecnologia de
propulsão com ar aspirado já começa a exisitr
além do papel. Será um
veículo não-tripulado com
objetivo de colocar satélites em órbita. Batizado de 14X,
deverá voar até 2012. Trata-se de óbvia
referência ao 14 Bis de Santos Dumont, o primeiro avião da
história.
Modelo de 80 cm do 14X
Hipersônico
em ensaio de vento no T3.
(Foto FAB)
FONTES & LINKS
DCTA
IEAv